15 de outubro de 2011

Morte anunciada

Um deputado estadual está sendo ameaçado de morte há um bom tempo. Um dos motivos das ameaças deve-se ao fato dele ter combatido sem trégua o crime organizado e suas alianças com o poder constituído. O auge de sua atuação foi numa CPI que denunciou centenas de envolvidos, inclusive policiais e até mesmo políticos. O deputado pertence a um pequeno partido de esquerda e na última campanha foi proibido de percorrer certas regiões da cidade, porque ninguém podia garantir a sua integridade física.

Não, não estou falando de nenhum político do Piauí ou mesmo do nordeste. Está certo que o Piauí teve o seu 50º prefeito cassado recentemente, mas já passamos da hora de parar de repetir que aqui acontece tudo de ruim. Basta desse complexo de inferioridade, pois estamos todos num mesmo barco chamado Brasil – ou seria uma canoa furada, que insistimos em não deixar afundar há mais de 500 anos?

Nesse pouco tempo em que passei a viver em Teresina, o que mais ouço por aqui são os piauienses reclamando de tudo, como, por exemplo, do calor da cidade. E no que percebem que sou do Rio de Janeiro, invariavelmente ouço algo do tipo “ah, aquilo lá é que é uma terra boa!” Será?

Influenciados pela mídia, especialmente as telenovelas da Rede Globo, muitos são levados a pensar que o carioca habita aquele balneário entre o Leme e o Recreio, numa rotina entre a praia, sombra e água fresca. Esquecem que a cidade maravilhosa não cabe na telinha da televisão e que a avassaladora maioria da população vive além-túnel Rebouças, na zona norte, subúrbios e periferias afins. O bairro de Bangu no verão, por exemplo, é capaz de deixar qualquer teresinense com saudades de casa. Sobretudo porque quando lá o clima vai ficando insuportavelmente quente (dezembro/janeiro/fevereiro), aqui começa a refrescar.

Pois o deputado estadual a que me referi logo na primeira linha é do Rio de Janeiro e atua na Assembléia Legislativa daquele estado, não do Piauí, Maranhão ou qualquer outro do Nordeste. Sua atuação foi inclusive retratada no filme “Tropa de Elite – 2”. Ou seja, refiro-me a uma cidade que está fazendo de um dos seus filhos mais dedicados à causa do combate à pobreza, do combate às desigualdades sociais e às redes criminosas - infiltradas inclusive na máquina do Estado -, um refém indefeso.

Não sou amigo íntimo ou pessoal do deputado, mas convivemos por um bom tempo quando cursávamos juntos a Licenciatura em História, na Universidade Federal Fluminense. Enquanto a maioria de nós seguia em busca do convencional estágio nas escolas da rede pública de Niterói, Marcelo Freixo já frequentava há algum tempo os presídios do Rio. Dedicou-se desde cedo à educação da população carcerária. Ao invés de virar às costas para o cárcere, desejando hipocritamente que os que lá estão devem mesmo ser submetidos a maus tratos e, quiçá, serem até eliminados, Freixo apostava na educação como forma de viabilizar a transformação das vidas daqueles indivíduos.

Na verdade ele entende que não adianta fechar os olhos para esse problema: lá dentro dos presídios existem seres humanos. Certamente cometeram crimes, mas possivelmente muitos podem ser re-introduzidos no seio da sociedade, se formos capazes de prover as condições necessárias para isso. Não se combate o crime e a violência com a multiplicação das prisões, mas com educação, saúde, redistribuição de renda e cidadania.

Marcelo Freixo se elegeu deputado estadual mesmo sendo proibido de circular em regiões da cidade controladas pelas milícias cariocas. Candidato por um partido pequeno, o PSOL, teve votação extraordinária, que se beneficiou em larga medida da militância via internet. Faz do seu mandato um instrumento de luta e de denúncia de uma infinidade de atitudes que Sérgio Cabral, Eduardo Paes e sua trupe estão tomando para fazer do Rio um palco iluminado para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. São reformas urbanas que fazem lembrar atrocidades similares àquelas cometidas há um século por Pereira Passos e sua fúria modernizadora e excludente, devotada a banir da paisagem tudo aquilo que possa evocar a pobreza, a miséria e a violência que caracterizam o Rio de Janeiro há tanto tempo.

Recentemente o deputado entrou em cena de novo em face do episódio do brutal e inaceitável assassinato da juíza Patrícia Acioli. No que ergueu a voz da tribuna, voltaram a surgir ameaças veladas de morte. O Rio de Janeiro que faz do deputado Marcelo Freixo um refém dessas ameaças, muito envergonha a todos nós. Ao mesmo tempo, sua atuação nos enche o peito de esperança num futuro melhor para um estado que só pensa no próprio umbigo, que se ilude achando que o petróleo que brota em seu litoral não pertence ao povo brasileiro, mas somente aos cariocas e fluminenses.

Antes que o leitor pense que estou aqui fazendo propaganda política, quero dizer que não sou filiado a partido político algum, nem jamais fui. Votei no PT a vida inteira. Desencantei-me com ele a partir da chegada de Lula ao poder, ainda que tenha votado na sigla para impedir o retorno do nefasto PSDB ao Palácio do Planalto. Hoje faço parte daquele grupo que comunga de um ideário de esquerda, mas anda meio perdido, sem um porto seguro, sem uma rota a ser tomada. E é com essa independência de pensamento que eu me recuso a aceitar que estamos lidando com mais uma história, dentre tantas outras que já assistimos, de uma morte anunciada. Vida longa a Marcelo Freixo e aos ideais pelos quais tem lutado!

Denilson Botelho
Prof. de História da UFPI

Publicado no jornal O DIA, de Teresina (PI), em 15/10/2011. Caderno Em Dia, Coluna Fórum, pág. 2

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