22 de novembro de 2014

Sobre a peça "Lima Barreto, ao terceiro dia"

                Ao contrário de muitos outros escritores, Lima Barreto recebeu até hoje pouquíssimas adaptações para o cinema e o teatro. Há tempos assisti uma adaptação muito boa do Cemitério dos vivos, um romance inacabado do escritor. Além de excelente, a peça era especialmente impactante ao ser encenada de forma itinerante pelo interior do prédio do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, onde outrora funcionara o Hospício Nacional de Alienados no qual o autor fora internado. Era uma adaptação de um romance, fazendo uso também de passagens do Diário do Hospício e do conto “Como o homem chegou”, que abordam as traumáticas experiências de internação do autor.
                Já a peça Lima Barreto, ao terceiro dia, em cartaz na Caixa Cultural (com ingressos gratuitos), em São Paulo, até o dia 30 de novembro, segunda adaptação que assisto da obra e da trajetória do escritor para o teatro, é de uma ousadia e criatividade surpreendente. O texto de Luis Alberto de Abreu e a direção de Luiz Antonio Pilar não se limitam a levar para o teatro um dos romances do literato. Quem se dispõe a assistir o espetáculo é presenteado com uma delicada arquitetura dramática que coloca em cena três personagens vivendo momentos distintos: Lima Barreto durante a sua segunda internação no hospício, ao final de 1919, vivido pelo ator Alexandre Rosa Moreno; Lima Barreto moço, ou por volta dos 30 anos, enquanto escrevia, em 1911, o romance Triste fim de Policarpo Quaresma, vivido por Adriano de Jesus; e o próprio Policarpo e alguns dos personagens deste romance, que se passa no tempo do governo de Floriano Peixoto (1891-1894), poucos anos após a implantação da República.
                A peça é constituída de intensos diálogos entre os personagens desses três momentos. Só mesmo no teatro seria possível imaginar o escritor desencantado, submetido a uma internação forçada no hospício, conversando com o jovem romancista engajado, idealista e militante, que há pouco debutara na literatura com o seu primeiro romance. E esses diálogos tornam-se ainda mais instigantes quando adentram o palco Policarpo Quaresma e alguns dos personagens que lhe acompanham nesta trama. Talvez por isso seja possível afirmar que a matéria-prima da peça é especialmente o tempo e as possibilidades de transitar entre o “presente” trágico do hospício, o passado do jovem escritor e o passado ainda mais distante transformado em literatura com Policarpo. Lima mais velho e mais moço trocam farpas sobre o sentido da literatura, objeto de intenso debate entre ambos. Lima no hospício vivencia toda a sua frustração com a literatura, enquanto o Lima em sua fase produtiva, dez anos mais moço, exercita com toda força a literatura como forma de engajamento e intervenção na realidade.
                A ousadia de fazer três tempos conversarem entre si na peça mostra-se muito bem sucedida, na medida em que evidencia toda a força dramática da literatura de Lima Barreto. Texto e direção foram também capazes de captar uma dimensão importante da obra do literato: o humor. Isso faz com que a plateia vá, por algumas vezes, do riso contido até às gargalhadas. Confesso que, durante a peça, me peguei pensando sobre o quanto os romances e contos de Lima Barreto permanecem quase inexplorados pelo teatro e cinema, fazendo de Lima Barreto, ao terceiro dia uma honrosa exceção.
            É igualmente admirável o enfrentamento entre Lima Barreto e seu médico dentro do hospício. O paciente questiona enfaticamente os procedimentos e a autoridade da medicina e do cientificismo, entabulando um diálogo provocador com aquele que se diz supostamente preparado para curá-lo. Resta apenas convencer o paciente de sua doença, uma missão quase impossível.
           Até mesmo o universo feminino é generosamente abordado nesta peça. A presença de Ismênia, personagem de Policarpo, interpretada por Clara Nery, expõe toda sorte de restrições impostas às mulheres do fim do século XIX no Brasil. Se Ismênia questiona o sentido da vida de uma mulher para além do casamento, sua mãe aparece como o contraponto da típica mulher burguesa, casada com o general Albernaz e movida pelas fúteis preocupações com as aparências.
          A peça, embora situada num tempo histórico distante de nós quase um século, mantém forte interlocução com o presente. Se o subúrbio aparece como o refúgio dos infelizes, tal como sugeria Lima Barreto, a República recém implantada carece de reformas, de transformações que até hoje permanecem inconclusas ou mesmo longe de se concretizarem. Nesse sentido, o personagem Policarpo Quaresma, interpretado por Henrique Manoel Pinho, simboliza de forma extraordinária os desafios de ontem e de hoje, desfilando o seu nacionalismo engajado e arrebatador a todo instante.
         Fica, por fim, a certeza de que Lima Barreto é um autor cuja literatura ainda pode render excelentes incursões no teatro. Especialmente se forem pautadas pela ousadia presente em Lima Barreto, ao terceiro dia, que vai muito além da ficção para colocar em cena diálogos que jamais existiram, confrontando o escritor em seus diferentes momentos de vida e alguns dos seus personagens mais emblemáticos. Por isso, quem vai ao teatro vê muito mais do que a literatura de Lima Barreto.

PS – A lamentar apenas o espaço que a Caixa Cultural destinou ao espetáculo. Não se trata sequer de uma sala fechada, mas de um saguão do monumental prédio construído durante o Estado Novo. É um espaço tosco, com pouquíssimos e desconfortáveis assentos, onde tudo é improviso. A Caixa Cultural fica devendo um tratamento mais respeitoso não só ao teatro e aos atores, como ao público e especialmente aos idosos obrigados a aguardar de pé, numa fila, a distribuição dos ingressos. A gente sai da peça se perguntando porque Lima Barreto não merece um teatro de verdade para ser encenado...


Para mais informações sobre a peça, acesse: http://www.limabarretoespetaculo.com/

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