17 de maio de 2013

Porque é preciso não perder de vista uma perspectiva global da história

Discurso de abertura da II Internacional Conference Strikes and Social Conflicts Dijon, França, em 15 de maio de 2013:

Quero começar por agradecer à Maison des sciences de l´homme, a Serge Wolikow, a todos os que se envolveram na organização desta conferência, a todos os membros da Associação e a todos os presentes. E cumprimentar o reitor da Universidade da Borgonha.

Durante estes 2 anos assumi a presidência de uma associação académica que foi fundada com o propósito de promover e divulgar estudos sobre o trabalho e os conflitos sociais numa perspectiva interdisciplinar, global, não eurocêntrica e de longa duração.

Dois objectivos centrais nortearam o nosso trabalho.

O primeiro foi a ligação académica, e interdisciplinar, entre o norte e o sul do mundo, não numa perspectiva eurocêntrica mas com a real noção de que temos que nos escutar, ler, estudar, debater, mutuamente, para compreendermos a história e a sociedade: sabemos que os 30 gloriosos na Europa foram de sangue e trabalho forçado nas colónias, e só foram possíveis porque a exploração das colónias manteve-se nesse período; percebemos que a escravatura terminou também por ser pouco produtiva para o império britânico, no seu arranque da revolução industrial; prevemos que a abertura do mercado chinês na década de 90 do século XX foi fundamental para fazer cair o real valor dos salários na Europa, nesse período.
Global, mais do que comparativo, é saber que o modo de produção capitalista é um. E que o trabalho também tem que ser analisado à escala global, não só pelas já conhecidas ondas migratórias mas porque a cadeia produtiva é feita à escala global e portanto, no mesmo navio, pode haver motores de alta tecnologia feitos na Holanda, em fábricas limpas por imigrantes marroquinos, motores esses que usam o aço que poderá ter sido feito a partir da recolha de minério na Amazónia, feita com trabalho infantil. Hoje, no Dubai, há operários despedidos dos estaleiros navais de Portugal dos anos 80 que são encarregados de controlar o trabalho de imigrantes filipinos, que nunca conheceram uma comissão de trabalhadores.
Esta associação teve um papel determinante na ligação, e que hoje se pode ver pelo programa desta conferência, entre investigadores dos EUA, da Europa, da América Latina e também da África do Sul. Expandi-la e continuar este trabalho é portanto hoje um dos objectivos, colectivos, com os quais nos devemos comprometer.
O segundo objectivo foi trazer, para além dos estudos do trabalho, do movimento operário, dos partidos e da teoria política, que aqui também estudamos, a noção de conflito social para dentro destes estudos. Porque o trabalho não é uma fotografia quieta, quase estática, como nas belas obras de Lewis Hine, mas um filme complexo de uma relação tensa entre trabalho e capital, como nos Tempos Modernos de Chaplin. Trabalho não é só uma máquina guardada num museu de arqueologia industrial, é uma relação mediada e trespassada pelo conflito, como o que fez nascer a jornada de 8 horas de trabalho no 1 de Maio de 1886, em Chicago. Temos a consciência de que esta divisão entre capital e trabalho continua a ser uma divisão central e que portanto a sua expressão – conflitos sociais, greves, revoluções, movimentos sociais, diversas formas de acções colectiva – deve ser alvo do nosso olhar enquanto cientistas sociais.
Esta não é uma associação de estudos das greves e dos conflitos sociais, apesar do nome, mas é uma associação onde também se estudam greves e conflitos sociais - daí o nome. 
Não glorificamos o passado mas não o tememos. Por isso sabemos que a revolução de Santo Domingo no final do século XVIII, a única revolução de escravos bem-sucedida história e que deu origem ao Haiti, foi muito mais longe do que alguma vez os britânicos sonharam, ao apoiarem a revolta contra os franceses, então donos da ilha; sabemos que na China mais de 100 000 greves tiveram lugar há 2 anos obrigando ao aumento até 20% dos salários; temos presente que a crise de 29 teve como desfecho o nazismo mas para se chegar ao nazismo foi preciso derrotar a revolução espanhola, a frente popular em França, a guerra civil austríaca, as sit down strikes nos EUA. 
