31 de julho de 2017

O que Lima Barreto pode ensinar ao Brasil de hoje


Em sua 15ª edição, pela primeira vez a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) homenageia em 2017 um escritor negro. A escolha de Lima Barreto é muito significativa para um país que se debate de forma conflituosa com a herança secular da escravidão. A polêmica sobre a relevância e a pertinência da adoção de cotas, entre outras ações afirmativas, é um indicador do quanto o racismo continua fazendo vítimas entre nós. Por isso, a homenagem ao escritor cumpre uma indiscutível função pedagógica.

Lima Barreto (1881-1922) viveu numa época de transições. No seu aniversário de sete anos viu a abolição ser festejada em praça pública na companhia do pai, registrando as lembranças do episódio em seu Diário íntimo. No ano seguinte, em 1889, viu a monarquia dar lugar à república. E passou a juventude e o resto de sua curta existência – faleceu aos 41 anos – enfrentando os desafios de ser negro num país que aboliu a escravidão, mas não fez com que a liberdade viesse acompanhada dos direitos de cidadania pelos quais temos lutado desde então. Da mesma forma, vivenciou também os desafios de uma república que se fez excludente, frustrando a expectativa por um regime democrático.

Não bastassem as adversidades enfrentadas por qualquer homem negro no pós-abolição, Lima Barreto se fez escritor e sua extensa e diversificada obra constituiu-se em precioso testemunho daquele tempo para as gerações seguintes. Quem quiser compreender o que foi o Brasil nas suas primeiras décadas republicanas, terá que percorrer obrigatoriamente a literatura produzida por esse autor, que olhava para o país a partir de um ponto de observação singular: os subúrbios, a periferia e os bares frequentados pelas camadas populares. Ou a partir de sua casa suburbana que, de modo sarcástico, apelidou de “Vila Quilombo” – para implicar com Copacabana e as elites.
            Mas por que devemos ler Lima Barreto hoje? São vários os motivos, mas um deles revela-se da maior importância. Nos últimos anos, os grandes grupos empresariais de mídia têm contribuído decisivamente para demonizar a política. A pregação de um discurso anticorrupção tem se revestido de um moralismo sem precedentes e, ao mesmo tempo, esterilizante. Muitos são aqueles que têm sido levados a recusar o debate político sob o argumento tolo, generalizante e perigoso que sugere que todo político é ladrão e corrupto. A estratégia abre espaço para a figura enganosa do “gestor”, que, fingindo renegar a política, governa para contemplar os interesses de poucos em detrimento da maioria.

O fato é que encontramos em Lima Barreto um vigoroso antídoto para lidar com essa situação, pois estamos diante de um escritor que fez da literatura a arte do engajamento. Escrever era para ele uma forma efetiva de participar dos acontecimentos. Os mais de 500 artigos e crônicas que publicou em dezenas de jornais e revistas do Rio de Janeiro – assim como seus romances e contos – não deixavam escapar nenhum tema importante em discussão na época. Lima não se esquivava do debate e muito menos de opinar e apresentar enfaticamente os seus pontos de vistas, geralmente urdidos com base nas leituras que fazia quase obsessivamente. Em síntese, escrever era fazer política, era participar da vida política do país e isso resultou numa literatura militante, que nos leva a perceber a centralidade da política em nossas vidas.

Ao mesmo tempo, já na sua estreia como romancista, ao publicar Recordações do escrivão Isaías Caminha, em 1909, Lima Barreto instigava o senso crítico de seus leitores em relação aos métodos e procedimentos do jornalismo, fazendo do romance uma denúncia contra a imprensa, aquele “engenhoso aparelho de aparições e eclipses, espécie complicada de tablado de mágica e espelho prestidigitador, provocando ilusões, fantasmagorias, ressurgimentos, glorificações e apoteoses com pedacinhos de chumbo, uma máquina Marinoni e a estupidez das multidões”.

O autor homenageado pela FLIP em 2017 tem, portanto, muito a nos ensinar sobre a importância de reconhecer a política como instrumento indispensável para a obra - que continua em curso – desafiadora de construção de uma república democrática. Inclusive sobre os desafios forjados por uma imprensa mais comprometida com a “estupidez das multidões” do que com a cidadania que tanto almejamos.

Denilson Botelho, historiador e professor da Universidade Federal de São Paulo. Autor de A pátria que quisera ter era um mito: história, literatura e política em Lima Barreto (Editora Prismas, 2017)

Fonte: Carta Educação, em 25 de julho de 2017

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