5 de novembro de 2011

A mídia que faz e desfaz

Recentemente mais um ministro do governo Dilma foi substituído. Orlando Silva caiu. Não me arrisco a afirmar que não havia corrupção no Ministério do Esporte. Não colocaria a mão no fogo pela honestidade dos comunistas do PCdoB. Se o PT, que até pouco tempo se comportava como vestal republicana, já aprontou poucas e boas, porque seria diferente com outros partidos de esquerda? Nunca é demais desconfiar e manter o senso crítico aguçado.

Por outro lado, também não me surpreenderei caso se comprove, futuramente, que tudo isso não passou de uma armação contra o ex-ministro. Principalmente porque a denúncia partiu das páginas de Veja, uma revista notoriamente venal, movida invariavelmente por interesses escusos. Além disso, o veículo de comunicação em questão conferiu absoluta credibilidade a um denunciante indiscutivelmente desprovido desse atributo. Então é recomendável que sejamos cautelosos.

O que mais me preocupa nesse episódio é que a grande mídia corporativa, constituída pelos grupos empresariais Abril, Globo e similares, se apresenta cada vez mais forte. Essa mídia faz e desfaz ministros ao sabor de suas conveniências. Parece que deseja sentar-se na cadeira presidencial de Dilma ou designar para essa função um preposto confiável – ou pelo menos em sintonia com os seus interesses econômicos e políticos, tal como Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Geraldo Alkmin ou Aécio Neves.

Pelo menos foi isso que um colunista da revista Época (que pertence à Editora Globo) deixou escapar na edição que circulou essa semana, com data de 31 de outubro de 2011. Guilherme Fiúza, que faz em Época papel semelhante ao que Diogo Mainardi já exerceu exaustivamente na Veja – uma espécie de colunismo político banhado na mais completa aversão ao PT e completamente subserviente ao tucanato -, encerrou seu último texto publicado naquele semanário fazendo essa perigosa apologia: “No fim das contas, Dilma poderia parodiar a canção de Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho, em agradecimento a quem vem salvando seu mandato do vazio existencial: ‘Não sou eu quem me governa, quem me governa é a mídia’” (pág. 36 da referida edição).

Fiúza certamente tornou pública uma ambição dessa mídia corporativa, inescrupulosa e golpista. Não importa o juízo que façamos sobre Dilma e o PT, mas devemos zelar pelo fato de que foram eleitos democraticamente. Seu mandato lhe foi conferido pelo voto popular, através de uma consulta republicana. Queiramos ou não, se Dilma hoje governa o país, isso foi determinado pelas urnas e pelo regime democrático que lutamos arduamente para restabelecer no Brasil.

O que me preocupa é que isso parece uma grave ameaça a jovem democracia que temos. E a história está sempre à espreita, a nos fornecer exemplos nefastos de momentos em que a imprensa pretendeu governar, fazer e desfazer os rumos do país, sem que tenha sido referendada pelas urnas para tal. Uma parcela significativa da responsabilidade pela crise em que mergulhou o segundo governo Vargas (1951-1954), que culminou no seu suicídio, pode ser imputada à imprensa da época. Carlos Lacerda promoveu perseguição implacável contra Vargas através do seu jornal Tribuna da Imprensa. Nessa campanha política contou o apoio de vários outros jornais.

Vale lembrar que a notícia da morte de Getúlio despertou não apenas uma comoção nacional, mas também revolta. Parte da população tomou as ruas da capital federal e partiu em busca de vingança contra um alvo preciso: redações e carros de reportagem foram atacados e incendiados por populares. Há uma foto clássica (que pertence ao acervo do CPDOC/FGV) de um veículo do jornal O Globo tombado em meio aos protestos de rua ocorridos nesta ocasião. Era como se atribuíssem a uma certa imprensa uma parcela de culpa pelo suicídio – ato político derradeiro de Vargas. “Minha razão de viver”, livro de Samuel Wainer, fornece um testemunho precioso desses embates e da tentativa de Getúlio Vargas de reagir ao bloqueio midiático que vinha sofrendo. O jornal Última Hora, dirigido por Wainer, não deixa de ser uma tentativa de resistir aos ataques liderados por Lacerda.

Não vem ao caso discutir se aquele foi um governo bom ou ruim, se Vargas era amado ou odiado. O que importa é que governava porque finalmente foi eleito pelo voto popular, não era mais o ditador, mas um presidente da república ungido pelas urnas numa eleição democrática. E tombou sob a batuta de uma imprensa agressiva além da conta.

Quando a mídia se acha no direito de governar no lugar da presidente, a democracia está em perigo. Sobretudo se o faz através de um denuncismo irrefreável e criminosamente articulado, sem provas cabais e incontestáveis do que afirma. Nesse caso, ao invés de exercer a função social de informar, perde o sentido de sua própria existência e se arroga um poder que a sociedade não lhe conferiu.

E quando se fala em discutir um marco regulatório para a mídia, esses mesmos grupos logo se apressam em confundir a opinião pública, acusando essa iniciativa de censura, de ameaça à liberdade de expressão. Um novo marco regulatório teria por objetivo democratizar os meios de comunicação, seria a oportunidade de desmontar os oligopólios midiáticos que nos dominam e permitir que o jornalismo não seja feito apenas de figuras como Fiúza, Mainardi, Ali Kamel e congêneres.

Denílson Botelho

Professor de História da UFPI
Publicado na Coluna Fórum do jornal O Dia, Teresina, PI, em 05.11.2011, p. 4

Observação:
Para que não paire qualquer dúvida sobre o que quero dizer ao defender um marco regulatório para mídia, recomendo a leitura esclarecedora da seguinte matéria: http://ponto.outraspalavras.net/2011/11/04/constituicao-para-democratizar-comunicacao/

Um comentário:

Robson Cruz disse...

Não é necessário que se regule os conteúdos. Mas eliminar os oligopólios midiáticos já iria proporcionar um benefício considerável.