10 de dezembro de 2015

Imprensa ou capitão do mato?

O helicóptero sobrevoa a Favela da Maré e mostra um suposto ponto de venda de drogas a cinco quadras da Avenida Brasil. Na cena, um homem desce da garupa de uma moto e exibe, sem cerimônia, um armamento pesado. No estúdio, o apresentador faz o maior alarde sobre o caso. Diz que é um absurdo que aquilo aconteça à luz do dia, tão próximo de uma das principais vias da cidade, não muito distante de alguns carros da polícia.

A reportagem foi reprisada ao longo do dia, reiterando a gravidade do “flagrante” capturado pelo helicóptero da emissora. No dia seguinte, vem o resultado: operação policial na referida favela. Tiros, terror, medo e insegurança para todos que vivem naquela comunidade. Não seria surpresa se mais uma “bala perdida” assassinasse uma criança. Não seria surpresa se inocentes fossem mortos sob o manto de mais um “auto de resistência” lavrado pela polícia.

E a gente se pergunta qual é a função que cumpre esse tipo de jornalismo. Primeiro destila o pânico e aterroriza os telespectadores. Em seguida direciona o medo para a favela: lá está o inimigo a ser combatido. Por fim, mobiliza a intervenção policial. Se mais meia dúzia de pobres inocentes morrerem como resultado disso, fazer o que?

Isso é o que podemos chamar de um jornalismo genocida, que dissemina o ódio de classe, que promove a perpetuação da cidade partida. A polícia jamais vai entrar em Ipanema atirando pra todo lado, mas na favela isso é corriqueiro. A imprensa contribui, decisivamente, para reforçar preconceitos e, subliminarmente, reafirmar: o perigo mora lá na favela, não aqui no asfalto. Lá é o trafico que manda, já nos bairros de classe média e alta, não existe tráfico, apenas pobres consumidores viciados, não é? Quanta hipocrisia!

De algum modo, a mídia constrói assim a licença para a polícia matar indiscriminadamente nas periferias. Por isso, não seria exagero afirmar que o sangue corre solto sobre a bancada desses telejornais, sujando as mãos de seus apresentadores e repórteres. O sensacionalismo criminoso que praticam autoriza o genocídio de pobres e negros pelo Brasil afora.

Depois de uma operação policial aqui, outra acolá, tudo volta a ser como antes. O comércio de drogas segue fazendo a fortuna dos que não moram em favelas. Fica apenas a convicção de que essa imprensa não tem qualquer compromisso com as camadas populares. Quantas reportagens você já viu em que a emissora de televisão defende reiteradamente melhores condições de vida para as periferias? Quantas vezes já pediram mais escolas, mais assistência médica, mais emprego, mais transporte, mais infraestrutura? Não, essa imprensa pede é mais balas, mais tiros, mais violência contra os que mal têm como se defender. Quanto maior o pânico, mais justificada fica a opressão e a repressão policial. E maior é a audiência, maior o faturamento comercial com propaganda e marketing, entre um bloco e outro do jornal, entre um cadáver e outro.


Talvez por isso não seja um exagero perceber que a imprensa é uma espécie de capitão do mato do século XXI: dedica-se com o máximo empenho a manter reclusos e aprisionados os pobres e os trabalhadores nas favelas e periferias. Podem até deixar suas comunidades durante o dia, porque alguém tem que suar a camisa para assegurar o lucro alheio numa sociedade capitalista como a nossa, desde que retornem para as zonas de exclusão que habitam. E de tempos em tempos, a mesma reportagem se repete, porque o capitão do mato cumpre diligentemente a sua função.

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