30 de outubro de 2012

O intérprete dos perdedores

Autor marcado pela origem proletária e por uma obra literária protagonizada por vadios, golpistas, jogadores de sinuca, cafetões e prostitutas, o paulista João Antônio Ferreira Filho teve várias mortes antes de ser encontrado inerte sobre a cama, em seu apartamento, no Rio, em 1996. Com uma perna esticada e outra apoiada no chão, em avançado estado de decomposição, João Antônio, aos 59 anos, desaparecera um mês antes da vista dos parentes e amigos, quando os policiais arrombaram a porta, a pedido dos vizinhos. Recebido com prêmios e afagos da crítica em 1963, ao estrear com o livro de contos Malagueta, Perus e Bacanaço, passou os 12 anos seguintes sem publicar, foi novamente celebrado com o segundo livro, Leão de Chácara (1975), antes de passar os últimos anos amargando a falta de ressonância dos derradeiros textos.

O criador de "momentos épicos" na vida de seres marginalizados acabou como vítima de uma cilada folhetinesca, ele que, considerado herdeiro da geração modernista de 22, reverenciou o projeto regionalista dos contemporâneos de Graciliano Ramos, enveredou pela trilha aberta pelo boêmio Lima Barreto (1881-1922) e acabou construindo um monumento aos personagens marginais em trânsito por uma São Paulo em pleno processo de transformação industrial, a cidade dos migrantes e dos malandros sem destino. Entregou-se, então, à bebida, passou por um sanatório carioca e, finalmente, voltou à literatura, mas a própria atividade, que o aproximou de intelectuais e acadêmicos, acabou afastando-o do mundo desregrado de sua juventude.

Sem pertencer ao universo burguês, que abominava, e já distante da malandragem suburbana, ele parecia, nos últimos anos, congelado num purgatório interclassista, antes que a morte terminasse por silenciar a voz de João Antônio. Durante muito tempo, sua obra ficou restrita a estudos e teses acadêmicas. Só em 2001 a editora Cosac Naify recolocou em circulação alguns títulos mais conhecidos do autor, entre eles o primeiro, Malagueta, Perus e Bacanaço, Leão de Chácara, Ô, Copacabana, Dedo-Duro e Abraçado ao Meu Rancor, graças à iniciativa do editor e escritor Rodrigo Lacerda.

Agora, a mesma editora lança Contos Reunidos, extenso volume com mais de 600 páginas e textos dos principais livros do autor, além de dois dispersos e um inédito (A Um Palmo Acima dos Joelhos) publicado com exclusividade nesta edição (leia abaixo). Contos Reunidos (crítica na página ao lado) reúne também ensaios sobre o autor escritos por Jorge Amado (1912-2001), Alfredo Bosi, Antonio Candido e Paulo Rónai (1907-1992), além de dois textos introdutórios de João Antônio para a terceira edição de Malagueta, Perus e Bacanaço e Abraçado ao Meu Rancor - o último inédito e encontrado entre seus papéis no arquivo da família. A despeito de ter vivido como um nômade, o filho de migrantes era organizado, como prova o Vocabulário das Ruas, bônus do livro Contos Reunidos que reproduz o "dicionário" de gírias compilado por João Antônio numa caderneta de telefones, cujo original se encontra no Centro de Documentação e Apoio à Pesquisa (Cedap) na Unesp de Assis, que guarda o arquivo do escritor.

 
Na falta de cadernetas, ele usava maços de cigarro virados ao avesso para anotar novas palavras ou comentários sobre o mundo marginal. João Antônio fumava muito, bebia demais e seu lugar preferido, depois do quarto onde escrevia, era a cama dos bordéis. Quando a casa de seus pais pegou fogo, no dia 12 de agosto de 1960, por causa de um ferro de passar esquecido na tomada, parte de Malagueta, Perus e Bacanaço foi queimada. Ele, então, aprendeu a escrever em qualquer canto, especialmente nos botecos, revela no prefácio da primeira edição do livro. Como redator publicitário, gostava de alimentar a lenda sobre a queima total dos originais do primeiro livro, mas certo é que João Antônio tinha o hábito de enviar a intelectuais amigos trechos para avaliação - e é possível mesmo que ele tenha reescrito fragmentos de sua obra inaugural numa sala da Biblioteca Municipal de São Paulo, mas não o texto integral. Truque de malandro.

