26 de novembro de 2011

Escola: entre a eugenia e o acolhimento

Aquela que se considera a melhor escola da cidade pode não ser necessariamente a melhor escola para o seu filho. Eu posso falar isso por experiência própria. Entre 1979 e 1982 estudei no Colégio de São Bento, no Rio de Janeiro. Frequentei aquela escola da 5ª série (atual 6º ano) do ensino fundamental até o 1º ano do ensino médio. Não, eu não pertenço e nunca pertenci à fina flor da burguesia carioca, que é o que se imagina de todo aluno daquele afamado colégio situado no centro da cidade. Meu pai, um humilde trabalhador portuário, conseguiu a proeza de uma bolsa integral para mim. Então bastava eu não ser reprovado que a bolsa seria renovada. Dito assim, hoje, parece ter sido fácil. Não foi. Foram os piores anos da minha vida. Por que?

Bem, os motivos são vários, mas o principal diz respeito ao fato de que jamais me senti acolhido naquela escola. Enquanto 90% dos meus colegas chegavam de carro ou no ônibus da própria escola, vindos das áreas mais nobres da cidade, eu percorria a pé, diariamente, o trajeto entre a minha casa, na Saúde, e a escola, na Praça Mauá. Cruzava de ponta a ponta a rua Sacadura Cabral até chegar ao início da avenida Rio Branco, entrar na primeira rua à esquerda, a Dom Gerardo, e subir até o alto do Morro de São Bento, onde fica o colégio de mesmo nome.

Nem tudo foi ruim naqueles anos, mas o fato de não pertencer à mesma classe social da maioria dos meus colegas fez toda a diferença. Eu sabia o tempo todo que não era um deles, não nasci em berço de ouro, não pertencia à elite carioca. Enquanto nas férias muitos deles viajavam para a Disney e outros destinos no exterior, eu amava ir para a casa da minha avó Irene, na Penha, subúrbio da Leopoldina, onde ajudava a cuidar dos cachorros (Pingo e Sheik), dos passarinhos do meu avô, das plantinhas cultivadas no quintal e etc. Ali sim eu me sentia em casa, depois de cruzar parte da avenida Brasil rumo a sempre negligenciada zona norte da cidade.

Outro motivo da minha infelicidade naqueles anos estava no próprio ensino praticado no São Bento: avassaladoramente conteudista! Eu nunca estudei tanto, nunca exercitei tanto a arte da decoreba, ao mesmo tempo em que me perguntava diversas vezes sobre a utilidade daqueles conhecimentos. Lembro que li a “Odisséia”, de Homero, na 5ª série, sem compreender patavinas do seu significado. Só mais tarde, no primeiro período da Graduação em História, na UFF, eu voltei àquele livro e pude compreender do que se tratava afinal. Penava nas aulas de Física e Matemática, mas só ao mudar para o antigo CEFET-RJ (uma escola técnica pública federal) pude compreender maravilhosamente bem como a física está o tempo todo no nosso dia-a-dia, em quase tudo que fazemos, nas aulas inesquecíveis da Profª Dulce Hildebrandt – em certa medida responsável pela minha decisão de seguir a carreira do magistério. Dulce sabia mostrar o tempo todo aos seus alunos que aquilo que ensinava em sala de aula não era apenas um conhecimento abstrato, mas tinha relação direta com as nossas vidas. Até hoje me inspiro nela e penso que deixar o São Bento para cursar o ensino médio numa escola pública federal foi a melhor coisa que aconteceu na minha trajetória de formação escolar, tornando-se uma experiência decisiva.

Como disse, a melhor escola da cidade pode não ser a melhor escola para o seu filho. Minha enteada estuda hoje numa escola que é considerada uma das melhores de Teresina. Não sei se é, tenho minhas dúvidas. E na verdade ela não está matriculada lá por esta razão. Como não apresenta um desempenho satisfatório nos estudos, cogitamos de mudá-la de escola. O problema não está numa eventual reprovação, que pode ser até bastante pedagógica a essa altura do ano. Afinal, o insucesso também guarda importantes aprendizados.

Temos então, eu e minha esposa, pesquisado escolas que possam ter um perfil mais adequado a ela, às dificuldades específicas dela e que possa ser acolhedora. Estive então visitando outra grande escola da cidade, muito renomada e recomendada por vários colegas. É uma escola católica e ao fazer a visita, por acaso, fomos apresentados ao padre que dirige a instituição. O que se passou daí por diante, na conversa com este senhor, é de causar desalento. De cara, ouvi do digníssimo diretor a seguinte indagação: “mas a sua filha tem algum problema, alguma síndrome? Porque nós estamos limitando a entrada de crianças assim aqui na escola. Sabe como é, os outros pais reclamam, os professores não dão conta de crianças com essas síndromes tipo TDAH...”

Confesso que minha vontade foi encerrar a conversa ali mesmo. Já me dava por satisfeito, já ouvira o suficiente. Contudo, por educação, visitei as instalações, que aliás são muito boas. Mas saí dali com a certeza de que não é este tipo de escola que procuramos para minha enteada.

E fico me perguntando se não há uma certa concepção eugênica nessas escolas católicas que apresentam bons resultados de forma geral. Será que elas são boas porque desenvolvem um ensino competente ou porque selecionam os melhores alunos? São boas porque constroem os bons alunos ou porque priorizam manter matriculados os que apresentam bom desempenho escolar?

Não estou pensando no vestibular, numa eventual carreira a ser seguida, estou pensando que é preciso educar para a vida, para a solidariedade, para a justiça social, para um mundo melhor do que este que a minha geração erigiu até o momento. Nesse sentido é que gostaria de encontrar uma escola que seja acima de tudo acolhedora, que seja capaz de lidar com as diferenças individuais, com ritmos de aprendizagem que podem ser distintos – a despeito da faixa etária em que nossos pequenos se encontram. Se um padre – diretor de uma escola – que mal me conhece, logo exclui a possibilidade de ter entre seus alunos portadores de uma síndrome qualquer, isso significa alguma coisa sobre a educação nos dias atuais. E significa também que, independentemente da minha enteada padecer ou não de algum problema, não é este tipo de escola que buscamos. Falta-lhe o mesmo que me faltou no Colégio de São Bento: acolhimento.

Ou por acaso podemos abrir mão disto para educar?

Denílson Botelho

Professor de História da UFPI
Publicado na Coluna Fórum, jornal O Dia, Teresina – PI, em 26/11/2011. Caderno Em Dia, pág. 4.

Um comentário:

Anônimo disse...

"Será que elas são boas porque desenvolvem um ensino competente ou porque selecionam os melhores alunos? São boas porque constroem os bons alunos ou porque priorizam manter matriculados os que apresentam bom desempenho escolar? "

olá Denilson vc tem alguma dúvida? É óbvio que as nossas "melhores" escolas trabalham com alunos selecionados (tanto as particulares como o são bento como as públicas federais como o cefet). Um bom desafio ao São Bento (ou ao Cefet), seria pegar uma turma do sexto ano da EM Mário Kroef (lembra?), com todas as dificuldades que se apresentam, sem nenhum tipo de exclusão e conseguir levá-los até a faculdade.
Denilson, até onde vai a farsa da meritocracia e dos rankings na educação do Brasil?

um abraço!