7 de outubro de 2015

A escola pública que queremos, mas não temos

Já há algum tempo vivemos uma situação bastante crítica em relação às escolas públicas de modo geral. A expansão das redes públicas municipais e estaduais não foi acompanhada dos necessários investimentos em infraestrutura, qualidade do ensino e remuneração dos docentes. Por conta disso, assistimos nas últimas décadas uma decadência da escola pública. É claro que existem exceções honrosas, mas essa situação pode ser percebida nas atitudes recorrentes de muitos pais que, desde que tenham mínimas condições financeiras, matriculam seus filhos na escola particular disponível da primeira esquina.

E nisso há um grande engodo, pois nada garante que essa estratégia funcione. Nada garante inclusive que muitas escolas particulares sejam bem piores do que a pior das escolas públicas.

A hegemonia neoliberal consolidou a transformação da educação em mercadoria. O lobby da educação privada se apresenta com toda força em nossa sociedade. Só que a educação não é um serviço a ser contratado na loja mais próxima. Estamos falando da formação de seres humanos. E isso, convenhamos, não tem preço. Para isso, todo investimento é justo e necessário. E jamais alcançaremos a excelência no ensino com professores pauperizados e sobrecarregados com longas jornadas diárias de trabalho, desprovidos da infraestrutura indispensável para o êxito do seu trabalho.

Quero ilustrar meu argumento com a minha trajetória escolar. Estudei da 5ª série do ensino fundamental (hoje 6º ano) ao 1º ano de ensino médio numa das escolas particulares mais caras – ou a mais cara? - do Rio de Janeiro. Meus pais conseguiram, através de um amigo, uma bolsa integral para mim. Não pagavam um centavo sequer pelos meus estudos, arcando apenas com as vultosas despesas com material escolar e livros – fico imaginando até hoje como meu pai, guindasteiro do cais do porto, se desdobrou para bancar esses custos.

É claro que a intenção deles era a melhor possível: me oferecer uma oportunidade de trilhar os caminhos mais promissores que eles poderiam me proporcionar. Sou grato por isso até hoje. Mas não foram os melhores anos da minha vida, porque aquela era uma escola de elite, de gente rica e abastada, coisa que jamais fui. Portanto, não fiz amigos ali – embora o facebook tenha me trazido de volta o contato com alguns poucos bons companheiros de pelada, que praticávamos religiosamente. Na verdade, eu me sentia, muitas vezes, um peixe fora d’água.

Por isso, expliquei aos meus pais que gostaria de prestar concurso para ingressar no CEFET-RJ, uma escola pública federal – hoje IFRJ. Eles, muito generosos, compreenderam meus argumentos e acolheram aquela decisão tomada por mim entre os 14 e 15 anos de idade. E o CEFET foi para mim a melhor de todas as escolas, principalmente porque lá eu amadureci muito no convívio com colegas de todas as classes sociais. Na entrada principal da Avenida Maracanã, chegavam alunos trazidos de carro pelos pais, mas também de ônibus, metrô e trem – trem esse que foi o meu caso muitas vezes. Chegavam alunos de todos os cantos da cidade, desde os mais abastados até as mais distantes periferias.

Nunca esqueço o dia em que um dos meus melhores amigos daqueles tempos, morador da Pavuna, subúrbio carioca, chegou na escola e me confidenciou: “ontem não tinha nada para comer lá em casa, apenas dois ovos cozidos, que dividimos entre todos e comemos”. Esse amigo pensou várias vezes em abandonar a escola para trabalhar em tempo integral, de modo a minimizar as precárias condições de vida de sua família. No CEFET, eu aprendia muito dentro e fora das salas de aula – o que explica o fato de que muitas vezes passei dias inteiros naquela escola.

A escola pública que eu frequentei tinha essa grande qualidade de não ser uma escola classista, mas sim democrática no convívio tão enriquecedor que nos proporcionava. Hoje, já à beira dos meus 50 anos, eu queria que fosse possível matricular nossos filhos somente em escolas tal como aquele meu CEFET dos anos 1980. Ali não havia distinção de classe, como não deveria haver em escola alguma.
Nenhuma escola deveria poder escolher seus alunos entre os que podem ou não pagar pela educação. Hoje, estudam nas escolas públicas majoritariamente os que não podem pagar uma mensalidade. E estudam nas particulares os que podem pagar. E nisso parece que a minha geração falhou, porque perdemos – até o momento – a batalha em defesa do ensino público e gratuito de qualidade.

Não é por outra razão que eu defendo enfaticamente o ensino público em todos os níveis. Escolas e universidades particulares, no geral, prestam um desserviço à construção de uma sociedade democrática e igualitária, dentre outras mazelas – como o ódio de classe - que aí estão diante dos nossos olhos.

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