15 de novembro de 2012

Entre a universidade pública e a particular

No dia 22 de outubro de 2012 recebi um pedido de entrevista de uma repórter que se identificou como pertencente a um jornal localizado no Estado de São Paulo. Como apenas 10% (se tanto!) da entrevista foi publicada, decidi reproduzir aqui Na Bruzundanga –, na íntegra, as perguntas e respostas. Fossem outros tempos, a entrevista ficaria no fundo de uma gaveta qualquer e fim de papo. Contudo, hoje a internet nos dá autonomia para publicar até mesmo o que um trabalho de edição acaba eliminando.


Para quem tiver interesse e paciência, segue a entrevista, que pode ser especialmente útil em tempos de vestibulares e seleções para ingresso no ensino superior.

- Em termos gerais, como você analisa a situação das instituições de ensino superior particulares e públicas?

Penso que constituem um dos setores mais estratégicos para o desenvolvimento do país. Sem ciência, tecnologia e produção autônoma de conhecimento, nenhum país jamais conseguiu consolidar uma trajetória ascendente no cenário internacional. Por isso, acho que o Estado deve dedicar o máximo de atenção, investimentos e acompanhamento às instituições que atuam no ensino superior. O desafio que está colocado é o de ampliar a oferta de vagas sem comprometer o ensino e a formação de qualidade. No que diz respeito às universidades públicas, vejo que é preciso aumentar a eficiência. Um curso de licenciatura numa universidade pública, por exemplo, não pode ter 100 alunos ingressando por ano e apenas 30 ou 40% conseguindo concluir a sua formação. Existe aí um problema a ser investigado e solucionado. Por outro lado, uma instituição particular precisa compreender a singularidade do empreendimento em que se envolveu e não pode se conduzir pela busca desenfreada do lucro fácil e rápido.

- Você acredita que existem vantagens das particulares sobre as públicas? Se sim, comente.

Não acredito que exista vantagem alguma, a não ser pelo calendário imune a greves. Se bem que, mesmo uma greve prolongada como a que tivemos recentemente nas universidades públicas também guarda aspectos pedagógicos. A greve ensina sobre a realidade que temos. E a ausência de greve nas universidades particulares é um indício da falta de liberdade e da precariedade das relações de trabalho a que os docentes em geral estão submetidos.

- O fato de as universidades públicas disponibilizarem menos vagas pode significar que quem estuda ali é "a nata", os mais inteligentes?

Não concordo com esse argumento. Acho que existem bons alunos nas públicas e nas particulares. Contudo, é evidente que os processos de seleção significam alguma coisa e não podem ser desconsiderados. Eu mesmo já lecionei para alunos de particulares que tanto ingressaram rapidamente na pós-graduação, quanto se inseriram no mercado de trabalho com êxito. A universidade no Brasil ainda é para poucos e quem está no ensino superior é parte de uma "elite". Permanece um caráter excludente no ensino superior como um todo.

- Você corrobora com a opinião de que as públicas visam mais o lado acadêmico e as particulares mais o mercado de trabalho?

Discordo. Em muitas universidades públicas o que se verifica é uma formação mais crítica, abrangente e humanista. Por outro lado, na sede de apresentar resultados, as particulares muitas vezes extrapolam na formação técnica de "mão-de-obra" com menos senso crítico e formação intelectual mais pobre. Mas ambas, no final das contas, formam para o mercado de trabalho. A questão é que, ora essa formação pende mais para o lado técnico, ora para o lado intelectual. E se o indivíduo que adquire uma formação de nível superior não se torna um intelectual capaz de pensar de forma autônoma sobre a sua condição e a realidade que temos, isso é grave!

- Na sua opinião, qual é a diferença mais latente e decisiva entre as universidades pública e particular?

