27 de outubro de 2014

O Brasil sai dividido das urnas?

A imprensa brasileira parece viver mesmo no mundo das obviedades, em que circunspectos comentaristas não se constrangem em tecer afirmações que não vão nem um pouco além daquilo que todos já sabemos desde sempre. Não é por outra razão que tendo a admirar quem foge à regra da mesmice, como Janio de Freitas fez em sua coluna na Folha de S. Paulo nesse domingo de eleição:

“O Brasil não fica dividido em razão da disputa eleitoral equilibrada, ou que assim aparenta nas pesquisas. Por um simples e persistente motivo: o Brasil É dividido. Desde que se tornou país”.

Por que tanto espanto? Afinal, vivemos numa sociedade capitalista, cujo pressuposto básico é a desigualdade. Historicamente, a lógica que aqui prevalece é a da riqueza acumulada nas mãos de uns poucos, em detrimento de uma maioria desprovida do que é essencial para sobreviver.

Portanto, me parece bastante razoável que essa maioria esteja dando ao Partido dos Trabalhadores consecutivos mandatos para governar o país durante 16 anos. Aliás, não só eleitores que se enquadram nessa maioria, mas também muitos outros que, ainda que usufruam de confortáveis condições de vida, não se tornaram insensíveis e individualistas, votando com os olhos na realidade que nos cerca e não no doce conforto dos seus lares.

Vivemos numa sociedade de classes e embora o PT não seja um partido revolucionário como alguns desejariam, o seu reformismo tem tido a coragem e a ousadia de alterar um quadro secular e indecoroso de concentração de renda. Milhões foram retirados da miséria, passaram a ter o que comer, a ter uma moradia e a ver os primeiros integrantes de suas famílias ingressarem no ensino superior, que antes funcionava como um mecanismo de reprodução das desigualdades e hoje começa – apenas começa – a mudar de perfil, na medida em que se torna instrumento de ascensão social para inúmeros jovens.

São diversos os programas de inclusão social e de distribuição de renda, bem como as ações afirmativas que precisam avançar e se aprofundar, de modo a promover uma transformação social ainda maior. E é sempre mais fácil defender essa transformação quando se está na oposição, como estivemos durante tanto tempo ao longo dos anos 1980/1990. Difícil é conduzir tais iniciativas num país em que ninguém tem conseguido governar sem estabelecer alianças com o PMDB – e alguns de seus funestos expoentes. Difícil é implementar ações concretas nessa direção respeitando as regras da democracia que temos – e conquistamos arduamente – e dialogando com um parlamento conservador e fisiológico – porque ainda estamos aprendendo a importância das nossas escolhas políticas para o Congresso Nacional, a despeito do desserviço de uma imprensa venal que lança toda a classe política numa vala comum, tendo em vista o seu desapreço elitista pela democracia.

É claro que muitos erros foram cometidos nos últimos doze anos. É certo que em 2003 Lula tinha um capital político muito maior do que Dilma dispõe hoje para ir mais fundo num programa de reformas. Mas o resultado das eleições evidencia que nem mesmo o falso moralismo denuncista reunido sob o clamor anticorrupção foi capaz de apear o PT do poder. Veremos nos próximos 4 anos até onde vai o compromisso e o interesse da nossa sociedade com uma reforma política necessária e com tantas outras mudanças indispensáveis, como a definição de um marco regulatório capaz de impedir os massacres midiáticos que meia dúzia de grupos empresariais insistem em promover cotidianamente.

E é claro que Dilma, eleita, não poderia deixar de negar a existência de um país dividido. Não é demagogia, é o que se espera de um chefe de estado que vai governar dentro do estado democrático de direito. É claro que ela sabe que a oposição vai cumprir o seu papel no Congresso Nacional, embora o seu dever seja abrir o diálogo tal como fez.

Mas nós sabemos que o governo do PT não se confunde com os mesmos interesses que sustentam o PSDB, o DEM e outros partidos do mesmo naipe. As divisões e as diferenças devem ser devidamente explicitadas. Até porque os interesses da Casa Grande não são os mesmos da senzala. E quem vive do suor do seu trabalho tem todo direito de lutar por condições de vida melhores e mais dignas, ainda que a Casa Grande insista em querer se perpetuar assombrosamente em pleno século XXI.

Denilson Botelho

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