20 de junho de 2013

Pelo quê clama o povo na rua?



Por Denilson Botelho

         Acompanho com entusiasmo e perplexidade as manifestações que tomam as ruas das capitais e de outras cidades pelo Brasil afora. A demanda pela redução da tarifa dos transportes públicos parece ter sido apenas um dos fatores que desencadeou o movimento social que vai se avolumando. Alcançada a meta inicial da revogação de um aumento de R$ 0,20, ninguém parece satisfeito. E programa-se para hoje, 20 de junho, uma mobilização nacional.
         Todos nos perguntamos para onde tudo isso vai nos levar e pelo que clama afinal o povo na rua. Há um clamor pelo passe livre, pelo direito de ir e vir, privatizado por grupos empresariais que faturam alto há décadas sobre o nosso direito de livre locomoção. Além de livre e gratuito, que o transporte seja digno e de qualidade, ao invés da humilhação cotidiana que sempre foi. Não queremos mais ser tratados como gado, transportados em carrocerias de caminhões que são destinadas ao transporte de carga, não de seres humanos. E queremos mobilidade rápida e eficiente, que só é possível sobre trilhos.
         Para além disso, contesta-se um grave desvirtuamento de prioridades. Ao invés de grandes eventos esportivos mundiais, capazes de abarrotar ainda mais os bolsos dos empreiteiros que enriquecem criminosamente às custas do suor do povo, queremos ensino público e gratuito de qualidade, saúde pública eficiente e gratuita para todos, entre outras demandas legítimas e históricas.
         Contudo, o que me soa preocupante nessas manifestações são as bandeiras contra a corrupção e contra os partidos, indicando tratar-se de um movimento apartidário.
Quanto à corrupção, é evidente que todos devemos protestar e nisso não há nada de inquietante. Estranho seria o contrário. Mas a corrupção precisa ser combatida em todas as esferas, no poder público em todas as suas instâncias e também no cotidiano de cada indivíduo que tem tomado as ruas de assalto. A corrupção está disseminada nas nossas práticas mais corriqueiras. Negá-la é o mesmo que varrer a sujeira para debaixo do tapete. É prática difusa e disseminada na sociedade, não acomentendo com exclusividade políticos e autoridades. Com isso, não quero evidentemente negar a importância do combate à corrupção, mas ressaltar a importância de nos olharmos no espelho e examinarmos detidamente, um a um, até onde vai a condenação de tais práticas no nosso cotidiano. Ou seja, não se vai abolir a corrupção por decreto, é problema mais complexo. Assim, evitaremos que o movimento que está na rua transforme-se em mera evocação do passado, da vassoura moralista da UDN que elegeu Jânio Quadros ou da TFP que saudou com alegria o golpe de estado que deu início a 21 anos de ditadura nesse país.
         Quanto ao pretenso caráter apartidário do movimento, meu desconforto é ainda maior. Ora, o que faz o povo na rua nesse momento senão tomar partido em face dos problemas que enfrentamos? Não existe luta que não seja política e ideológica, nem mesmo quando se pretende negar ou ocultar tais princípios. Aliás, a negação do caráter partidário e ideológico sempre me causa preocupação ainda maior.
         É verdade que convivemos com um sistema político falido e uma estrutura partidária estagnada e excessivamente verticalizada. Não sou e nunca fui filiado a partido algum, embora tenha votado minha vida inteira no PT. Adolescente, vi o PT ser criado e encher de esperança a minha geração. O PT era um partido de base, que ouvia as bases que o compunham em rotineiras – e saudáveis – assembléias. Foi isso que fez do PT um partido popular, de massas, capaz de eleger presidente da República um retirante nordestino que virou operário e uma militante que participou da luta armada contra a Ditadura. Em nome da governabilidade, o PT abandonou suas bases e estabeleceu alianças frustrantes com o que há de pior na política brasileira. E assim vai perdendo força, embora continue no poder – porque o eleitor não é burro e sabe escolher entre a privataria neoliberal tucana e os programas sociais que retiraram milhões da miséria nos últimos anos.
         Refiro-me ao PT, mas sinceramente eu gostaria de ver os partidos de esquerda nas ruas. Sua presença não pode ser repelida, deve antes ser acolhida. Cabe dirigir aos partidos de esquerda as críticas e demandas que levam multidões às manifestações. Por que os partidos de esquerda não estão nos representando como desejaríamos? Que partidos de esquerda queremos? Mas os protestos têm que assumir sim caráter partidário ou de uma frente partidária de esquerda, que possa efetivamente viabilizar as transformações que queremos. Várias das bandeiras que estão nas ruas são bandeiras históricas das esquerdas.
         O que não me convence ainda é a ausência de lideranças e o rumo que isso tudo tomará. Não há líderes e as decisões são tomadas em rede? Mudaremos o mundo através das redes sociais ou estas serão um eficiente instrumento de mobilização para as transformações que desejamos efetivamente realizar? Saímos mesmo do facebook? Mas quantos brasileiros estam nas redes sociais? O Brasil cabe nas redes sociais ou essa é uma miragem das metrópoles?
         Por fim, acho importante lembrar que, no passado, travamos uma árdua luta pela redemocratização do país nas últimas décadas. Uma parte importante dessa luta correspondeu à criação de um regime democrático pluripartidário. Não foi fácil criar partidos de esquerda e torná-los capazes de assumir o poder. Não foi obra da noite para o dia. Daí a sua importância.
         Ao invés de rejeitar os partidos, seria bom ver o povo na rua lutando por uma ampla reforma política. Se não nos sentimos mais representados pelos partidos que temos, vamos reformá-los e modificá-los tanto quanto for necessário, assim como o sistema político carece de transformações. Porque o meu medo é o que pode resultar dessa repulsa aos partidos. Afinal, todas as vezes em que a saudável existência de partidos foi rejeitada, a humanidade viveu períodos sombrios e terríveis - como nos fascismos, no Estado Novo, na Ditadura Militar, etc.
         É por isso que clama o povo na rua?

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