24 de setembro de 2015

Quando a direita mostra a sua cara


Ontem tive a honra de fazer a conferência de encerramento da décima primeira edição das Jornadas Bolivarianas, evento organizado pelo Instituto de Estudos Latino-Americanos – IELA, da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Em 2015, o evento teve o seguinte tema central: “Literatura e política na América Latina”. Minha exposição abordou a literatura e a militância política de Lima Barreto. Uma descrição sintética do que foi esse encontro pode ser encontrada nesse texto de Elaine Tavares.

Mas não vou tecer aqui comentários sobre a noite de ontem e a conferência que fiz. O que desejo é compartilhar a minha perplexidade diante de uma manifestação ocorrida dentro do auditório, minutos antes de iniciar a minha fala. Repentinamente, alguns jovens entraram no local, carregando silenciosamente cartazes que passaram a exibir diante da plateia ali presente. Posicionaram-se de pé, logo abaixo da mesa que eu e Nildo Ouriques, presidente do IELA, ocupávamos. Ato contínuo, um deles sacou um smartphone e começou a filmar tudo. Não sei se filmava a manifestação apenas ou se esperava filmar alguma reação violenta contra o protesto – reação essa que não ocorreu. Os cartazes, em toscas cartolinas, diziam, se não me engano, coisas do tipo: “Pela libertação de Leopoldo López”, “Fora Comunistas”, “Somos contra a ditadura” e “O bolivarianismo mata”.

Nildo observou pacientemente a manifestação e, em seguida, sugeriu que os jovens se retirassem para dar prosseguimento aos trabalhos daquela noite. Mas eles permaneceram no auditório ainda por alguns minutos, pelo menos até que eu começasse a falar, pois quando assumi o microfone, eles partiram, completamente desinteressados por Lima Barreto – que pena!

Em princípio, nada tenho contra um protesto dessa natureza. Mas me permito fazer pelo menos dois breves questionamentos. Primeiro: que desfecho teria a situação inversa? Imagine um seminário internacional reunindo alguns pensadores, pesquisadores e intelectuais de direita, com o propósito de promover debates com uma orientação de direita. Como seriam recebidos jovens manifestantes de esquerda em protesto silencioso dentro do auditório? O clima atual de intolerância política exacerbada talvez forneça algumas pistas sobre o que poderia ocorrer.

Ontem, por exemplo, circularam vídeos nas redes sociais mostrando a hostilidade com que um líder do MST foi tratado dentro do aeroporto de Fortaleza. Detalhe: João Pedro Stédile não estava fazendo protesto algum, pretendia apenas tomar um voo no referido aeroporto, mas foi perseguido aos gritos por um grupo de pessoas incomodado com a sua presença num espaço em que qualquer indivíduo tem o direito de circular livremente.

Segundo: é o bolivarianismo que mata? Ou é o capitalismo que historicamente mata, ceifando milhões de vidas ao longo de séculos?

Com certeza, seria muito mais produtivo e enriquecedor discutir sobre os interesses da América Latina secularmente espoliada. Isso, por si só, já justifica uma boa reflexão sobre projetos de desenvolvimento desse bloco regional que, através de algumas lideranças, tem ousado caminhar nessa direção, rompendo com a histórica subordinação aos ditames de países de outros continentes. Mas, ao invés disso, o que pude observar ontem foi a direita, sem vergonha nem pudor, mostrando a sua cara. Dessa vez, ela foi silenciosa, ouviu-se no máximo ela rosnar. Mas não tem sido sempre assim... E isso é preocupante, muito preocupante!

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