E que o nazismo foi derrotado ao fim de 6 anos, também por causa dos trabalhadores armados, obrigando ao nascimento do estado social, como forma de conter a revolução na Europa, o mesmo estado social hoje ameaçado pelas medidas contra cíclicas. Sabemos também que a greve de Flint nos EUA em 1998 só envolveu 9000 operários mas parou 26 das 29 fábricas da GM nos EUA, no Canadá, México e ameaçou a produção no Brasil, ao todo mais de 120 mil operários ficaram total ou parcialmente parados, porque a cadeia produtiva, nesta caso, de motores, foi parada numa das suas pontas. Lembramos que em 2003, 25 000 estivadores pararam os portos da Califórnia contra a guerra do Iraque, e que no dia 20 de março de 2003 deu-se a maior manifestação de sempre, a mais internacionalista da história da humanidade, contra a invasão do Iraque pelos EUA. 
A história é processo, não é uma fatalidade. Somos nós que a fazemos, nas suas tragédias e júbilos, um processo feito de sujeitos sociais e não um delírio teleológico divino. Ela portanto compreende escolhas, de pacto ou conflito, de derrota ou vitória, às vezes de empate, embora saibamos, não duradouro. 
No meio da mais intensa crise que se vive na Europa desde provavelmente a II Guerra Mundial, o nosso papel como cientistas sociais não pode ser ignorado, sobretudo o nosso papel social. Independentemente das nossas escolhas pessoais com a vida fora da academia, temos obrigação de desconjuntar os lugares comuns construídos na luta politico-mediática. A Europa não está ameaçada de um conflito que opõe norte a sul, a Alemanha à Grécia. A mudança em curso nas relações laborais no sul da Europa, com tendência à generalização da precarização, é parte de uma mudança geral na Europa, em que a queda do salário do trabalhador grego, por pressão migratória, por deslocalização de empresas, ou pela simples existência de uma superpopulação relativa (massa de desempregados) à escala europeia, representa também a queda do salário do trabalhador alemão e quem sabe o retorno e a perseguição de imigrantes fora do espaço Schengen.
Não sabemos se os trabalhadores europeus resistirão à pressão nacionalista de culpar países inteiros pela crise, não diferenciando classe e sectores sociais dentro de cada país, mas estamos cá também para lembrar que foi a incapacidade de construir uma alternativa internacionalista que levou às tragédias da I e da II Guerra Mundial.
Quase a terminar deixem-me recordar que uma das características desta associação é a sua diversidade disciplinar e teórica. Mais do que um lugar-comum ou de um desejo nunca alcançado, esta associação representa de facto grupos de investigação, arquivos, centros de pesquisa que representam as diversas e mais importantes correntes do movimento operário (social democrata, católica, comunista, anarquista, extrema-esquerda, etc.) e as abordagens teóricas principiais sobre os estudos do trabalho.
Compreenderão que o sucesso destas escolhas da Associação, mede-se, por ora, em três factos de que nos orgulhamos: o primeiro, a edição do jornal académico Workers of the World, de acesso livre online, que hoje tem 120 downloads por dia; a realização destas conferências e a imensa rede que se constrói diariamente com a troca de correspondência, informações, ligações que tecem a história global do trabalho. Passámos de 12 para 34 instituições membros e hoje chegamos a talvez mais de 10 000 investigadores em todo o mundo só através da associação e certamente a muitos mais pela revista académica. Hoje lançámos o nº3 de WW, dedicado justamente à história global do trabalho, editado pelo Christian DeVito. Continuar este trabalho, reforçá-lo, alargá-lo, depende de todos nós. 
Convido por isso todos os membros e aqueles que querem trazer a sua instituição para a Associação a estar presentes na Assembleia Geral que decorrerá dia 16 no final da conferência. 
Homenageamos neste congresso, e com isto termino, dois vultos das ciências sociais do pensamento social e político. O britânico Eric Hobsbawm e o brasileiro Carlos Nelson Coutinho. Carlos Nelson Coutinho, gramsciano, um dos mais importantes intelectuais brasileiros de seu tempo, Professor Emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, construi uma obra à volta desta frase que carregou sempre consigo: “Sem democracia não há socialismo, e sem socialismo não há democracia". Deste lado do Atlântico, Hobsbwam, conhecido de todos vós, historiador britânico, autor de obras cimeiras sobre a contemporaneidade, deixou-nos com um alerta: “o Mundo não vai melhorar sozinho”.
Desejo-vos uma excelente conferência.
Raquel Varela, Presidente da International Association Strikes and Social Conflicts (2011/2013)

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