12 de setembro de 2012

Derradeiras reflexões sobre a greve docente

Hoje estou particularmente aliviada. A lucidez do comando local de greve da UFJF prevaleceu e o encaminhamento em prol do fim da greve foi majoritariamente aprovado pelos docentes reunidos no saudoso auditório do também saudoso ICHL. Talvez esta atmosfera de saudosismo tenha provocado este tipo de reflexão. Há muito não frequento assembleias. Fui nas duas últimas, como muitos de nós, com o intuito de pelo menos entender a racionalidade da manutenção de um movimento grevista, derrotado quando o governo acordou com o Proifes o acordo que resultaria no PL enviado ao Congresso no dia 3 de agosto. Teimosia? Idealismo? O que mantinha aqueles docentes em greve?
Me surpreendi com a presença massiva de professores jovens. A maioria deles com idade suficiente para terem sido formados por mim, por minha geração. No entanto, eram pessoas jovens com discursos velhos. Me soou tudo muito anacrônico. Pensei então que talvez aqueles ex-alunos tivessem aprendido conosco a protestar, cursando graduações interrompidas por inúmeras greves e aprendido também que se resiste às imposições mais duras do capital sobre o trabalho, pela via dos movimentos sociais organizados.

Antes de me sentir culpada, percebi que eles é que haviam faltado às aulas de História. Tive que ouvir ex-alunos dizerem que o governo Dilma era igual à ditadura militar ou uma continuidade da política privatista de FHC. Certamente, estes alunos faltaram às aulas de História. Pois quem nivela o passado achando que diferentes líderes, pertencentes a diferentes tradições políticas, sejam incapazes de ser diferentes entre si,não entende nada de História ou faltou muito às aulas. A culpa não era minha. Estava diante de uma miopia política de uma geração, muito equivocada.

O que aconteceu com nosso sindicato? Criado no contexto de uma ditadura militar, impôs-se como uma das únicas alternativas de resistência ao arbítrio. Lutou incansavelmente pela manutenção de uma carreira meritocrática, que premiava a pesquisa e o compromisso com a qualidade. Entre os inúmeros resultados desta luta insana esteve a valorização da titulação, da pesquisa, do ensino de qualidade e da democracia interna dos mecanismos de decisão.

Em que nos transformamos passados estes curtos anos? O Andes hoje defende uma carreira linear em que os docentes não mais se distinguem pelo mérito, mas por números. Professor 1, 2, 3 e até 13... Imaginem vcs chegarmos num evento científico internacional e nos apresentarmos como professor 1, 5, 10 e 13 ? Perdemos a noção? Para além das trocas meramente semânticas - que para mim significam muito - a ascensão hoje proposta caminha à revelia do mérito. Com a proposta do Andes pretende-se chegar ao topo da carreira sem titulação. Quando perdemos nossa perspectiva? Em que período da história de nosso movimento sindical perdemos nossas raízes fundadoras, e com elas, nossa identidade, que é e deve ser essencialmente meritocrática? Desqualificam agora os pesquisadores. Ter bolsa de produtividade significa hoje estar vendido ao esquema competitivo capitalista e produtivista. Ser competente, comprometido, envolvido é hoje demérito. Que valores são esses?

O Andes elaborou um comunicado que recomenda a continuidade de uma greve morta. Ao invés de basear-se nas assembleias que definiram pelo fim da greve, obedeceu a uma equivocada determinação estatutária, onde só votavam os presentes. Eram 30: 17 a favor da continuidade da greve e 13 contra. Mas muitas ADs não representadas encaminhavam pelo fim da greve. Manteve-se o estatuto e abandonou-se a vontade coletiva. Quando isto ocorre, qualquer manual de polîtica básica consegue explicar: o sindicato esvaziou-se, perdeu o controle do movimento, distanciou-se da base, virou um quadro burocrático. De todas as greves que participei- e foram muitas - esta foi a maior, a mais forte e a mais mal conduzida. Me perdoem meus ex-alunos. Talvez a maior lição que teria que ter-lhes dado não dei. Para diferentes temporalidades, diferentes análises, diferentes estratégias e diferentes projetos. Nesta greve, como já disse de outras vezes, a leitura da conjuntura foi equivocada, as estratégias tardias e os resultados pífios.

Quem se salva? Certamente o governo não. O Proifes muito menos. Mas o Andes também não. Esta greve tem como espólio não só a desarticulação do calendário acadêmico. Mas o que é bem mais grave: o espólio da perda dos nossos valores fundadores. E quando se perde isto, renuncia-se à História e quando se perde a História, perde-se a identidade e ao perdê-la, perdemos o rumo.

Que tais experiências nos sirvam, pelo menos, de lição. Como bons professores que somos, saberemos avaliar e quem sabe, reconstruir sobre os escombros que sobraram deste terremoto, novas paisagens mais alvissareiras e, sobretudo, mais enraizadas em nossas próprias tradições.
 
Por Claudia Viscardi
 
[Reproduzido com autorização da autora.]

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