4 de agosto de 2012

Crônica de uma derrota anunciada?

Profª Claudia Viscardi

Não tenho blog. Então para quem tiver paciência e interesse, faço uma avaliação sobre a greve nas federais.

Últimas reflexões sobre a greve docente

Aderi à greve docente de 2012. Aderi à todas as greves desde que me tornei professora universitária. À algumas facilmente, à outras, com dificuldade. Já fui de comando local,
já frequentei assembleias, já dirigi sindicato. Esta foi a de adesão mais difícil. Não frequentei assembleias, não participei das mobilizações. Desde o início sabia que esta greve nascia derrotada, pelas razões que aqui explicito.

1) Avaliação equivocada de conjuntura

Há sete anos o movimento docente não entrava em greve, em que pesem as várias tentativas infrutíferas de nosso maior sindicato em convocá-la. O governo Lula sabiamente fez um acordo salarial razoável e implantou uma política ousada de expansão do sistema público, que embora tenha desagradado a muitos, era difícil de ser combatida. Opor-se ao REUNI significava ser contrário à expansão, bandeira tradicional do movimento docente. Findo o acordo salarial de Lula, restava-nos um grupo de trabalho para discutir nossa carreira e eventuais reposições salariais. O grupo não avançou, mais por incompetência do MEC do que pela vontade dos sindicatos. Iniciou-se a partir daí uma leitura, a meu ver, equivocada dos acontecimentos em curso. A proximidade das eleições para as prefeituras, a candidatura de Fernando Haddad e a potencial ameaça do julgamento do mensalão seriam componentes de fragilização do governo, que pressionado por este conjunto interno de eventos e premido pela crise econômica internacional,se tornaria presa fácil da justeza de nossos argumentos. Apostava-se também no apoio da mídia ao movimento - que de certa forma ocorreu mais do que em outras greves - dada a sua postura sempre muito crítica ao governo dos petistas. Leitura possível, mas equivocada. Interromper negociações em andamento nunca é bem visto pela sociedade civil. Os crescentes índices de aprovação do governo Dilma lhe garantiam o enfrentamento dos movimentos grevistas. A crise internacional, seu álibi para não conceder aumentos. A sua disposição em conceder reajustes para professores e militares, rapidamente anunciada, tornava a greve precipitada. E a mídia... A mídia nunca apoiou movimentos grevistas e parte dela é refém do governo. Mercadante não é Haddad. Dilma não é Lula. O mensalão é um julgamento que 90% da população brasileira acredita que resultará em pizza. E tal como Lula esteve imune a tantos escândalos, Dilma parece estar mais ainda acima do bem e do mal. Talvez seja a marca da tolerância em nossa cultura política que explique tratarmos nossos presidentes como reis e rainhas, aquém dos problemas cotidianos e imunes às críticas. A conjuntura não nos favorecia.

2) Pauta frágil

Nossa pauta era tão grande e complexa que, confesso a vocês, demorei a entender a sua lógica e a me convencer que fosse melhor que a proposta do governo ou a do PROIFES. Talvez por sermos herdeiros de uma tradição da esquerda estudantil, nossas causas têm que vir sempre esboçadas em discursos longos e enfadonhos. Falta-nos objetividade. Afinal entramos em greve por 13 etapas de carreira, a serem cumpridas em tantos anos, com intervalos de tantos meses e percentuais de aumento em cada step, contra-cheque em uma linha, adicionais por titulação, bla, bla, bla....E por fim, a melhoria das condições de trabalho! Pauta muito pesada de ser divulgada. E muito longa para ser debatida em uma greve. Pauta típica de grupo de discussão. Transformamos a pauta do GT do MEC em nossa pauta de greve. Erramos! Abrimos nosso flanco para o governo nos manipular com propostas pontuais de carreira, as mais desbaratadas possíveis, nos dividindo e apostando em nossas próprias fragilidades. Como estratégia de convencimento popular, tentamos mostrar como as universidades estavam sucateadas. Aparentemente um bom mote. Desafio que se tornou ainda mais difícil, porque de fato não estão. Há exceções, é claro. Mas nunca se investiu tanto em infra-estrutura das universidades como se fez nos últimos anos. Reitores incompetentes, entraves burocráticos, decisões apressadas podem ter resultado em falta parcial ou total de estrutura de alguns campi novos. Mas a maioria possui condições de funcionamento bem melhor do que tinham há uns anos atrás. Por outro lado, como convencer à sociedade civil que 12 horas semanais de aulas são muitas e dificultam nossas pesquisas? Como aceitar a fala de nossa presidenta do ANDES, ao defender aumento para setores não titulados de nossa carreira e combater a concentração de recursos nos steps mais qualificados e envolvidos com a pesquisa e a pós-graduação? Como convencer a sociedade civil de que é errado o professor buscar financiamentos na iniciativa privada para aumentar seu salário, ao invés de querer que o Estado seja o único responsável pelo financiamento das universidades? Tarefas que nem os docentes de mais alto Q.I. e com o mais qualificado dos discursos é capaz de cumprir. A nossa pauta era frágil.

