3 de agosto de 2013

Universidade pública: gestão democrática?


                A próxima semana reserva-me nada menos do que quatro reuniões: reunião do Conselho Departamental do Centro de Ciências Humanas e Letras, reunião do Fórum de Coordenadores de Programas de Pós-Graduação da UFPI, assembléia departamental do curso no qual leciono e reunião do Colegiado do Programa de Pós-Graduação em História. E a verdade é que quase todo mês essa rotina se repete.

                As universidades públicas brasileiras são instituições colegiadas e isso é bom, para não dizer necessário, pois desta forma assegura-se um processo de tomada de decisões supostamente mais democrático. Contudo, há vários fatores que me fazem duvidar do caráter efetivamente democrático dessas decisões. Um deles é o fato de que, em geral, essas reuniões têm o seu início marcado por uma grande expectativa: a obtenção do quorum mínimo necessário – que exige a presença de 50% mais um dos integrantes do colegiado ou daqueles que obrigatoriamente deveriam se fazer presentes nestas reuniões. A última reunião para a qual fui convocado simplesmente não aconteceu exatamente por esse motivo: falta de quorum.

                Não é pouco frequente que essas reuniões aconteçam com quorum mínimo, para alívio geral dos que se fizeram presente. Por diversas vezes, já vi professores – em geral bem intencionados – vagando pelos corredores, de sala em sala, em busca do quorum necessário para dar início à reunião. E também observo que certos professores jamais comparecem a reunião alguma, por mais que esta seja mais uma de suas obrigações dentro da universidade. É fato que somos todos excessivamente atarefados e isso eu não discuto. Mas também é fato que sobre aqueles que comparecem a tais reuniões, recai geralmente uma carga de trabalho ainda maior, pois não raro saem dessas plenárias com novas incumbências, das quais os ausentes são poupados. Ou seja, além de não ocupar o seu precioso tempo com reuniões, ainda são premiados pelo fato de não ter que redigir atas, compor comissões, emitir pareceres, etc.

                É verdade que essas reuniões muitas vezes são chatas. Professores com ego avantajado as utilizam como palanque, fazendo intervenções absolutamente desnecessárias do ponto de vista prático, mas extremamente importantes para os seus projetos políticos dentro da universidade – dali sempre pode surgir um futuro diretor de centro, um pro-reitor ou mesmo um reitor. Quem sabe? Assim, uma reunião que poderia ser realizada em apenas uma hora, frequentemente avança por duas, três...

                Mas se os colegiados são a essência da democracia interna nas universidades, porque suas reuniões não são concorridas? São antes cercadas de uma incógnita: “será que vai dar quorum?”

                Longe de pretender formular aqui uma resposta, admito que muitos se ausentam porque as exigências feitas hoje aos docentes das universidades públicas são excessivas: além de lecionar - que envolve leitura, estudos, correção de avaliações e outras tarefas -  regularmente para no mínimo 3 turmas (é o que determina a legislação interna da UFPI para quem não ocupa cargos de gestão e tem doutorado), temos orientações de TCC, PIBIC, pós-graduandos e – não menos importante – tudo o que envolve a pesquisa e a produção do conhecimento em moldes produtivistas tão ao sabor da CAPES. Todos conhecem a lógica do “publish or perish” que vale entre nós.

                De qualquer modo, me parece fundamental repensar o sentido dessas reuniões que se multiplicam em nosso cotidiano. Longe de mim propor uma universidade autocrática, em que as decisões são tomadas individualmente por seus gestores. Afinal, isso poderia colocar em risco a universidade pública que conquistamos e temos. Mas me parece urgente e imprescindível repensar esse modelo de gestão em que os nossos pares recusam-se regularmente a participar da tomada de decisões. Por que agem assim?

                Além disso, penso que entrei na universidade, através de concurso público, para exercer a docência e a pesquisa. Jamais almejei e continuo não desejando exercer qualquer cargo administrativo. Se o fiz nos últimos 18 meses, foi por entender que a maioria dos meus pares assim desejou – ou talvez porque a maioria fuja do exercício dessas funções como o diabo foge da cruz. Mas ingressei no serviço público para lecionar e pesquisar, que é o que considero minha vocação. Portanto, não me identifico como gestor. Mas se os professores não se tornam gestores, quem vai fazer isso para nós, sem comprometer a tomada coletiva de decisões?
                Por fim, diante desse quadro, não me venham repetir a velha máxima de que o povo, sem educação, age como alienado e faz mau uso do seu voto quando chamado às urnas. Na universidade pública, mestres e doutores frequentemente recusam-se a exercer o seu direito de voto nos colegiados em que têm assento garantido. E dizem que são intelectuais...

Por Denilson Botelho

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