15 de julho de 2015

Declaração de amor

Há cerca de seis anos eu te abandonei. Não foi uma decisão fácil, porque até hoje eu me confundo com você e carrego muito de ti nas minhas entranhas. Por outro lado, a separação também me fez bem. Me fez crescer e perceber que sou capaz de viver em Teresina, São Paulo ou qualquer outra cidade. No começo a gente sente um baita estranhamento, uma sensação de estar desterritorializado, de não saber como se situar, em que direção seguir, mas aos poucos a gente vai se familiarizando com uma nova geografia que se apresenta.

De qualquer modo, voltar é sempre uma emoção forte. Nas horas que antecedem a chegada, cresce a ansiedade de andar pelas tuas ruas, percorrer as esquinas de sempre e ter aquela sensação de que eu poderia me deslocar pelos teus desvãos quase de olhos fechados, porque sei como chegar ao destino pretendido.

É verdade que a violência urbana tem te maltratado muito. Jamais vou esquecer o assalto dentro do ônibus no Aterro do Flamengo ou a arma apontada para a minha cabeça no engarrafamento. Mas a paranoia da insegurança já não é só tua, é também de São Paulo e de todas as capitais desse país maltratado por profundas desigualdades que insistem em se perpetuar.

De qualquer modo, eu anseio pela hora de caminhar pela Avenida Rio Branco e suas transversais, de passar pela Praça Mauá e dali seguir pela rua Sacadura Cabral até o coração da Saúde, a Praça da Harmonia e suas imediações. Preciso saber como andam as obras que vão desfigurando a zona portuária, sob a promessa da modernização – será? Assim como anseio por desembarcar do metrô na Praça Saens Peña, na esquina da General Roca, área movimentada da zona norte em que eu tantas vezes caminhei. Gosto de seguir a pé pela Barão de Mesquita, passar em frente ao tenebroso quartel da tortura e seguir até a fronteira entre Tijuca, Andaraí e Vila Isabel, onde morei e fui tão feliz.

Pra mim, teus maiores encantos sempre estiveram no eixo centro / zona norte, pedaço de ti com o qual me identifico. E a Tijuca é sempre a antessala de uma floresta urbana que eu tanto admiro. Sei entrar e sair dela pelo Alto da Boa Vista, pelo Cosme Velho, por São Conrado ou pelo Itanhangá. Já subi em tuas montanhas quando jovem, seguindo as trilhas que me levaram à Pedra Bonita, ao Pico da Tijuca e tantos outros recantos indescritíveis. Isso para não falar das Paineiras e suas quedas d’água que nos lavam a alma, acalmam o espírito e encantam o olhar. Lá de cima, você parece tão calma, silenciosa, enigmática e sedutora, sempre pronta a despertar paixões avassaladoras.

Por tudo isso, voltar é sempre muito estranho. Eu sinto como se estivesse voltando para casa, mas uma casa que já não é minha, embora aí esteja o acolhimento da família, de amigos queridos de tanto tempo.


Não sei se um dia voltarei de vez. Talvez sim, talvez não. Quem pode saber? Mas ainda que por poucos dias, cada vez que te visito, ando sempre com o coração descompassado. Porque apesar de todos os pesares, vivendo em São Paulo ou qualquer parte do mundo, eu sou e sempre serei teu. Sou carioca, sou do Rio de Janeiro.

Denilson Botelho

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