Nas públicas temos condições concretas de pesquisar e produzir conhecimento. Quando se contrata um professor com Dedicação Exclusiva (DE), você já tem a base para proporcionar a esse docente o acesso a pesquisa e a produção de conhecimento. Já nas particulares, é raro ter um docente contratado com DE, visto que prevalece o regime de contratação por hora-aula, como horista - com exceção das PUCs e similares. Isso é terrível! Isso amesquinha a carreira docente no ensino superior. Se o professor tem que correr de uma universidade para a outra para conseguir compor uma renda mínima com dignidade, a pesquisa e a produção do conhecimento estão inviabilizadas. E o Ministério da Educação, ao compactuar com isso, é cúmplice e permissivo. Então eu percebo que o regime de contratação dos docentes e a produção de conhecimento distinguem profundamente públicas e privadas. As particulares frequentemente não querem produzir nada de novo, preferem apenas reproduzir, pois o custo é menor. E isso é uma lástima, porque existem docentes nessas instituições que são talentosos pesquisadores a espera de uma oportunidade de trabalho mais digno.

- O vestibular das particulares é mais flexível na hora da nota de corte ou é o número de vagas nestas faculdades que é maior?

O número de vagas das particulares hoje é maior sim. Quem operou essa tragédia foi o governo Fernando Henrique Cardoso, nos anos 90. Até aquele momento, eram as públicas que ofereciam o maior número de vagas no ensino superior. Desde então, os interesses comerciais prevaleceram e houve uma expansão pouco - ou nada - criteriosa das vagas nas particulares. Em certas capitais, abria-se uma faculdade como se abre um botequim. Até que o baixo poder aquisitivo da população determinou os limites dessa expansão desenfreada, cujos efeitos o governo federal insiste criminosamente em amenizar através do PROUNI. E eu digo que é criminoso porque significa injetar recursos públicos - ainda que seja por meio de renúncia fiscal - em instituições privadas cuja qualidade é muitas vezes questionável. Quanto ao vestibular, nas particulares, muitas vezes ele é uma farsa. Basta ver os escândalos em que se descobriu a aprovação até de analfabetos. A verdade é que, nesses vestibulares das particulares, muitas vezes basta se inscrever que logo você estará matriculado. É receita? Vai pagar? Então está aprovado! Já o ENEM e os vestibulares das públicas têm outro caráter, mais sério e respeitado.

- Diante da sua experiência, como você avalia o peso dos dois tipos de instituição em um currículo profissional?

Quem confere credibilidade à formação é o aluno e os docentes que atuam no ensino superior, seja público ou privado. O que atrapalha nesse setor é a sede de lucro inescrupulosa. Mas eu vejo excelentes profissionais formados em ambas as instituições. Se o aluno for dedicado e encontrar bons professores pela frente, ele pode alçar voos ambiciosos, à despeito da instituição em que se formou.

- Você acha que as novas regras do sistema de cotas pode ser um fator desestimulante para do aluno?

Acho que são estimulantes para as universidades públicas repensarem suas estratégias de ação. O país tem que lidar com esse passivo histórico de exclusão social e racial. As universidades particulares só existem para quem pode pagar por elas. E se o governo, através do MEC e do INEP, intensificar as avaliações sobre a qualidade do ensino, metade das particulares fecha as portas de um dia para o outro. Basta verificar se estão cumprindo efetivamente as exigências de contratar mestres e doutores com Dedicação Exclusiva.

- Por favor, fique à vontade para fazer as considerações que achar necessárias.

Recomendo aos estudantes que desejam ingressar no ensino superior que verifiquem se o curso ao qual pretendem se candidatar possui um programa de pós-graduação stricto senso (Mestrado/Doutorado) avaliado e reconhecido pela CAPES. Caso possua, vá em frente, pois ali se pesquisa e se produz conhecimento, ou seja, a chance de obter uma formação acadêmica de qualidade é bem maior. Afinal, você não estará ingressando num curso de professores horistas, mas sim com professores que são valorizados pela instituição de ensino em que atuam. Isso faz toda a diferença!

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