3 de fevereiro de 2013

A tragédia de Santa Maria e os abusos da Fala Jornalística

Por Ana Regina Rêgo

A tragédia da boate Kiss na cidade de Santa Maria comoveu o país de norte a sul. Mais de 200 mortos, todos jovens e em sua maioria, estudantes universitários, compuseram o cenário de dor e tristeza em um ambiente que deveria ser somente de alegria e diversão. Esse fato para além de sua extensão sociale de seu inegável “valor notícia” tornou-se por outro lado, o grande acontecimento midiático deste início de ano. É certo que a mídia e neste meio, o jornalismo, teve papel de destaque na visibilidade maximizada do evento, mas também é certo que mais uma vez o jornalismo deu provas de sua inabilidade para tratar com acontecimentos dessa natureza e magnitude.

Em primeiro lugar, a pressa na apuração dos fatos e a enxurrada de informações desencontradas e incorretas.

Depois a necessidade explicita da mídia e do jornalismo em assumir a função de juiz social. Muitos meios de comunicação e muitos jornalistas se apressam em julgar os acontecimentos e apontar os culpados, ao menor sinal de que algo está em desacordo com as leis.

Por último, o papel de “abutre” social.  A meu ver, extremamente desnecessário. Pois bem, é sobre este último papel que vou discorrerno presente artigo, sobretudo, porque os questionamentos sobre os dois primeiros itens levantados, já foram discutidos por outros profissionais exaustivamente nos últimos dias.

Segunda-feira, 28 de janeiro, em sala de aula na Universidade Federal do Piauí, falávamos sobre o dever de memória da mídia em relação a diversos acontecimentos traumáticos que ocorreram em nossa sociedade. Como não poderia deixar de ser o tema do incêndio de Santa Maria veio à tona e os alunos tanto se manifestaram frente ao trabalho da imprensa como em relação aos abusos da fala jornalística. Em certo momento, surgiua polêmica questão do papel de “abutre”. Alunos colocaram que em pesquisa realizada informalmente por eles,a maioria dos jornalistas atuantes nos meios de comunicação do Piauí, concordam que é necessário ao jornalista assumir essa postura agressiva quando vão cobrir acontecimentos trágicos, pois o mais importante é a notícia. 

Prontamente discordei. A notícia não é e nunca será mais importante que a vida e que o respeito. A notícia surge para suprir uma necessidade social por informação. É certo que a construção simbólica do discurso jornalístico, muitas vezes equivocadamente, pressupõe e se sobrepõe ao acontecimento, mas é o acontecimento que guarda em si a verdadeira importância social e, portanto, todo jornalista deve guardar consigo os valores sociais e humanitários, que devem se juntar ao conhecimento adquirido,na hora da transformação do fato em notícia.

Não vejo necessidade alguma do jornalista abusar do seu poder de fala e se pendurar nos caixões do velório coletivo de Santa Maria para interrogar os familiares sobre seus sentimentos. A desculpa para tal conduta éa de que é importante informar tudo e apurar todos os ângulos da notícia.  E aí refaço aqui a pergunta que coloquei para minha turma: _É mesmo necessário? 

A comoção tomou conta do país. O sentimento de dor e tristeza invadiu a nação brasileira. A dor pela perda de um filho é comum a toda humanidade. O sentimento de revolta e indignação também. Então existem horas em que é melhor calar. Falar e interrogar pessoas no momento de uma grande dor é quase desumano. Segue minha segunda interrogação:  Será que o jornalismo torna seus profissionais desumanos? Será que perdemos o sentimento de humanidade?

Não, não acredito que venhamos a perder a nossa humanidade, basta verificar qual a conduta adotada pelos jornalistas quando algo trágico nos atinge, ou atinge a algum de nossos familiares. Tudo muda e a conduta jornalística também. 

No caso específico de Santa Maria, os abusos cometidos pela imprensa revelam que nossos profissionais apesar da larga experiência, em alguns casos, não estão preparados para tais situações. Em outros casos, que pode até ser maioria,ainda atuam como os nossos antepassados manipuladores, buscando atingir o maior índice de audiência através da sedução midiática, carregando e explorando ao máximo a carga emotiva dos personagens. 

Qualquer que seja o caso vale novamente lembrar nesta coluna o que nos disse o Papa João Paulo II em Madrid em 1982, quando afirmou que o jornalista deve pensar o processo comunicativo como ator e também como receptor, e, portanto, praticar a empatia. Pensar na família, nos entes queridos, nos filhos e em todos que lhes são caros, porque a qualquer hora, podemos mudar de lugar, passando de noticiador a notícia. 

Vale lembrar ainda que conforme o pesquisador, Francisco Karam,25% dos códigos de Ética do jornalista ao redor do mundo afirmam  que é necessário trabalhar a notícia com integridade, justiça e imparcialidade. Na mesma direção 100% dos códigos de ética falam que o jornalismo deve buscar a verdade dos fatos, enquanto que 62% falam que os profissionais devem evitar a calúnia e a difamação. Por outro lado, 46% dos códigos falam que o jornalismo deve servir ao bem comum e 34% falam da responsabilidade social do jornalista. 

Fica a dica: jornalista sim, mas com humanidade e respeito!

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Ana Regina Rêgo - Phd em Comunicação Corporativa. Mestre em Comunicação e Cultura. Jornalista. Consultora. Profa. PPGCOM-UFPI. Email: ana.rani@uol.com.br

Publicado no jornal O Dia (Teresina), em 31 de janeiro de 2013.

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