28 de setembro de 2013

Gana é um fato sério que dá convicção


Malagueta, Perus e Bacanaço é a minha coletânea de contos à qual a União Brasileira de Escritores deu o prêmio Fábio Prado, a Câmara Brasileira do Livro deu dois prêmios Jabutis (Revelação de Autor e Melhor Livro de Contos do Ano) e que o editor Ênio Silveira, da Civilização Brasileira, publica este ano. Livro de estreia). Estava pronto em 12 de agosto de 1960, data em que veio um incêndio, queimou minha casa, lambeu tudo. Fiquei sem roupas, sem casa, sem livro.

Naquela casa, naquele meu quarto, eu trazia guardadas as coisas que me acompanhavam desde os cinco anos de idade. Eu não escrevia em outro lugar que não fosse o meu quarto porque fora dele eu não sabia escrever. A vida foi me dando porradas, me dando, até que aprendi a escrever em qualquer canto. Sem precisar de casa ou de quarto. Qualquer boteco é lugar para escrever quando se carrega a gana de transmitir. Gana é um fato sério que dá convicção.

(...) Para reescrever Malagueta, Perus e Bacanaço empreguei quase dois anos, que não tinha quarto e quase nem casa. Rodei pensões, bibliotecas, apartamentos de amigos, quartos mesquinhos de hotel; enquanto, durante o dia, trabalhava em escritórios de mil coisas para remendar dívidas e empenhos familiares. Aproveitei intervalos, sacrifiquei domingos, mandei amigos andarem, desertei de muitas coisas. Gramei sobre o papel, o livro veio vindo, vindo e está aí.

Mas tenho esperanças. Tenho levado castigos mas tenho esperanças. Um malandro, meu amigo, dizia:

- A gente cai, a gente levanta, na queda já se aprendeu. Pode ser que ali na esquina a gente dê sorte. 

Parece-me que tenho uma das mais puras bossas para a malandragem, entre as muitas que vi. Mas nunca vi ninguém com tanta vocação de otário.

Logo, minha vida é um trapézio. Mas a minha responsabilidade é grande - eu não tenho rede que amenize as quedas.

Para mim, certas fugas não valem. Os porres resolvem o problema do dono do bar. E certos vícios, com autenticidade, são até virtude.

Não declinarei número de sapato, nem de colarinho, peso e derivantes porque realmente não sei.

Não quero detalhar minhas amizades malandras, que isto não é novela. E tem mais duas propriedades - não sou besta e nem delator. Mas foi lá. Nas beiradas das estações, nos salões do joguinho, nos goles dos botecos, que vi Malagueta, Perus e Bacanaço.

São Paulo, Boca do Lixo, janeiro de 1963.

João Antônio (1937-1996)

Escrito em 1963, este texto foi publicado pela primeira vez na 3ª edição do livro Malagueta, Perus e Bacanaço [São Paulo: Círculo do Livro, 1980].

Fonte: ANTÔNIO, João. Contos reunidos. São Paulo: Cosac Naify, 2012. pp. 569-572


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