Filho de um comerciante português e de uma carioca descendente de escravos, João Antônio frequentou a escola da malandragem ainda criança, na época em que seu pai mantinha um pequeno armazém no "beco da Onça" da Rua Cayowaa, no bairro da Pompeia. Migrantes e pobres conviviam no beco, de operários mamelucos a seresteiros cafuzos, passando por moleques atrevidos como João Antônio, que jogava capoeira e frequentava as rodas de chorões incentivado pelo pai, tocador de bandolim. A mãe, intuindo o futuro do filho, empurrou o garoto para trabalhar como office-boy, mas sua bicicleta era rápida demais para ficar parada na Lapa, onde estudava. Ainda adolescente, começou a frequentar bordéis, salões de sinuca no Bom Retiro e favelas nas várzeas dos rios.

Flagrado pela polícia com as mãos no taco, aos 16 anos, João Antônio foi levado pelo pai para trabalhar num frigorífico, depois numa agência bancária e, mais tarde, numa pequena agência de publicidade. Frequentando o curso de jornalismo, escrevia com frequência para intelectuais que só conhecia de nome, para os quais enviava seus textos. Participava também de concursos literários como o da revista A Cigarra, que tinha na comissão julgadora Paulo Rónai e Aurélio Buarque de Holanda. Ganhou um deles pelo conto Fujie, narrativa poética em que um lutador de judô (João Antônio aprendeu a luta) conta a desventura de se envolver com a mulher do melhor amigo, concretizando a traição numa noite chuvosa. No epílogo, revelador, o narrador assume sua canalhice, mas culpa a cidade, a chuva, a zoeira das moscas e tudo o que vive por sua traição.

No mundo de João Antônio, esses personagens errantes e sem freio dividem-se entre malandros e otários, ou "merdunchos", como se referia o escritor aos "perdedores" das classes periféricas. Nesse inferno dos afásicos, tais personagens andam de um lado para outro, sem rumo. Os diálogos são secos e a narrativa, circular, como no conto Malagueta, Perus e Bacanaço, filmado por Maurice Capovilla, que começa e termina no mesmo lugar, dando um giro de 360 graus na retórica malandra para afirmar que a exclusão desses marginais é total numa cidade dividida, fragmentada e avessa ao diálogo entre diferentes classes sociais. Nela, o rufião Bacanaço, cínico jogador de sinuca, e seus companheiros, o velho esmoleiro Malagueta e o jovem batedor de carteiras Perus, partem da Lapa na esperança de arrumar algum dinheiro. Passam por diversos bairros, da Pompeia ao Tucuruvi, para voltar, derrotados, ao ponto de partida, atravessando a madrugada dos viradores num bico de sinuca.

Antonio Candido, num texto publicado no Estado por ocasião da morte do escritor, ocorrida em outubro de 1996, evoca Lima Barreto para dizer que, assim como o ídolo do autor, João Antônio passou por cima das normas (também gramaticais) para criar um mundo de leis próprias, "transfigurando" a noite paulistana e fazendo da transgressão "um instrumento que nos humaniza". Em síntese: João Antônio deu voz aos marginais, mas preservou seu estilo literário, ao tratar da vida de subproletários urbanos que viram delinquentes. Ao trocar a periferia de São Paulo pelo Rio, aos 27 anos, para trabalhar como repórter, a sintaxe explosiva do autor mudou. Ele, idem. A exemplo do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, o excessivo contato com o mundo burguês terminou por afastá-lo do submundo que conhecera na juventude, segundo Rodrigo Lacerda, "a ponto de provocar nele próprio um dilacerante estranhamento". Foi a passagem de João Antônio para o limbo. Tragédia irreparável.

Por ANTONIO GONÇALVES FILHO

Publicado no O Estado de S.Paulo, em 27 de outubro de 2012.

Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-interprete-dos-perdedores-,951708,0.htm

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