23 de julho de 2012

Quem é que está preocupado com o movimento grevista dos docentes das universidades públicas federais?


"A perpetuação da violência de classes se duplica pela disseminação de envolventes malhas tecidas por entidades cosmopolitas voltadas para o convencimento, tentando dissuadir a classe trabalhadora pela repetição ad nauseam de que este é o único modo de existência possível. Violência e convencimento seguem conjugados, na disseminação de verdadeiros exércitos compostos por tanques de pensamento (think tanks)”. [FONTES, Virgínia. O Brasil e o capital-imperialismo. Rio de Janeiro: EPSJV/Editora UFRJ, 2010. p. 14]

                Desde que me tornei teresinense, visito o Rio de Janeiro regularmente. Agora mesmo, em julho, a visita foi de pouco mais de uma semana. Mas eu não visito o Rio cenário das novelas da Globo. Não, eu me instalo na casa de parentes que lá continuam vivendo e isso significa dizer que me hospedo na Tijuca (eu diria que é mais Andaraí do que Tijuca), na zona norte, ou no centro, nos bairros do Estácio ou da Saúde, na zona portuária, onde vivi minha infância e adolescência.
                Portanto, quando vou ao Rio, eu caminho muito pelas ruas e ando também de ônibus, circulando principalmente entre o centro e a zona norte. Circulo também pela zona sul, é claro. Mas nada se compara ao prazer de andar pelas ruas tumultuadas e caóticas do centro da cidade. Dessa vez caminhei pela região do Saara, onde há um generoso comércio popular. Não almocei no Cedro do Líbano, mas estive no aconchegante ambiente da Confeitaria Colombo (que Lima Barreto seguramente consideraria excessivamente aburguesado), passei pela antiga rua Sachet (hoje Travessa do Ouvidor) e me perdi no interior da Livraria da Travessa da rua Sete de Setembro, com seus três andares onde é possível permanecer por um dia inteiro sem perceber o passar das horas.
                Na antiga rua Sachet ficava a Editora Schettino, que publicou alguns livros de Lima Barreto, bem como há hoje uma bela estátua de Pixinguinha ao saxofone. A redação da revista Floreal, dirigida pelo mesmo escritor - e sobre a qual já publiquei um artigo – também ficava por ali, na rua Sete de Setembro. Adoro cruzar essa travessa e, dessa vez, fiz isso de mãos dadas com minha filha de dez anos. Paramos diante de Pixinguinha e pusemo-nos a admirá-lo.
                Feita a digressão, quero dizer que observei um Rio com suas praças já livres das grades que outrora as enfearam. Muitas agora possuem unidades da Academia da Terceira Idade, parquinhos com brinquedos para a garotada e espaço livre para o lazer reconquistado.  Na minha infância, eu dei inúmeras voltas de bicicleta (uma caloi vermelhinha) na Praça da Harmonia, ao lado do 5º Batalhão da Polícia Militar. Hoje me dou conta do engenhoso processo de construção de memória para o lugar que foi o centro da Revolta da Vacina de 1904: uma praça nomeada de Harmonia e ladeada por um quartel em cuja fachada se lê o ano da construção: 1908 – quatro anos depois da famosa revolta popular.
                Somando essas observações a um comentário que ouvi de Nilda, diarista que trabalha para minha sogra e três vezes por semana cruza a cidade em busca da sobrevivência, fiquei achando que o destino do Rio está selado. Nilda me disse que esse prefeito que aí está foi muito bom para a cidade e que, caso se candidate a governador, vai se eleger com certeza. Será?
                Fiquei imaginando que aquela legião de velhinhos (dentre os quais estão os meus pais) que se exercitam nas praças do Rio hoje restauradas e conservadas, junto com uma legião de trabalhadores pobres pode mesmo vir a eleger Eduardo Paes novamente. Pesquisa recente já indica 54% da preferência do eleitorado para o prefeito aliado de Sérgio Cabral e Lula/Dilma. Além disso, o Rio passa por um amplo conjunto de obras. Não se circula mais de 15 minutos sem avistar tapumes pela cidade: é uma nova rodoviária, um novo Maracanã, o fim das enchentes da Praça da Bandeira (será?), uma nova estação do metrô na Tijuca, uma nova zona portuária, com um novo túnel, etc, etc.
                Se tudo isso vai eleger Eduardo Paes (PMDB), eu não sei. Marcelo Freixo (PSOL) aparece nas mesmas pesquisas com surpreendentes 10% nas intenções de voto. E seria muito bom que tivéssemos ao menos um 2º turno para aprofundarmos o debate e a avaliação sobre o que temos e o que queremos hoje para o Rio.
          Mas fiquei pensando que, montada em popularidade similar, Dilma cavalga com toda sua intransigência e truculência sobre a greve dos professores das universidades públicas federais. A mesma maioria avassaladora da população que aprova a gestão da atual presidenta parece sugerir que aprova também o tratamento que nos é dispensado nesse instante. Depois de dois meses de paralisação e uma proposta indecente de reajuste a ser concretizado em 2015, o cenário parece pronto para que se venha a trucidar a categoria dos docentes.
                No país dos programas assistencialistas que negam a emancipação e perpetuam a dependência dos miseráveis, que investe pesado nas grandes obras para uma Copa do Mundo e para as Olimpíadas, quem é que está preocupado com o movimento grevista dos docentes das universidades públicas federais?
Dilma, Mercadante e seus pares não estão!

Denilson Botelho

PS – O leitor há de perdoar o ceticismo excessivo desse arremedo de crônica. É que estou azedo mesmo!

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