3) Houve erros de estratégia nas negociações

Não soubemos negociar. Embora nos dispuséssemos a comparecer às poucas reuniões para as quais fomos convidados, não nos dispusemos em nenhum momento a discutir algo que estivesse além de nossa pauta. Não achamos o aumento suficiente, mesmo sabendo que as perdas seriam muito pequenas, caso os índices inflacionários previstos de fato ocorressem. Não avaliamos como um ganho a transformação do cargo de titular em um step, reivindicação antiga de nossa categoria. O governo recuou nas 12 horas semanais e no limite de 20% de cargos para titulares. Não vimos avanço. O governo aumentou os recursos para compensar eventuais perdas de categorias menos tituladas e antecipou o pagamento da primeira parcela do aumento. Não avaliamos como ganhos. Porque queríamos tudo. E quem quer tudo não ganha nada. Por outro lado, sabíamos de nossa divisão interna. Conhecemos o PROIFES há alguns anos. Sabíamos que na primeira oportunidade, trairiam o movimento. O governo conhecia nossas divisões e fez uso delas. Ao mesmo tempo que tentávamos agir em conjunto com os demais servidores, deles nos afastávamos, porque somente conosco o governo negociava. Com mais ninguém. Nossa postura ficou dúbia. A pressão dos jovens doutores, recém-contratados pelo REUNI, animados a agitarem as assembleias, talvez tenha nos dado uma falsa visão de que a vitória seria certa, subestimando o governo e superestimando nossa capacidade de mobilização e articulação. Como fizemos em outras greves, não nos valemos da ANDIFES como parceira e nem intensificamos nossas pressões junto aos congressistas. Perdemos aliados. Nas redes sociais a postura de nosso sindicato foi muito ruim. O grupo do ANDES sequer permitia o debate entre os pares, que se deu, à revelia do sindicato. Quem os acompanhou sabe como estávamos divididos internamente. Erramos muito em nossas estratégias de mobilização e negociação.

Muitos erros para uma greve só. No dia 1 de agosto veio o último golpe. Penso eu que foi xeque-mate. Vamos espernear, nos indignar e protestar. Mas nosso prazo está acabando. O governo assinou o acordo hoje e só o remeterá ao Parlamento no dia 31. Não adianta tentar emendá-lo antes. Voltaremos, como já aconteceu algumas vezes, para a sala de aula, tendo na bagagem a falsa sensação de que pelo menos ganhamos força em nossa luta sindical. Ledo engano. Vai ser preciso fazer muitos históricos de ganhos das greves ao longo do tempo para provar que este não foi um tiro pela culatra de nosso movimento e para evitar que a desmobilização nos impeça de reagir a outras adversidades que certamente virão.
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Esta avaliação foi divulgada via Facebook e reproduzida aqui com autorização da autora. Tomei a liberdade de atribuir um título a esta postagem, sem contudo consultar a autora. (Denilson Botelho)

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