8 de outubro de 2017

Arquivo Lima Barreto é certificado pelo Programa Memória do Mundo da Unesco


O Registro da Memória do Mundo é uma lista do patrimônio documental mundial, que é recomendada pelo Comitê Consultivo Internacional e endossada pela diretora-geral da UNESCO. Os critérios de seleção para a inscrição de um acervo documental na lista do Registro da Memória do Mundo estão relacionados à sua importância mundial e ao seu destacado valor universal. A Biblioteca Nacional já teve vários documentos e acervos nominados, tais como a Carta de Abertura dos Portos, a coleção do naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira e o Arquivo Artur Ramos.

Em 2017 a Biblioteca Nacional submeteu a candidatura do Arquivo Lima Barreto ao Programa Memória do Mundo. O Comitê Memória do Mundo pede que cartas de recomendação de pesquisadores que tenham conhecimento sobre a importância do acervo integrem o processo de candidatura. Foi uma honra colaborar para essa conquista, à convite da Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional, elaborando a carta que compartilho abaixo:

São Paulo, 6 de julho de 2017.

A/C do Comitê Nacional da Memória do Mundo no Brasil
Programa Memória do Mundo da UNESCO

            Venho, através desta, manifestar apoio inconteste à candidatura do Arquivo Lima Barreto, da Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional, ao Programa Memória do Mundo da UNESCO. Trata-se de um acervo documental composto por mais de mil documentos produzidos e acumulados pelo escritor Lima Barreto (1881-1922), figura destacada no campo literário do Brasil da Primeira República. Literato negro, vivendo a maior parte de sua vida na periferia da Capital Federal de um país recém-saído da escravidão, a documentação em questão guarda testemunho de valor inestimável sobre esse contexto histórico. Cabe ressaltar a singularidade deste acervo, que permite aos pesquisadores de diferentes áreas entrar em contato com uma história do Brasil “vista de baixo”, através da perspectiva de quem observava o mundo e os acontecimentos da época a partir dos subúrbios do Rio de Janeiro e da condição de homem negro que vivenciou a transição da monarquia à república e da escravidão à liberdade, atento aos processos de reiteração dos mecanismos de exclusão e desigualdade preservados – e perpetuados – no início do século XX.
            Lima Barreto fez dos seus romances, contos, crônicas, artigos, diários e correspondências – documentos que integram o seu arquivo sob custódia da Biblioteca Nacional – uma forma de intervenção e participação nos embates da época em que viveu, o que torna esses registros documentais fonte preciosa para o estudo e a compreensão do agenciamento da história por parte de um homem negro no Brasil do pós-abolição. Denunciou incansavelmente as mazelas do regime republicano nos moldes em que foi implantado e concretizado ao longo de suas primeiras décadas de existência, expondo suas contradições e refletindo sobre os desafios que se configuravam naquele tempo. Além disso, acompanhou atentamente os desdobramentos de acontecimentos como a Revolução Russa, a Primeira Guerra Mundial e tantos outros. Autor de vasta produção literária, abordou os mais variados temas e se empenhou em fazer o debate público das grandes questões da época.
            Em vista do exposto, fica evidente a importância do Arquivo Lima Barreto vir a integrar o Programa Memória do Mundo da UNESCO, que tem sido um relevante instrumento na luta pela preservação da memória e do patrimônio documental de diversos povos. Certamente a Biblioteca Nacional, através da sua Divisão de Manuscritos, encontrará respaldo ainda maior para assegurar as condições adequadas de preservação desses documentos com a incorporação desse acervo ao referido programa da UNESCO.

            Atenciosamente,


Denilson Botelho de Deus
Doutor em História pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp
Professor do Departamento de História da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp
Autor de A pátria que quisera ter era um mito, livro sobre Lima Barreto, 
contemplado com o Prêmio Carioca de Pesquisa (2001)

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