19 de novembro de 2011

A belle époque carioca pela porta dos fundos

O leitor que pretende conhecer o Rio de Janeiro da belle époque como se entrasse na cidade pela porta dos fundos, deve percorrer as páginas do livro “Uma outra face da belle époque carioca: o cotidiano nos subúrbios nas crônicas de Lima Barreto” (Editora Multifoco) lançado recentemente. Nessa obra, Joachin Azevedo Neto constrói um olhar arguto sobre a capital federal do início do século XX a partir de um lugar muito singular: a “Vila Quilombo”. Essa expressão foi utilizada por Lima Barreto para designar a sua casa, situada no subúrbio carioca de Todos os Santos. Numa crônica publicada na Gazeta de Notícias, no mesmo ano do seu precoce falecimento, em 1922, justificava o epíteto: foi “para enfezar Copacabana”.

O autor capta no seu texto toda a eloquencia dessa expressão. Porque afinal, é uma expressão bastante eloquente e disso não resta dúvida. Senão, vejamos. O subúrbio de Todos os Santos é lugar peculiar que molda o relacionamento do escritor com a cidade. Aquele bairro distante em que viveu durante praticamente quase toda a sua vida adulta não era lugar frequentado pelos literatos e intelectuais da época. Deixar sua casa todas as manhãs, percorrer as ruas até a estação de trem, no qual embarcava rumo ao centro da cidade, espremido com a gente simples e pobre que foi progressivamente se instalando às margens da Estrada de Ferro D. Pedro II era como experimentar cotidianamente os efeitos concretos das reformas urbanas em curso na época.

Uma coisa era escrever sobre a modernização e o embelezamento da região central da capital sob a ótica dos que desfrutaram desde a primeira hora dos seus benefícios. Outra coisa era experimentar na própria pele, diariamente, a condição de ter sido expulso das áreas nobres da cidade e ir inevitavelmente se instalar nas proximidades da linha do trem, meio de transporte que pelo menos garantia o acesso ao trabalho – e à sobrevivência - no comércio ou repartições públicas do Centro. Percorrendo ruas mal acabadas, sem qualquer tipo de urbanização ou infraestrutura, Lima Barreto urdiu boa parte de sua crônica, que o autor desse livro habilmente transforma em objeto de reflexão. É sobre o Rio da pobreza, da miséria, das brutais desigualdades sociais e da exclusão – aspectos ainda assustadoramente atuais – que o “mulato de Todos os Santos” escreve.

Na insuperável biografia A vida de Lima Barreto, do historiador Francisco de Assis Barbosa, ficamos sabendo que o autor de Triste fim de Policarpo Quaresma frequentava os bares próximos à estação de trem da Central do Brasil e se entregava ao hábito – ou ao vício – de beber cachaça. Que outro escritor ou intelectual da época possuía os mesmos hábitos? Eis a explicação da singularidade do velho Lima e dos seus escritos. Ele compartilhava do convívio com o povo da cidade em ambientes que a elite intelectual não ousava frequentar.

Talvez por isso, o referido biógrafo de Lima há tempos já profetizava que “não será possível proceder-se à revisão de nossa história republicana, [...] trabalho que tanto se impõe, sem recorrer aos romances, contos, crônicas e artigos de Lima Barreto”. Joachin Neto cumpre a profecia de Barbosa e vai além.

Já era tempo de avançarmos na direção de perceber e investigar que surge ali, na imprensa carioca do início do século XX, com Lima Barreto – mas não só com ele -, esse gênero jornalístico cuja origem temos equivocadamente atribuído a uma matriz norte-americana.

Não, o jornalismo literário não nasceu com Gay Talese, Norman Mailer, George Orwell, Truman Capote, Tom Wolfe e outros, por volta das décadas de 1950 e 1960, tendo sido logo em seguida adotado por jornalistas, jornais e revistas no Brasil a partir dessa época. É preciso que superemos de uma vez por todas o nosso complexo tupiniquim que nos tem levado muitas vezes ao apreço desenfreado pelas novidades estrangeiras, obscurecendo o que já se faz há tempos no nosso próprio quintal. Ou nos nossos próprios subúrbios, como sugere Lima Barreto. Não precisamos buscar em canto algum para além de nossas fronteiras a origem desse gênero discursivo que escritores brasileiros desenvolveram atuando nas redações de jornais e revistas do início do século passado.

Ninguém descreveu os subúrbios e o avesso da modernização urbana da Capital Federal como Lima Barreto. Ninguém retratou como ele a disseminação do arrivismo, que engendrava a busca pela ascensão social a qualquer preço, e que parece ainda tão vivo entre nós em pleno século XXI. Também não encontraremos descrição tão detalhada do funcionamento do Hospício Nacional de Alienados, senão na primorosa “reportagem” que se tornou o Diário do Hospício – assim como O Cemitério dos Vivos e o conto Como o homem chegou. E quem retrataria com tamanha riqueza de detalhes a dinâmica e os bastidores da redação de um grande jornal, esse “engenhoso aparelho de aparições e eclipses, espécie complicada de tablado de mágica e espelho prestidigitador, provocando ilusões, fantasmagorias, ressurgimentos, glorificações e apoteoses com pedacinhos de chumbo, uma máquina Marinoni e a estupidez das multidões”, a não ser o autor de Recordações do escrivão Isaías Caminha - onde se lê tais palavras?

Por fim, a obra em questão evoca João Antônio. Escritor, contista e repórter que dedicou todos os seus livros ao “mestre” Lima Barreto, é considerado um dos expoentes do jornalismo literário no Brasil das décadas de 1960 e 1970. As suas insistentes dedicatórias talvez indiquem uma filiação literária do repórter premiado da revista Realidade, que escreveu também uma espécie de esboço biográfico intitulado Calvário e porres do pingente Afonso Henriques de Lima Barreto, publicado pela Civilização Brasileira em 1977. Se João Antônio usava suas dedicatórias para homenagear o seu “mestre”, a publicação do livro de Joachin Neto também soa como uma bela homenagem à crônica de Lima Barreto neste 2011 em que se completaram 130 anos do seu nascimento.

Por Denilson Botelho
Professor de História da UFPI

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