16 de setembro de 2013

Para Sérgio Buarque de Holanda, Lima Barreto nem sempre soube "dar lugar a uma verdadeira perspectiva artística". Será?


HOLANDA, Sérgio Buarque de. Prefácio. In: BARRETO, Lima. Clara dos anjos. São Paulo: Brasiliense, 1956. pp. 9-19.

Na página que antecede esse texto (pág. 8), há uma nota informando que o texto usado neste prefácio foi publicado, pela primeira vez, no Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 23 e 30 de janeiro de 1949.

            SBH propõe-se a analisar a obra de Lima Barreto, mas alerta para a dificuldade de fazê-lo sem recorrer ao biografismo, ou seja, sem considerar a trajetória de vida do escritor para compreender a sua obra.
            Enfrenta o tema da comparação entre LB e Machado de Assis, apontando a superioridade do segundo. Observa que Machado de Assis e outros literatos negros souberam fugir da tentação de transformar a vivência do preconceito e da discriminação racial em objeto de seus romances, enquanto LB adotou a estratégia – equivocada - de expor escancaradamente suas humilhações e sofrimentos nesse campo.
            E o que qualificaria e se destacaria na literatura de LB, segundo SBH? Qual seria o sentido da literatura produzida pelo escritor? Sua concepção de arte?
“Lima Barreto limita-se, quase sem exceção, a pôr em prática, fiado no talento que Deus lhe deu e que os desenganos da vida apuraram, as tradicionais convenções da novela realista: criar ‘caracteres’ individuais convincentes e reproduzir com plausível fidelidade as circunstâncias em que se movem esses caracteres”.
            “É efetivamente nessa criação que ele foi poucas vezes superado entre nós. Não raro o senso de caricatura leva-o a engrossar em demasia os traços, mas a verdade é que poucas vezes o inclina, nestes casos, a adotar diante dos personagens a atitude de enfatuação irônica, pobre substituto, entre alguns autores, da dificuldade de exprimir objetivamente uma situação dramática”.
            “Um dos seus traços típicos está em que, apesar da alta missão que para ele representa a arte, soube não obstante conferir dignidade estética às mais humildes aparências. Se, como seu personagem Leonardo Flores, tem de renunciar à fortuna, às posições, à respeitabilidade, não é certamente para fugir à realidade penosa, mas para aferrar-se cada vez mais ao pequeno mundo que erigiu em retiro. ‘O subúrbio’, diz, ‘é o refúgio dos infelizes. Os que perderam o emprego, as fortunas; os que faliram nos negócios, enfim, todos os que perderam sua situação normal vão se aninhar lá; e todos os dias, bem cedo, lá descem à procura de amigos fiéis que os amparem, que lhes dêem alguma coisa para o sustento seu e dos filhos’”.
            “Essa humanidade, despojada da ‘situação normal’, exilada do seu verdadeiro mundo, é que representa a matéria-prima de toda a obra de ficção de Lima Barreto. Não deixa de ser característica a circunstância de uma parte considerável dos seus personagens ter ou julgar ter origens elevadas. [...] Do contrário estaria condenado sem apelo todo o mundo suburbano, pois todos ali se gabam, mais ou menos, de suas origens insignes, todas as famílias, diz o romancista, ‘se têm na mais alta conta, provindas da mais alta prosápia; mas são pobríssimas e necessitadas. Uma diferença acidental de cor é a causa para que uma se possa julgar superior à vizinha; o fato do marido desta ganhar mais do que o daquela é outro’”.
“[...] Essa grandeza alquebrada é como a imagem de muitas vidas humanas que povoam a ficção de Lima Barreto e encontram sua moldura própria no subúrbio”.
            “Se o subúrbio é o lugar próprio dos desterrados, desterrados de uma existência mais alta e mais feliz, cujas maravilhas perduram nas imaginações, enchendo-lhes de um arrepio nostálgico, assim Botafogo e Petrópolis pertencem aos que lograram subir de uma condição originariamente humilde e degradante. Não certamente pelo mérito pessoal, mas por meios duvidosos e menos confessáveis.” (p. 16-18)
        Segundo ainda SBH, esse processo transparece com frequência no conto, “onde a economia natural do gênero permite seu melhor aproveitamento. Aqui a riqueza nunca é fruto do trabalho honesto e lento, que este só serve para entreter a miséria” (p. 18). “O dinheiro e o prestígio andam sempre associados a alguma insondável burla, de modo que são os mais desprezíveis, os menos dominados por escrúpulos de ordem moral, aqueles que de fato sobem e vencem. Todas as coisas andam, assim, fora dos seus lugares e não há meio de concertá-las. Resta o recurso supremo à Arte, onde os humildes podem entrar no reino dos Céus, sem largar o seu subúrbio, e os orgulhosos são fustigados como merecem”. (p. 19)
            Ainda segundo SBH, como esta foi a filosofia de vida de Lima Barreto, “porque ele a viveu intensamente, nem sempre pôde distanciar-se o bastante para dar lugar a uma verdadeira perspectiva artística. Dessa ausência de perspectiva decorrem certamente algumas qualidades e muitos defeitos dessa obra”. (p. 19) E isso teria feito de Clara dos Anjos, por exemplo, “um compêndio desses defeitos”.
            Ou seja, para SBH, faltou a Lima Barreto um certo distanciamento da realidade que o tornasse capaz de construir uma obra artística e literária respeitável - qualidade ausente na maior parte de sua literatura excessivamente confessional.
            Será?

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