31 de julho de 2017

Impressões sobre a FLIP 2017

Aqui vão algumas observações sobre a FLIP, que pela primeira vez tive a oportunidade de acompanhar. Obviamente foi o homenageado desse ano, Lima Barreto, que pesou decisivamente para a minha ida a Paraty, depois de 20 anos sem pisar naquela cidade.

- Inicialmente devo confessar que estive a ponto de desistir de ir a FLIP, apesar de desejar muito participar dessa edição em homenagem a Lima Barreto. Quando comecei a pesquisar preços de hospedagem em Paraty para o período da FLIP, deparei-me com valores absurdos cobrados pelas pousadas, especialmente aquelas localizadas dentro do Centro Histórico. Já estava me convencendo de que a FLIP 2017 seria uma festa de brancos ricos para homenagear um preto pobre, quando descobri a Pousada do Alex, a cerca de 1 km do Centro Histórico. Não foi barato, mas deu para pagar e permitiu que eu fosse a FLIP. Alex é filho de Wanderley, carteiro na cidade, e está transformando aos poucos a própria casa numa pousada. Tem duas suítes para alugar por enquanto. São acomodações simples, mais muito bem cuidadas, confortáveis e com boa localização. Em 5 minutos eu chegava a pé à entrada do Centro Histórico. E Alex e Wanderley são bons de papo. Me senti em casa!

- Participando da ANPUH em Brasília na mesma semana, só pude chegar a Paraty na quinta-feira por volta do meio dia. Por isso perdi a abertura na quarta-feira. Se tem algo que me encantou na FLIP foi ver a enorme tenda na Praça da Matriz lotada de gente assistindo mesas – um bate-papo, na maioria das vezes – sobre literatura. Aquelas centenas de pessoas sentadas, em silêncio, acompanhando atentamente o que os convidados tinham a dizer sobre seus livros ou sobre literatura – e algumas vezes sobre Lima Barreto – me fez pensar no quanto existe um grande interesse por esse tipo de assunto. Interesse que, de modo geral, é desprezado pelos meios de comunicação. Por que a TV aberta não tem um programa em horário nobre sobre livros e literatura? Por que o rádio também não tem? Essa situação diz mais sobre os nossos meios de comunicação do que sobre a sociedade em que vivemos, que se interessa sim por cultura e literatura, por mais que certos jornais sejam grotescamente dirigidos a um espectador do nível Homer Simpson.

- Quem queria assistir às mesas dentro da Igreja Matriz de N. S. dos Remédios transformada em auditório, tinha que desembolsar R$ 55,00 por um ingresso. Lá dentro cabiam algumas dezenas de pagantes. Do lado de fora, na tenda, centenas de pessoas assistiam gratuitamente uma transmissão simultânea num telão de excelente qualidade. Com despesas de deslocamento até Paraty, hospedagem e alimentação, tive que ficar do lado de fora mesmo. Curiosidade de entrar na Igreja/Auditório não me faltou, faltaram os cobres mesmo! Uma ou outra mesa aconteceu num palco montado na tenda, em praça pública, gratuitamente para todos. Foi o caso, por exemplo, da mesa de sexta-feira, às 10 horas, com Lázaro Ramos e a jornalista portuguesa Joana Gorjão Henriques. Não assisti a toda a programação da FLIP, mas esse me pareceu o ponto alto do evento, rivalizando apenas com a mesa de Noemi Jaffe e Scholastique Mukasonga, na noite anterior, da quinta-feira. Lázaro fez uma fala arrebatadora e contundente, demonstrando sensibilidade imensa para tratar do tema do racismo, até que a professora Diva Guimarães roubou a cena levando todos às lágrimas. A emoção diante dessa mesa foi tão grande que eu custei a ter forças para me levantar dali. Foi acachapante! Ficou evidente que seria muito melhor que todas as mesas fossem realizadas na praça, diante de todos, gratuitamente. Acho que a FLIP não deveria cobrar ingressos para um auditório VIP, porque o lugar da literatura é na praça, junto ao povo, como ficou bastante claro. Sobretudo porque lá fora foram muito mais calorosas as reações do público, que por diversas vezes riu, se emocionou, chorou e bradou sua indignação com inúmeros “Fora Temer”, “Fora Pezão” e “Fora Alckmin”.

- Foi um prazer ver Antonio Arnoni Prado comentando a obra e a trajetória de Lima Barreto, apesar da mediação dessa mesa não ter sido das mais competentes. Era nítido que o papel do mediador das mesas era levantar a bola para os convidados chutarem. Pena que nem sempre isso acontecia. Mas concordo que é difícil a missão do mediador numa ocasião como essa.

- Na noite de sexta-feira alguém na plateia projetava no fundo da tenda da praça os dizeres “Folha de S. Paulo apoiou a ditadura”. Não foram poucas as vezes em que o público se manifestou durante as mesas, enquanto lá dentro da igreja/auditório os convidados seguiam falando. Esse descompasso entre o que se passava dentro e fora da igreja só reforça a convicção de que o lugar da FLIP é na praça, não num ambiente fechado e restrito aos pagantes.

- Outro ponto alto da FLIP foi a participação do historiador baiano João José Reis, já devidamente noticiada. Sua fala em defesa das cotas raciais e sociais foi saudada pelo povo da praça com entusiasmo. João Reis mostrou com habilidade como o trabalho do historiador também pode passar pela militância e o engajamento. E seus livros são a melhor demonstração disso.

- Assisti à peça “Diários marginais – Um encontro com Lima Barreto e João do Rio”, da Oráculo Cia de Teatro. A montagem merecia ocupar um espaço mais nobre do que o auditório de uma escola estadual na entrada do Centro Histórico. Mas a FLIP parece regida por um circuito comercial do qual nem todos são chamados a participar. Ainda assim, o teatro resiste, promovendo encontros fantásticos com a força de seu talento.


- Por fim, vale dizer que Paraty continua encantadora e bem cuidada. Vagar pelas ruas do Centro Histórico até se perder – como se fosse possível se perder dentro daquele quadrilátero – nos transporta para outro tempo, por mais que a cidade esteja lotada de visitantes. Há restaurantes e bares de todo tipo. A única coisa que destoa são as lojas de grife (Richards, Farm, Kopenhagen, etc) alugando invasivamente aqueles imóveis coloniais. O lugar dessas lojas é fora do Centro Histórico, convenhamos! Ao invés de grifes de shopping, Paraty ganharia muito mais com uma sala de cinema e um palco para o teatro, que em tudo se somariam à sede da FLIP.

Nenhum comentário: