3 de maio de 2012

O Piauí e o jornalismo da Globo

De repente, não mais que de repente, as Organizações Globo passaram a se interessar enormemente pelo Piauí. Ou melhor, deu-se um interesse específico pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Primeiro foi uma matéria de capa na edição dominical do jornal O Globo de 11 de dezembro de 2011. A chamada da primeira página denunciava: “Reitores de 16 universidades são investigados por fraudes”. E no texto subsequente a UFPI mereceu espaço destacado.

A edição nº 726, da revista Época, do mesmo grupo editorial, datada de 16 de abril de 2012, traz na sua página 52 a matéria intitulada “Magnífica suspeita”, reiterando as mesmas denúncias. Recentemente, foi o jornalismo “missionário” da TV Globo que também voltou sua artilharia contra o Hospital Universitário da UFPI. Depois de décadas em construção, está tudo pronto para funcionar, mas a emissora afirma que a atual gestão da universidade foi negligente ao não contratar os servidores necessários para iniciar o atendimento – apesar de sabermos que a autonomia das universidades públicas federais vive numa corda bamba, sempre ameaçada.

O que a gente fica a se perguntar é por que o jornalismo global passou a se interessar tanto pela UFPI. Num estado em que os seus habitantes já padecem frequentemente com piadas de gosto duvidoso e cuja autoestima nem sempre vai bem, o noticiário negativo sobre a única universidade federal aqui sediada soa mais uma vez como parte do desprestígio em geral atribuído – injustamente – ao Piauí.

Crescimento e expansão

Mas não é só isso. Seria ingenuidade supor que se trata de fenômeno tão simples. A UFPI entrou na linha de tiro dos ataques incessantes de um oligopólio de mídia, que até hoje não engole e aceita o fato de que o PT fez de um ex-operário e uma ex-guerrilheira da luta armada presidentes eleitos nas últimas três eleições. E essa mesma mídia não tolera que agora o mesmo PT queira avançar sobre o último território de sua “reserva moral”: a cintilante e pujante prefeitura de São Paulo, à qual Fernando Haddad, ex-ministro da Educação de Lula e Dilma, é candidato.

Na verdade, não foi somente a UFPI que entrou na linha de tiro, mas as 16 universidades apontadas na matéria de capa do Globo, o Enem e tudo o mais que esteve sob a responsabilidade de Haddad nos últimos anos. Não disponho de elementos para afirmar se as acusações de fraude e improbidade administrativa são procedentes ou não nessas 16 universidades. Cabe aos seus respectivos gestores comprovar a lisura dos seus atos. Além do mais, temo a leviandade que tomou conta do país – e da imprensa – nos tempos que correm, criando um ambiente em que acusações das mais variadas são feitas sem o devido embasamento, jogando na lama muitas vezes a reputação de pessoas de boa-fé e bem intencionadas, vítimas de um denuncismo endêmico. Se erros foram cometidos e causaram danos ao erário público, que os responsáveis arquem com as consequências de seus atos. Mas fazer da prática de acusações levianas uma ética de vida não faz do Brasil um país mais democrático.

O que se observa na UFPI é bem diferente, por exemplo, do que se verificou na Universidade Federal de Rondônia, cujo reitor, ao ser convocado a prestar explicações ao Ministério da Educação, renunciou ao cargo – num gesto que sugeriu uma confissão de culpa –, deixando um rastro de abandono, descaso e precariedades variadas naquela instituição. A Universidade Federal do Piauí não é uma grande universidade, não se destaca no cenário nacional e enfrenta ainda uma série de dificuldades estruturais e desafios – como tantas outras universidades públicas. Contudo, nesse curto período de quase três anos em que me tornei docente desta instituição, é notório o crescimento e a expansão, especialmente no campus de Teresina.

Jornalismo não é para ingênuos

Vale ressaltar que tudo isso se deve, em grande parte, aos investimentos feitos pelos governos do PT nas universidades públicas – investimentos por demais contrastantes com o tratamento dispensado pelos governos de FHC, do PSDB, que deixaram à míngua este setor estratégico para o país. Portanto, o alvo da Globo não é exatamente a UFPI ou qualquer outra universidade pública. Trata-se antes de uma iniciativa que procura desqualificar ainda no nascedouro a candidatura Haddad à prefeitura da maior cidade do país. Iniciativa movida igualmente pelo desejo de ver a cada ano o insucesso do Enem e que teme a consolidação da hegemonia petista no poder.

Não discuto o que há de positivo ou negativo nessa tal hegemonia. Em tempo: vejo com preocupação este processo. A questão é que, para alcançar seus objetivos, as Organizações Globo, mais uma vez, batem no seu saco de pancadas mais habitual: o mesmo Norte/Nordeste responsável pela vitória eleitoral de Dilma Rousseff. Rondônia já foi a bola da vez. Agora é o Piauí e a UFPI.

E pensar que há quem insista em defender que o jornalismo que emana da grande imprensa é neutro e isento, e não um campo de batalha político-ideológico... Só quem não lembra que a Globo foi um dos principais sustentáculos da ditadura militar, do autoritarismo no Brasil e da vitória eleitoral de Fernando Collor em 1989, pode acreditar que este mesmo grupo editorial agora se apresente como arauto da democracia, da ética e da moralidade pública. Definitivamente, o jornalismo não é para ingênuos. Antes, faz destes sua vítima preferencial.

***
[Denílson Botelho é historiador e professor da Universidade Federal do Piauí, autor do livro A pátria que quisera ter era um mito – O Rio de Janeiro e a militância literária de Lima Barreto]

Publicado no Observatório da Imprensa em 1º de maio de 2012.

Nenhum comentário: