4 de julho de 2017

Apresentação de Nei Lopes

Se tem algo que me orgulha muito no livro A pátria que quisera ter era um mito é o texto de Apresentação com o qual Nei Lopes me presenteou. O grande intelectual negro que é Nei Lopes, no breve texto que redigiu, dialoga de forma muito generosa com o texto do meu livro. Compartilho abaixo apenas um breve trecho:

"Quem quer, então, que resolva estudar a história e a sociologia da cidade do Rio de Janeiro, tem que passar pelos textos, jornalísticos ou ficcionais, de Lima Barreto. Nem João do Rio, mulato brilhante que tinha sua circunstância étnica maquiada pelos perfumados sobrenomes de família, conhecia tão bem esta parte do Rio que começa no Méier e se espraia até Santa Cruz, Campo Grande, Pavuna, Vigário Geral e Baixada.

É claro que Lima ia à Cidade e a Botafogo. Mas o seu ponto de observação preferido ficava depois do Méier, em Todos os Santos, na rua que hoje se chama Major Mascarenhas. Foi dali que ele fotografou e radiografou a sociedade de sua época, denunciando o racismo e as injustiças sociais e captando com ironia e amargura, mas sempre magistralmente, a vida carioca de então.

Era num boteco de esquina na atual rua José Bonifácio (antiga rua de Todos os Santos) com a velha avenida Suburbana, hoje Dom Hélder Câmara e então Estrada Real, que ele estendia seu acurado olhar sobre o Brasil. Dali, de vez em quando, levantava os olhos fitando a Serra dos Órgãos que ainda se via lá longe, olhando os bois e a velha casa de fazenda. Noutros instantes, olhava o capinzal e se imaginava criança, na roça da Ilha do Governador. E essa foi talvez a causa maior de sua exclusão. Fiel às suas origens étnicas e de classe e repudiando o colonialismo cultural, por isso é que Lima foi rejeitado pelo mundo literário de sua época. Mulato, tudo bem! Biriteiro, idem! Afinal, uns mais outros menos, quase todo mundo era! Mas... suburbano?! (...)

Lima Barreto morava em casa com quintal, lia os jornais e proseava no boteco, parece que jogava no bicho, e ia para o trabalho de trem. Então, foi um carioca suburbano na melhor acepção da palavra. E fez do subúrbio seu posto de observação privilegiado e a matéria prima de seu humanismo absolutamente universal. Por isso, o estudo da história do Rio de Janeiro – repito – passa obrigatoriamente por seus textos, jornalísticos ou ficcionais.

Este livro de Denilson Botelho só vem reforçar esta assertiva. Construindo o perfil político do autor através de seus textos, o livro mostra não uma estrutura ideológica perfeita e acabada (foi marxista? foi anarquista?) mas um ser humano inconformado com a exclusão política, social e econômica que até hoje persiste no Rio e no Brasil. (...)

Neste início do século XXI, parte da subalternidade de negros e brancos pobres pode ser debitada ao modelo educacional. Em geral sem acesso, desde o curso elementar, aos melhores estabelecimentos de ensino, o jovem humilde dos subúrbios e da periferia (e principalmente o afro-descendente) se vê alijado de redes de amizade e parcerias importantes para a vida adulta, o que o afasta do poder decisório, mantendo-se, assim, o círculo vicioso da exclusão.

Assim, o desencanto de Lima com “a pátria que não foi” é o de todos nós. Analisado microscopicamente neste livro, do bacharelismo à condução da política econômica, do autoritarismo à corrupção, esse desencanto permanece absolutamente atual. E foi impulsionado por ele, hoje infelizmente generalizado, que Denilson Botelho – filho de portuário que, sabe-se com que dificuldades chegou à academia – elaborou este primoroso, oportuno e justamente premiado texto.

Lima, como muitos de nós, sonhou uma pátria mítica. Cujo projeto, realizado, ao contrário do que em geral se pensa, deu certo, sim! Ou não foi esse projeto pensado e elaborado para a exclusão sistemática de negros e pobres e a manutenção dos privilégios de sempre?" [Nei Lopes]

A íntegra do texto pode ser lida na 2ª edição do livro lançado em 2017.

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