8 de outubro de 2011

O ofício da palavra e das ideias

Na semana que passou, realizamos no Centro de Ciências Humana e Letras da UFPI o I Encontro Piauiense de Ensino de História. O evento motivou reflexões e me fez lembrar que há alguns anos fui homenageado pelos alunos do curso de Pedagogia de uma universidade particular onde lecionei. Nas linhas que seguem, passo então a compartilhar com os leitores as palavras que proferi como Paraninfo naquela formatura. O texto de hoje é uma reprodução do discurso proferido naquela ocasião:

Somos a partir de agora colegas de profissão inseridos num mesmo campo de atuação que é a educação. De minha parte, fiz a escolha de ser professor há exatos vinte anos, quando ingressei no curso de História. E apesar de assistir outros colegas fazendo escolhas profissionais mais promissoras naquele final dos anos 80 do século passado, não me arrependi jamais de abraçar com convicção a minha vocação. Esta vocação, que a partir de agora compartilho com vocês, consiste em extrair imenso prazer daquilo que é a essência da nossa existência: a aprendizagem e a busca pelo conhecimento. Na área de educação, o que mais me encanta é ver o outro crescendo, progredindo, se qualificando e se apropriando dos conhecimentos que precisam ser compartilhados através dos tempos.

Nesse processo, a figura do educador é transitória, passageira, mas por vezes marcante. Tão marcante que, devo admitir, até hoje eu me inspiro naqueles que no passado foram meus mestres e consolidaram em mim a escolha pelo magistério.

É bem verdade que a história da educação no nosso país tem sido uma tragédia, evidenciada pela permanente exclusão dos mais pobres no que diz respeito ao acesso ao ensino de qualidade, seja em que nível for. Salários baixos e uma precariedade generalizada é o que tem caracterizado a realidade da nossa profissão.

Mas saibam que, a despeito de toda a imensa frustração que temos vivido ao longo das últimas décadas, não há motivos para desanimar ou esmorecer. Estou certo de que estamos lutando pelos ideais que precisam ser defendidos e devemos persistir nessa luta como quem cumpre uma missão. Afinal, persistir na luta com nosso trabalho diário é o que nos alegra e faz prosseguir.

Nesse sentido, talvez valha à pena lembrar aqui uma breve historinha. Certa vez, ao ser entrevistado pouco antes de morrer, perguntaram a Darcy Ribeiro se ele não se arrependia das escolhas que fez ao longo da vida, já que fora sempre derrotado. Lutou pela preservação dos índios e estes foram dizimados. Lutou contra da Ditadura Militar e foi perseguido e exilado. Lutou pela escola pública de qualidade e tempo integral no Rio de Janeiro e ela foi desmontada após uma curta experiência. Pois do alto da sua sabedoria e à beira de sofrer sua última derrota – desta vez, contra a doença que o vitimara -, Darcy deu uma resposta que nos serve como uma bela lição. Darcy observou que preferia estar do lado dos que perdem lutando do que ao lado daqueles que o derrotaram sistematicamente. As derrotas que sofreu só dignificam a sua trajetória, ao contrário das vitórias que tanto envergonham os que o derrotaram.

Na missão que temos como educadores, o uso da palavra e das ideias são nossas principais ferramentas de trabalho. E acreditem, é através delas que podemos nós também mudar o mundo. Não necessariamente fazendo uma revolução, mas militando sim na crença de que podemos construir um futuro melhor com nossos pequenos gestos cotidianos pautados pela ética e pela defesa da cidadania. Nesse sentido, temos em mãos algumas poderosas armas: as palavras e as idéias. Certa vez, analisando a reflexão francesa sobre a diversidade humana, num livro intitulado Nós e os outros, o linguista búlgaro radicado na França Tzvetan Todorov afirmou com muita propriedade:

“Sozinhas, as ideias não fazem história, as forças sociais e econômicas também agem; mas as ideias não são apenas puro efeito passivo. De início tornam os atos possíveis; em seguida, permitem que sejam aceitos: trata-se, afinal de contas, de atos decisivos. Se eu não acreditasse nisso, por que teria escrito este texto, cujo objetivo é também agir sobre os comportamentos?”

Portanto, se não acreditássemos no quanto somos capazes de fazer, de realizar e construir com nossas ideias e palavras, o que estaríamos nós fazendo aqui hoje nesta formatura?

Assim sendo, agradeço-lhes mais uma vez pela homenagem e parabenizo a todas pelo importante passo que deram formando-se no ofício da palavra e das ideias.

Muito obrigado.

Denilson Botelho
Prof. de História da UFPI

Publicado no jornal O Dia, Teresina – PI, Coluna Fórum, 08/10/2011.

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