11 de julho de 2013

A medicina na Bruzundanga



    A Bruzundanga é mesmo um lugar surpreendente! Não cultivo nenhum apreço pela intromissão do Estado nas coisas que não lhe dizem respeito. Acho que o país padece da síndrome da regulamentação desenfreada, como reflexo de um suspeito desejo de impor regramentos para quase tudo, quando na verdade bastaria respeitar sempre o outro, com ética, honestidade e civilidade. Mas respeito mútuo por aqui tornou-se algo raro há tempos.
                O magistério na Bruzundanga, por exemplo, virou atividade das mais desprestigiadas. A tal ponto que nenhum jovem de classe média deseja hoje ingressar num curso de licenciatura na universidade. Se o menino expressa, na adolescência, qualquer inclinação e interesse por vir a ser professor, é bem provável que receba logo um puxão de orelhas do pai, seguido da advertência:
                - Qual o quê, moleque! Queres ser professor e vai viver de que? De brisa? Vais é morrer de fome com os salários que são pagos nessa carreira. Trate de estudar porque filho meu se forma em Direito ou Medicina! Meu sonho é ter um filho médico na família!
                Se for filho de médico, aí mesmo é que o moleque está lascado e não lhe resta alternativa que não seja o curso de Medicina.
                O fato é que o destino dos egressos dos cursos de licenciatura é, na grande maioria das vezes, a escola pública. Esse é o grande mercado de trabalho para quem ousa insistir em se fazer professor na Bruzundanga nos dias de hoje. Os salários são baixos, as escolas precárias e deterioradas, e as perspectivas de progredir na carreira praticamente não existem. Alguns docentes conseguem atuar em escolas particulares. Nestas, às vezes, ganha-se um pouco mais, é verdade. Afinal, num país em que a escola pública foi abandonada, aos ricos e à classe média não restou outro caminho – pensam eles, iludidos – senão matricular os filhos nas escolas particulares, na esperança de lhes garantir um futuro melhor. Mas o fato é que onde a educação tornou-se mercadoria, não se paga salários dignos aos professores, é evidente! O negócio é lucrar! E como lucram os donos de escolas por aqui.
                A assistência médica na Bruzundanga, por exemplo, foi praticamente privatizada. Quem fica doente e quer receber tratamento médico decente, que pague por isso ou... ou morra. Assim, muita gente não mede esforços para contratar seguros privados de assistência médica que, por sua vez, exploram um número cada vez maior de médicos. Desta forma, o que restou do setor de saúde pública é vergonhoso. Hospitais decadentes e mal aparelhados, além de um atendimento ambulatorial historicamente deficiente.
                São poucos os médicos que, depois de formados, dividem-se entre a rede pública e privada de assistência médica. A maioria sonha pra si, já na faculdade, um consultório bem aparelhado e confortável, no qual será regiamente remunerado pelos seus pacientes, além de hospitais bem equipados para desempenhar suas atividades.
                Eis que, diante desse quadro, a presidenta do país resolveu tomar alguma medida no sentido de alterar o que se verifica na saúde pública. Determinou que, em breve, para se formar, os acadêmicos de medicina terão que passar por dois anos de estágio no setor público. A grita foi generalizada nas entidades da corporação e também entre a classe média e os ricos, que facilmente têm as suas inquietações veiculadas pela mídia. Berram aos quatro cantos contra a atitude da presidenta!
                Eu, cá com os meus botões, só queria entender o seguinte: por que os egressos das licenciaturas são forçados – por falta de alternativa - a atuar nas nossas decadentes escolas públicas pelo resto de suas vidas, não como estagiários, mas sim como professores efetivos, sem que isso cause o menor alarde nos jornais e canais de televisão? Quer dizer que os jovens médicos em formação não podem se submeter ao vexame de atuar em hospitais públicos, conhecendo de perto a dura realidade da imensa maioria de trabalhadores que sequer pode pagar por um plano de seguro saúde? Por que? Por acaso a educação é menos importante do que a saúde?
                Inspirado num velho poema, poderia dizer que ontem aceitamos privatizar a educação, tornando paupérrimo o magistério. Hoje é a saúde pública, já abandonada, que decidimos entregar nas mãos dos interesses privados. E amanhã? Vamos pagar pelo ar que respiramos?
                Caros estudantes de medicina, vão lá fazer o seu estágio na rede pública. Quem sabe no contato cotidiano com a parcela mais explorada da nossa invejável sociedade capitalista, vocês aprendam algumas lições de humanidade, entendendo que não tratam de partes dos seres humanos, mas de gente como um todo. Aprenderão, por fim, quem sabe, a não serem tão indiferentes a ponto de atender um paciente sem sequer olhá-lo nos olhos.
                É claro que a Bruzundanga tem médicos e professores dos quais pode se orgulhar. Aos demais, que vistam a carapuça e protestem à vontade contra este humilde cronista!

Isaías Quaresma

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