18 de março de 2012

História & Crônica

No sábado, dia 10 de março último, reuni os integrantes do Grupo de Pesquisa que lidero na UFPI. Na pauta estava a discussão de um artigo de Antonio Candido, "A vida ao rés-do-chão", que está numa coletânea intitulada A Crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações. Originalmente, o texto serviu como apresentação de um dos volumes da coleção Para gostar de ler, que eu conheci na escola. Trata-se de uma bela reflexão sobre o que significa uma crônica. E os aprendizes de historiadores - dentre os quais eu me incluo - examinaram um pouco das possibilidades que a crônica nos oferece para compreender o passado.

A discussão se fez também porque eu e três alunos em Iniciação Científica, vinculados ao meu projeto de pesquisa atual, temos frequentado as crônicas e artigos de Lima Barreto. Então a ideia era refletir sobre o que o "mulato de Todos os Santos" tem a nos mostrar sobre a imprensa e o jornalismo do Brasil do início do século XX.

Nessa manhã de domingo, ao deparar-me com a crônica de Veríssimo, n'O Globo, lembrei-me da última reunião do Grupo de Pesquisa. Acho que a genialidade de Veríssimo revela todo o potencial da crônica aos olhos do historiador. Confiram!

Ratos charmosos

Por Veríssimo

Minha neta entrou correndo no escritório e pulou no meu colo. Contou que vira dois ratos no quintal, um rato malvado e um rato charmoso.
— E você está fugindo do rato malvado? — perguntei.
— Não — disse ela. — Estou fugindo do rato charmoso.

Não sei bem onde ela aprendeu “charmoso”, mas achei a sua lógica irretocável. Lição inconsciente de vida: um rato charmoso é mais perigoso do que um rato malvado. Um rato malvado é um rato malvado, sem fingimento. Um rato charmoso é um dissimulado. Esconde a sua condição de rato. Pode convencer menininhas a mimá-los como coelhinhos, antes de mostrar sua malvadeza Você sabe o que esperar de um rato malvado. Você não sabe o que há por trás da falsa fachada de um rato charmoso.

Assim é na vida, muito particularmente na vida brasileira. Temos bandidos sem qualquer encanto que os redima, e temos bandidos que usam seu charme para fazer carreira, progredir, se eleger, ganhar respeito e cargos oficiais e às vezes até monumentos e, finalmente, imunidade vitalícia. Todo o mundo sabe que são ratos, mas o disfarce os salva.

Há casos, é verdade, em que os ratos charmosos são pegos como reles ratos malvados, nos raros casos em
que a ratoeira funciona da mesma maneira para uns e para os outros. Mas os ratos charmosos sempre conseguem se safar. Voltam à vida publica, são reaceitos no Congresso, mantêm o cargo na confederação
etc. Os ratos malvados têm julgamentos sumários, os ratos charmosos podem contar com processos longos e inconclusivos.

Os dois vistos no quintal eram imaginários, mas espero que minha neta e sua geração saibam diferenciar os ratos, na realidade. Talvez quando ela crescer já tenham inventado algum modo de imunização para diminuir os efeitos do charme na vida nacional.

Uma espécie de dedetização moral. Sei lá.

Publicado no jornal O Globo, em 18 de março de 2012.

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