16 de abril de 2013

O momento


Lima Barreto

            Sempre fui contra a república. Tinha sete anos e vinha do colégio primário, do grande colégio de que me lembro sempre com ternura e cheio de saudades da minha boa professora, Dona Teresa Pimentel do Amaral, quando me disseram que se havia proclamado a república.
            Não tinha naqueles tempos outras cogitações que não fossem a de glória, a da grande, imensa glória, feita por mim sem favor, nem misericórdia, e vi que a tal de república, que tinha sido feita, espalhava pelas ruas soldados embalados, de carabinas em funeral.
            Nunca mais a estimei, nunca mais a quis.
            Sem ser monarquista, não amo a república.
            João Ribeiro disse-me, certa vez, que a república era a cultura parda; pois sou como o senhor João Ribeiro; nunca houve anos no Brasil em que os pardos, os malditos do seu Haeckel, fossem mais postos à margem.
            O nosso regímen atual é da mais brutal plutocracia, da mais intensa adulação aos elementos estranhos, aos capitalistas internacionais, aos agentes de negócios, aos charlatães tintos com uma sabedoria de pacotilha.
            Não há entre os ricos, entre os poderosos, nenhuma generosidade; não há piedade, não há vontade, por parte deles, desejo de atenuar a sua felicidade, que é sempre uma injustiça, com a proteção aos outros, com o arrimo aos necessitados, com o fervor religioso de fazer bem.
            Têm medo de ser generosos, têm medo de dar uma esmola, têm medo de ser bons.
            Se a dissolução de costumes que todos anunciam como existente, há, antes dela houve a dissolução do sentimento, do imarcescível sentimento de solidariedade entre os homens.
            Eu, há mais de vinte anos, vi a implantação do regímen. Vi-a com desgosto e creio que tive razão.
            [Publicado originalmente no Correio da Noite, em 3 de março de 1915. Extraído de: RESENDE, Beatriz e VALENÇA, Rachel (org.). Toda Crônica: Lima Barreto. Rio de Janeiro: Agir, 2004. Volume I, p. 174]

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