16 de setembro de 2012

A Ufpi somos nós!

Verdade ou não, é espantosa a notícia de que um juiz resolveu assumir a coordenação do processo de escolha de novos titulares para o governo reitorial da Universidade Federal do Piauí.


A situação se afigura grave: a instituição criada para pensar, ensinar e ser exemplo, com seu destino imediato nas mãos do agente judicial, revoga, de uma só vez, os fundamentos da vida universitária e subtrai suas prerrogativas de autonomia elaboradas em séculos.

Um diagnóstico do desastre: a Ufpi aparenta estar com seus processos coletivos decisórios bloqueados, dos colegiados de curso aos conselhos superiores, numa postura de contemplação paralisante, motivo e resultado de um clima exasperador que se abate sobre os seus milhares de agentes, tal o peso da unipessoalidade imperante.

Com efeito, impressiona e é um motivo maior de discussão o quanto chegou longe a falta do necessário exercício do debate acadêmico, do cultivo da superação de impasses enquanto prática coletiva, além do respeito pela divergência e do reconhecimento de que esta instituição é um patrimônio do público e que a construção do seu destino não pertence a nenhum dos grupos que se organizam para aguilhoá-la.

Inscrevendo seu percurso numa história de décadas, a Ufpi alcançou ser uma instituição querida por muitos, instrumento valoroso e em certa medida até aqui insubstituível na consecução de suas tarefas. Mas ela não é uma invenção de si. O que ela tem de grande é expressão das forças aglutinadas para colocá-la de pé e fazê-la dar passos e saltos de qualidade.

A Ufpi não é uma “repartição” pública como qualquer outra. Tem singularidades, as quais devem ser lembradas sobretudo aos mais jovens, inclusive às autoridades de hoje: ela não é um ente somente estatal; ela tem um DNA comunitário muito precioso. A lei que a criou (1968), em pleno vigor, a instituiu enquanto Fundação – a Fufpi – e assim tem ela um Conselho Diretor composto por aquelas forças originárias compósitas: o Governo Federal, o Governo Estadual, a Arquidiocese de Teresina (SPC) e a Fundação Educacional de Parnaíba. Estudantes e servidores administrativos partilham o seu Conselho Universitário (Consun), o segundo órgão de sua hierarquia.

A citação desse Conselho Diretor tem o propósito de exemplificar uma instância da institucionalidade universitária que em nenhum momento (pelo que sabemos) parece ter sido chamada ao debate essencial, por recursos ou representações outras, tendo em vista os impasses do processo administrativo interno.

Por que o Poder Judiciário para resolver a questão eleitoral interna antes do Conselho Diretor? Alguns dirão que o reitor manda e faz tudo por suas maiorias nos colegiados. Mas há de se perguntar: tirante os auxiliares diretos do Reitor, em especial os Pró-Reitores, que são membros de conselhos superiores, os demais, eleitos, o são ilegitimamente? Aliás, são ilegítimas as autoridades universitárias eleitas em consultas pretéritas? Reitor, vice, diretores, chefes departamentais e coordenadores de curso?

Mais grave: por que aparentemente ninguém quer fazer essa discussão em nível interno? São legítimas ou não? Responder essa questão é revelar posicionamento sobre concepção de democracia, Estado, atos de pesquisa e de ensino, enfim, de compromisso com qualidade, visões de Piauí e de mundo. Porque à medida que a Ufpi torna-se pujante, vai desconstruindo as soluções compartilhadas? O modo de sua organização é que tem que mudar? Somos uma universidade e sabemos que as respostas são complexas e também sabemos que, antes de tudo, deve haver condições internas para o diálogo maduro, institucional, pautado na legalidade de nossa construção institucional.

Assim, é necessário repetir: por que recorrer a um juiz para substituir as instâncias de deliberação e desvalorizar a mobilização genuína de milhares de atores? Uma sentença resolutiva não lavrada pelo debate acadêmico que Bolonha, Paris, USP e a própria Ufpi (noutros contextos) ensinaram, é uma evidência e reiteração do autoritarismo, de todos os lados.

Desejar uma intervenção na Ufpi? Nada mais faz do que conspirar contra os nossos interesses institucionais e apequenar, ainda mais, a nossa vivência e convivência institucionais. Se crise há, tem a nossa lavra, aliás duradoura até aqui. Mas há que nos livrarmos desse amor pelo tapetão, que não deve servir de justificativa para entregar a outrem a nossa tarefa, exclusiva de resto, de responder à sociedade sobre as dificuldades internas.

Se há um momento em que podemos provar nossa maturidade e grandeza institucionais é agora, escolhendo o diálogo, ao invés do impasse; abdicando dos pequenos interesses em nome de interesse maior, de milhares de estudantes, técnicos e professores que desejam que a paz e a segurança institucionais sejam a regra, não a exceção; finalmente, compreendendo o que o Piauí espera de nós, como vitrine e espelho da elite intelectual de nosso Estado.

Por Fonseca Neto e Washington Bonfim – Professores da Universidade Federal do Piauí



Publicado no jornal O DIA, Teresina, 16 de setembro de 2012, pág. 6.

Obs.: Os trechos grifados são de responsabilidade do Blog.

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