21 de março de 2013

Os conluios da Bruzundanga


       A Bruzundanga é mesmo um país terrível, onde acontecem coisas inacreditáveis. Agora mesmo o juiz da mais alta corte do poder judiciário veio a público afirmar que muitos juízes deveriam ser banidos da magistratura. Afinal, existem casos de notório favorecimento indevido, em que juízes acabam tomando decisões criminosamente generosas.
         Afirmou ainda o digníssimo magistrado que "o conluio entre juízes e advogados é o que há de mais pernicioso" e que há muitos magistrados "para colocar para fora". As declarações foram feitas diante das câmeras de televisão, durante o julgamento na suprema corte de um juiz acusado de relação indevida com advogados, como receber caronas, além de ter liberado R$ 1 milhão para uma pessoa que já havia morrido. Atacou também a relação de magistrados e advogados e disse que esse conluio é pernicioso porque "sabemos que há decisões graciosas, condescendentes e fora das regras".
         O traço de perversidade desse país imaginário que é a Bruzundanga – criado pela mente fértil de um literato que viveu na belle époque carioca – fica por conta de uma constatação. Nessa nação só os pobres são presos pelos crimes que cometem. Se um trabalhador esfaimado, num gesto desesperado, surrupia um alimento das prateleiras de um supermercado, rapidamente é conduzido ao xadrez, correndo ainda o risco de levar uns tabefes a caminho da delegacia. E sem meios para se defender, pode mofar numa penitenciária depois do “grave crime” cometido.
         Já um fausto juiz, se é pego em flagrante destinando R$ 1 milhão para um defunto, recebe uma dura punição na Bruzundanga: pode ser, no máximo, aposentado! Seria isso um prêmio ou um escárnio para com a população?
         Outro dia mesmo eu relatei aqui o caso de um presidente de tribunal que fez um acordo espúrio com uma grande empresa do ramo do ensino superior. Estando a famigerada “universidade” atolada em dívidas trabalhistas que se multiplicam e inundam os tribunais – tal como as enchentes que assolam o Rio de Janeiro -, o juiz, condoído, fez uso de sua generosidade e bateu o martelo, determinando que o réu – no caso, uma instituição de ensino – deve gozar de longos 9 anos para quitar seus débitos com ex-professores que repetidamente desrespeitou no passado. E tudo isso se fez sem consulta a uma das partes interessadas: os advogados dos ex-professores. Ou seja, não se sabe mais o que é um acordo nessa infame pátria.
         O ato generoso do juiz teve contudo objetivo nobre: permitir que aquela instituição continue funcionando normalmente, sem se tornar financeiramente insolvente, e pagando em dia os seus funcionários. Ainda que corra solto por aí a informação de que seus professores continuam com salários atrasados e outros direitos trabalhistas sendo desrespeitados com a maior desfaçatez.
         Ainda bem que a Bruzundanga não existe.

Por Denilson Botelho

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