22 de outubro de 2011

Para que serve a história?

O mundo não é o que se apresenta diante dos seus olhos. A realidade pode mudar a qualquer momento. E mais: o que aí está nem sempre foi assim. A existência humana é um processo marcado por constantes mutações. Estudar e conhecer a história é uma tentativa de compreender a natureza dessas frequentes transformações, percebendo que tudo é construção na trajetória da humanidade.

O historiador é aquele que aprende a desconfiar e fazer uso obrigatório do senso crítico, porque compreende desde cedo que nada é natural, tudo é construção. Perdoe o leitor a simplificação apressada que passo a fazer, mas é necessário exemplificar.

Ao perceber que a sua existência é essencialmente trágica, o homem constrói a religião. Afinal, como lidar com a inexorabilidade da morte? O dito popular indica que a morte é a única certeza que temos na vida. Então para que a vida não se torne uma experiência trágica, fruto da convivência com a expectativa do fim que não se sabe ao certo quando virá – se hoje, amanhã ou daqui a alguns anos, décadas -, foram construídas pelo homem várias formas de se relacionar com esse final de vida sempre à espreita. A elas podemos chamar de religiões.

Sim, as religiões surgiram em algum momento e têm também a sua história. E quem estuda e pesquisa a história das religiões obriga-se a ir além dos dogmas que as constituem. Não se trata de discutir se depois da vida existe ou não outra vida, ou se vamos ao purgatório, ao paraíso, ou qualquer outro lugar que seja. Isso é dogma e dogma não se discute. Ao historiador interessa a construção desses dogmas e como se articulam numa doutrina que estabelece interlocuções variadas com diferentes contextos históricos.

O amor, o casamento e o sexo também não são condições atávicas do ser humano. Adquiriram diferentes configurações ao longo dos tempos. Não podemos tomar o padrão de família burguesa como natural, como norma ou modelo. É preciso perceber que esse modelo tradicional de família se encaixa como uma luva numa sociedade capitalista como a que temos. Cada núcleo familiar potencializa o desejo e a necessidade de consumo que alimenta de modo auspicioso esse modelo econômico. Aliás, casamento e família criam e fomentam desejos de consumo muitas vezes insaciáveis.

E se compreendemos que o casamento, o amor romântico e a família burguesa são construídos, tornamo-nos mais capazes de compreender que também a sexualidade corresponde a padrões de comportamento toleráveis ou não - de acordo com o seu tempo histórico. Ou seja, compreendemos que o sexo também está condicionado por fatores culturais, sociais e econômicos. E, melhor que tudo, percebemos que em matéria de comportamento humano, nem sempre tudo foi de uma mesma maneira e, portanto, não precisa ser desta ou daquela forma, pode mudar, pode ser diferente.

Inserir os acontecimentos, costumes, modos de agir e pensar, trabalhar e se divertir no plano da história, educa o nosso olhar para a compreensão, não para o julgamento. Educa-nos portanto para a tolerância que anda tão em falta nos nossos dias, visto que são abundantes as notícias de intolerância religiosa e sexual, entre outras.

Talvez seja em face disso que os historiadores têm se dedicado cada vez mais à história cultural. Afinal, tudo isso nos remete necessariamente ao plano da cultura, que é onde se tecem e se constroem valores, comportamentos e concepções de vida.

Nas últimas décadas, por exemplo, o Brasil viu se consolidar um fenômeno midiático extremamente interessante: a telenovela. Descendente direta do folhetim, esse gênero conquistou uma audiência fiel, hoje talvez ameaçada pela concorrência com as novas mídias e a internet. Uma vertente crítica de apreciação da telenovela explica que ela sempre tem um final feliz, porque, afinal de contas, a vida é uma experiência trágica: no final, todos morremos. Na telenovela não, só os bandidos e malfeitores morrem. O mocinho, em geral, casa e vai ser feliz com a sua consorte. Na vida real, muitos de nós casamos, mas nos separamos porque não deu certo continuar juntos. Então pode ser melhor ficar vidrado na trama da telenovela, visto que lá o final feliz está assegurado. Já quanto a nós... Daí os fanáticos pelo gênero, que passam a viver mais a expectativa do desenrolar de uma trama alheia, do que ter que encarar a dura realidade que os cercam.

A ficção, a literatura e a telenovela, não deixam de ser também uma criação humana para reinventar a relação com a própria vida. E muitas vezes essa reinvenção se torna uma intervenção efetiva na realidade em que vivemos. Basta pensar no seguinte: quantas vezes a leitura de um romance, um filme, uma peça de teatro ou mesmo uma novela já foram capazes de transformar o seu olhar sobre o mundo?

Benedict Anderson, num livro intitulado “Comunidades imaginadas” (Companhia das Letras, 2008), analisa e reflete sobre como nascem as nações e o nacionalismo. O leitor deve saber que as nações têm a sua história, que foram também construídas paulatinamente, resultaram de complexos processos de formação e, muitas vezes, permanecem inconclusas. Nações são também um parto da imaginação, precisam ser imaginadas por um amplo conjunto de indivíduos.

Se as religiões, o amor, o casamento, a família, o sexo, a ficção e as nações são construções, a tarefa que se impõe ao historiador é desconstruí-las, desnaturalizá-las e historicizá-las. Eis o desafio fascinante que se renova diariamente diante de nós, fazendo do passado um ambiente dinâmico e inquietante, que o historiador lhe convida a frequentar cada vez mais para compreender o sentido do que você faz por aqui. A história serve para isso.

Denílson Botelho
Professor de História da UFPI

Publicado na coluna Fórum, O Dia, Teresina, 22/10/2011.

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