12 de novembro de 2011

O jornalismo também pode matar

No último domingo, 6 de novembro de 2011, o Brasil amanheceu com a notícia da morte de um cinegrafista da Rede Bandeirantes de Televisão. Gelson Domingos fazia a cobertura de uma operação policial na favela Antares, em Santa Cruz, bairro da distante zona oeste do Rio de Janeiro, quando foi atingido por um tiro de fuzil usado por um suposto traficante e morreu antes mesmo de chegar ao hospital. O caso merece profunda reflexão sobre o jornalismo que temos atualmente no país.

Primeiramente convém ressaltar que Gelson não foi convidado pela Polícia Militar para acompanhar aquela operação. Consta que tinha larga experiência na sua atividade, mas foi designado pela emissora na qual trabalhava para deslocar-se até Antares na manhã daquele domingo. Cumpria assim uma obrigação funcional. Nada indica que pediu ou se ofereceu para ir filmar a polícia em ação naquele caso. Foi obrigado a fazê-lo.

O que o telespectador fica se perguntando muitas vezes é sobre a utilidade e a pertinência de imagens audaciosas como essas. Já que não se trata de ficção, mas sim da dura realidade, o que leva um cinegrafista a colocar-se na linha de fogo entre policiais e bandidos? Seria o desejo de mostrar a verdade? Seria um apego inarredável à liberdade de expressão? Ou ainda podemos cogitar de uma efêmera celebridade alcançada pelo cinegrafista ao ter seu nome anunciado no noticiário televisivo da emissora, comandado por um apresentador falastrão e sensacionalista? Posso até imaginar o programa servido a uma audiência ávida por sangue na tela, no horário do almoço ou jantar: “E agora vamos assistir imagens exclusivas do nosso cinegrafista da Band, Gelson Domingos, sobre o terrível confronto policial...”

Em suma, parece que não aprendemos nada com o caso Tim Lopes, trucidado na Vila Cruzeiro. Penso que é indispensável discutir a responsabilidade das emissoras de televisão, empresas de comunicação que alcançam lucros elevados com a espetacularização da notícia, fazendo da violência um circo grotesco e interminável. Há poucos anos uma repórter recém-formada da própria TV Bandeirantes levou um tiro numa cobertura jornalística de uma operação policial que se fazia no Morro Dona Marta, em Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro. Por pouco Nadja Haddad não morreu. O que a Band aprendeu com aquele episódio? Nada. O negócio é mesmo faturar. E nesse caso, o produto oferecido é a notícia transformada em mercadoria cujo valor é determinado pelos índices de audiência.

Para que ninguém pense que estou exagerando, respaldo-me aqui em levantamento veiculado pelo Portal Imprensa (www.portalimprensa.uol.com.br) - dos mesmos editores da revista “Imprensa – Jornalismo e Comunicação” (com edição mensal) – no último dia 10 de novembro. Nesse curto espaço de poucos dias, a derradeira cena gravada por Gelson naquela fatídica cobertura foi exibida 210 vezes na televisão brasileira. Não é pouca coisa. Detalhe: a Band foi a emissora que mais transmitiu o momento da morte do cinegrafista, com 101 reprises. Foi seguida de perto pela Record, com 66 exibições, SBT com 20 vezes, a Globo com 13 e a RedeTV! com dez.

Fico pensando no horror vivido pelos familiares do cinegrafista, que deixou três filhos órfãos de pai e uma viúva, sendo massacrados pelas 220 exibições das imagens que registraram a agonia de Gelson ao ser atingido por um tiro de fuzil. Imagino que a alternativa menos dolorosa que lhes restou deve ter sido desligar a TV.

Rapidamente as emissoras bradaram em uníssono o mesmo argumento: foi um inaceitável atentado contra a liberdade de expressão! Será? Ou esta não é uma forma torpe dessas empresas eximirem-se das responsabilidades que deveriam recair também sobre os seus ombros? Afinal, o cinegrafista estava no exercício de suas funções laborais naquele episódio. Duvido que alguém tenha lhe perguntado se desejaria ou não fazer aquela cobertura. E mesmo que a pergunta lhe tenha sido feita, provavelmente ele temeria pelo seu próprio emprego ao recusar-se a seguir de perto policiais em meio a um tiroteio. A recusa possivelmente lhe custaria a vaga naquela empresa, sendo substituído a curto ou médio prazo por outro profissional supostamente mais intrépido e corajoso.

A tese do atentado contra a liberdade de expressão me parece pífia, inepta, insustentável. Difícil imaginar que, em meio aquela intensa troca de tiros, o bandido atirador estivesse mirando o cinegrafista e não os policiais. Difícil imaginá-lo mirando num Gelson desarmado ou na liberdade de expressão esgrimida pela Band, Globo, Record, SBT e RedeTV!

Basta de hipocrisia! O que vimos naquela cena é que o jornalismo também pode matar, sobretudo quando abandona a sua nobre função social e se torna uma mercadoria infame, fazendo da notícia um espetáculo e uma mercadoria extremamente lucrativa para os nossos oligopólios de mídia.

É preciso refletir sobre as mais variadas vítimas cotidianas desse tipo de jornalismo, além do cinegrafista fuzilado no último domingo.

Por Denilson Botelho
Professor de História da UFPI
Publicado na Coluna Fórum do jornal O Dia, de Teresina (PI), em 12/11/2011. Caderno Em Dia, pág. 4.

Um comentário:

Nice Abreu disse...

Concordo plenamente com sua tese Querido Denílson.
Essa história de fazer um herói só quando ele morre tem que ser freado.
Muitos cenografistas como repórteres e jornalistas entregam suas vidas a Deus quando entram para fazer uma matéria.Mas em nenhum momento eles levam o reconhecimento pelo trabalho perigoso em questão.Agora, quando perdem suas vidas em prol de uma notícia eles mesmos passam a ser a "notícia" dando ibope ao canal midiático. Uma vergonha a nossa profissão.