25 de fevereiro de 2012

Lima Barreto e os 90 anos da Semana de Arte Moderna de 1922


A propósito dos 90 anos da Semana de Arte Moderna de 1922, vale reler os comentários de Sérgio Milliet sobre como os modernistas de São Paulo viam Lima Barreto:

"Lembro-me da grande admiração que tinha por Lima Barreto o grupo paulista de 22. Alguns entre nós, como Alcântara Machado, andavam obcecados. O que mais nos espantava então era o estilo direto, a precisão descritiva da frase, a atitude antiliterária, a limpeza de sua prosa, objetivos que os modernistas também visavam. Mas admirávamos por outro lado sua irreverência fria, a quase crueldade científica com que analisava uma personagem, a ironia mordaz, a agudeza, que revelava na marcação dos caracteres". (MILLIET, Sérgio. Noticiário. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 11 nov. 1948)

Ou ainda:

"Lima Barreto foi o grande romancista da geração post-machadiana e o pioneiro do romance moderno brasileiro. Admiraram-no os revolucionários de 22 pelo seu estilo direto e limpo em contraste com o alambicado Coelho Neto ou com o doce e mole Afrânio Peixoto, como o admiravam pela verdade algo caricatural de seus heróis e pela mordacidade de sua crítica social. Por outro lado, viam nele a primeira revolta declarada contra o preconceito de cor, até então considerado, por necessidade de reconforto moral dos brancos, como não existente entre nós. Lima Barreto transcende o realismo muito convencional que dominava as letras nacionais desde os naturalistas (com exceção de Aluísio de Azevedo), pois abandonando a preocupação de descrever com minúcias as exterioridades da vida carioca ou de pintar com cores vivas a paisagem regionalista, procura penetrar no âmago dos personagens e fazê-los viver uma vida verdadeira. Dai, aquela frase tão significativa com que respondeu de uma feita a João Ribeiro, a propósito de "Numa e a Ninfa" (citada pelo biógrafo Francisco de Assis Barbosa): "como todo romancista que se preza, eu tenho amor e ódio pelos meus personagens". É que a literatura de Lima Barreto não era "o sorriso da sociedade", brotava como uma imposição insopitável do ambiente, da raça e do momento. Anote-se de pasagem a palavra raça a que se junta por vezes, outra igualmente reveladora: classes. E ter-se-á explicada a psicologia do romancista, assentando toda ela numa reivindicação e num complexo". (MILLIET, Sérgio. Lima Barreto. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 17 set. 1952)

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