5 de setembro de 2013

A literatura e suas relações com o jornalismo

"Amplius!" é um pequeno ensaio que corresponde à abertura da coletânea de contos "Histórias e sonhos". Foi publicado logo depois do aparecimento de "Triste fim de Policarpo Quaresma", com "o intuito de esclarecer o que poderia haver de obscuro em certas passagens dos meus humildes trabalhos". (p. 55)

Trata-se de uma resposta aos seus críticos, em que cunhou uma frase célebre: "A única crítica que me aborrece é a do silêncio, mas esta é determinada pelos invejosos impotentes que foram chamados a coisas de letras, para enriquecerem e imperarem". (p. 56)

A maior parte do texto consiste numa resposta a uma crítica que lhe chegou através de carta anônima, mas que "absolutamente não era injuriosa". (p. 56).

Lima Barreto questiona algumas cobranças do crítico anônimo, como a de não ter falado na Grécia e de fugir à questão do amor. O literato assume sua aversão à Grécia e refuta a tese de que todo romance tem que ter o amor como seu eixo principal.

E em resposta, define sua concepção de literatura:

"Parece-me que o nosso dever de escritores sinceros e honestos é deixar de lado todas as velhas regras, toda a disciplina exterior dos gêneros, e aproveitar de cada um deles o que puder e procurar, conforme a inspiração própria, para tentar reformar certas usanças, sugerir dúvidas, levantar julgamentos adormecidos, difundir as nossas grandes e altas emoções em face do mundo e do sofrimento dos homens, para soldar, ligar a humanidade em uma maior, em que caibam todas, pela revelação das almas individuais e do que elas têm em comum e dependente entre si". (p. 58)

"A literatura do nosso tempo vem sendo isso nas suas maiores manifestações, e possa ela realizar, pela virtude da forma, não mais a beleza perfeita da falecida Grécia, que já foi realizada; não mais a exaltação do amor que nunca esteve a perecer; mas a comunhão dos homens de todas as raças e classes, fazendo que todos se compreendam, na infinita dor de serem homens, e se entendam sob o açoite da vida, para maior glória e perfeição da humanidade". (p. 58)

"Não desejamos mais uma literatura contemplativa, o que raramente ela foi; [...] Não é isso que os nosso dias pedem; mas uma literatura militante para maior glória da nossa espécie na terra e mesmo no Céu". (p. 59)

O texto acaba sendo revelador do que Lima Barreto pensa sobre as relações entre jornalismo e literatura:

"O meu correspondente acusa-me também de empregar processos de jornalismo nos meus romances, principalmente no primeiro.

"Poderia responder-lhe que, em geral, os chamados processos do jornalismo vieram do romance; mas mesmo que, nos meus, se dê o contrário, não lhes vejo mal algum, desde que eles contribuam por menos que seja para comunicar o que observo; desde que possam concorrer para diminuir os motivos de desinteligência entre os homens que me cercam". (p. 59)


Fonte:
SCHWARCZ, Lilia Moritz (Org.). Contos completos de Lima Barreto. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. pp. 55-59.

"Amplius!" foi escrito em 31 de agosto de 1916 e publicado em Histórias e sonhos. 1. ed. Rio de Janeiro: Gianlorenzo Schettino, 1920. p. 7-12. A 2ª edição: Rio de Janeiro/São Paulo/Porto Alegre: Gráfica Editora Brasileira, 1951. E foi publicado também na 3ª edição de Histórias e sonhos. São Paulo: Brasiliense, 1956, pp. 29-35. O autor informa que foi publicado inicialmente no jornal A Época, do Rio de Janeiro.

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