10 de janeiro de 2013

Simpósio Temático sobre "História, Literatura e Sociedade" no XXVII Simpósio Nacional de História - ANPUH

Convido a todos os pesquisadores (das áreas de História, Letras, Sociologia, Antropologia, Política, Economia, Comunicação Social e outras) interessados na temática deste simpósio, cuja abordagem de suas pesquisas esteja inserida na perspectiva proposta pelos coordenadores, a submeterem propostas de comunicação até o dia 31 de março de 2013. Nosso objetivo é promover uma rica e estimulante troca de experiências de pesquisa em Natal - RN, entre os dias 22 e 26 de julho próximo. Solicito que divulgue nossa proposta junto aos seus contatos, especialmente aos eventuais interessados.

Mais informações sobre inscrições: http://www.snh2013.anpuh.org/inscricoes/capa

ST-087. História, literatura e sociedade:

Coordenadores: ADRIANO LUIZ DUARTE (Pós-doutor(a) - Universidade Federal de Santa Catarina), DENILSON BOTELHO DE DEUS (Doutor(a) - Universidade Federal do Piauí -UFPI)
Resumo
Este Simpósio Temático propõe-se a abordar a literatura como fonte, problematizando os seus limites e sua condição de documento. Trata-se de analisar a sua produção, circulação e consumo. Pretende-se discutir pesquisas que tenham as seguintes questões norteadoras sobre a literatura: Quem escreve? Em que condições sociais, políticas, econômicas e culturais o faz? Como o produto do seu trabalho é apropriado, lido e consumido?

Justificativa
Este Simpósio Temático pretende constituir-se em fórum de apresentação e discussão de pesquisas realizadas por historiadores (e todos os interessados de áreas afins: sociologia, política, antropologia, economia, letras etc.) que investigam a literatura e a consideram “uma fonte como outra qualquer”. Isso coloca-nos diante de uma primeira e crucial questão: discutir seus problemas e limites como documento. Supõe refletir sobre sua produção, circulação e consumo, tendo no horizonte as seguintes questões: quem escreve? Em que condições sociais, políticas, econômicas e culturais o faz? Como o produto do seu trabalho é apropriado, lido e “consumido”? Dito de outro modo, pensar a literatura como fonte documental é pensar, simultaneamente, sobre o escritor como intelectual, sobre as condições de produção da materialidade da obra (o livro), sobre o público leitor e suas estratégias e apropriações de leitura. Assim, acreditamos que o melhor referencial teórico para se pensar a literatura como fonte documental é o que supõe uma perspectiva materialista e dialética, própria da história social: por um lado, o escritor, o livro e o leitor só adquirem significado quando postos no contexto material e temporal que os configuram; por outro, literatura é uma fonte que só adquire plena significação quando entendida como parte da totalidade histórica (como, aliás, todas as fontes), ou seja, um fenômeno ao mesmo tempo cultural, econômico, social e político. Mas a literatura está inserida numa tradição de obras e autores, que deve ser considerada como parte constitutiva do seu significado. É nesse movimento entre contexto e tradição que ela deve também ser apreendida como fonte peculiar. Privilegiar um desses aspectos em detrimento dos outros necessariamente implicará uma visão limitada e destorcida do seu significado.

Sendo a literatura produto do seu tempo, do seu contexto e da sua própria tradição, cabe ao investigador refletir sobre como o contexto histórico e social se transmuta em forma literária. Essa é uma pergunta crucial se queremos, como sugeriu Raymond Willians, escapar do estético como uma dimensão abstrata à parte e com uma função abstrata. Em entrevista recente o critico literário Antônio Cândido, definiu essa relação, de forma irônica e profunda: “A minha fórmula é a seguinte: estou interessado em saber como o externo se transformou em interno, como aquilo que é carne de vaca vira croquete. O croquete não é vaca, mas sem a vaca o croquete não existe. Mas o croquete não tem nada a ver com a vaca, só a carne. Mas o externo se transformou em algo que é interno. Aí tenho que estudar o croquete, dizer de onde ele veio”.
Outra referência teórica importante neste campo de pesquisa – e para os organizadores desse simpósio – é a obra de Edward Palmer Thompson, para quem a análise literária exige buscar a compreensão das redes e tensões sociais mais amplas nas quais a literatura é forjada. Tal como nos estudos sobre o universo dos trabalhadores que este historiador inglês realizou, os literatos são também apreendidos a partir de sua experiência. Entender essa dimensão da obra literária, a experiência histórica vivida por escritores e literatos, é condição básica para os historiadores. Por esta razão, texto e contexto são dimensões indissociáveis de um mesmo processo, devendo ser analisados em conjunto, levando-se em conta suas conexões recíprocas.
Assim, esse simpósio temático pretende agregar estudiosos das relações delicadas e difíceis entre história, literatura e sociedade, nos séculos XIX e XX, de qualquer quadrante geográfico.  
Bibliografia
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