27 de outubro de 2011

Aos historiadores: “Não existe vida. Existe vida contada. [...] O que nos torna humanos é a capacidade de contar a vida".

Eliane Brum: Limites da vida e reportagem



Para a jornalista, “o que nos torna humanos é a capacidade de contar a vida. E é só como história contada que a vida pode fazer algum sentido”


Por Leandro Melito

Era começo de 2008, quando a jornalista Eliane Brum, que então trabalhava como repórter especial da Época, recebeu o telefonema do também jornalista Audálio Dantas, premiado pela ONU por uma série de reportagens sobre o Nordeste brasileiro para a extinta Realidade. Ele acabara de visitar um amigo internado na enfermaria de cuidados paliativos do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo e sugeriu a Eliane que acompanhasse algum dos pacientes que ali estavam para realizar uma matéria.

Animada com a idéia, Eliane procurou a assessoria de imprensa do hospital para falar sobre a reportagem. Conheceu a chefe da enfermaria, Dra. Maria Gorette Maciel, que, junto com sua equipe indicou uma paciente: Ailce Oliveira de Souza, merendeira de escola aposentada, então com 66 anos. Ailce estava com câncer, um tumor malígno que não podia ser retirado. Elas tiveram seu primeiro encontro em uma visita domiciliar realizada pela equipe multiprofissional da enfermaria, no dia 26 de março de 2008.

Certamente quando escolheu Eliane para sugerir essa reportagem, Audálio sabia que um tema delicado como esse precisaria não só de muito tato, mas também olfato, paladar e, principalmente, audição. No primeiro encontro, Eliane buscou escutar o que Ailce tinha para dizer ao invés de fazer perguntas. “A delicadeza da minha escuta me possibilitaria compreender as verdades de Ailce e não as minhas”.

Dessa forma ela conseguiu dados preciosos para a matéria que não teria se abordasse Ailce com perguntas diretas. Uma dessas informações era que a paciente não pronunciava a palavra câncer, que substituía sempre por doença ou tumor. Se tivesse perguntado algo sobre o câncer, Eliane poderia induzir Ailce a pronunciar uma palavra que havia abolido de seu vocabulário e jamais teria essa informação.

Quando se dispôs a fazer a reportagem, Eliane partiu para um enfrentamento pessoal com a questão da morte. Durante quatro meses acompanhou Ailce em visitas semanais à sua residência, além de conversar com ela ao telefone diariamente após o almoço. Entrou em um processo de questionamento sobre os limites não só da vida mas também da reportagem. “Assim como a morte questiona os limites da vida, a reportagem sobre a morte questiona os limites da reportagem”.

Esses limites eram sua própria presença na vida que relatava. Eram os limites de quem vivenciava aqueles momentos com Ailce para depois reportá-los.“O lugar da escuta em um momento delicado e radical: o fim da vida. É preciso estar dentro e fora ao mesmo tempo. Um equilíbrio difícil. Você mergulha naquela realidade, entra nela com os dois pés, mas ao mesmo tempo a outra parte fica o o tempo todo fora”.

Ao longo do processo, Eliane compreendeu que não estava fazendo uma reportagem sobre a morte, mas sobre o fim da vida. “Era uma matéria sobre a afirmação da delicadeza da vida ”. A vida de Ailce se esvaia e ambas sabiam que a matéria só seria finalizada com a sua morte. Os questionamentos de Eliane sobre a reportagem continuavam: “porque essa pessoa está contando essa história? Porque ela abriu a porta da casa e da vida dela?”.

A passagem de Ailce aconteceu no dia 18 de julho às 15h50. Eliane sofreu com a perda daquela que se tornara sua amiga, entrou em luto. A matéria continuava à espera de um desfecho. Eliane então compreendeu quanta confiança Ailce havia depositado nela. Ailce confiara a ela sua vida. “A minha função era reconstruir o corpo dela com palavras, torná-la viva”. Ela passou então a ressignificar a vida daquela mulher através de suas palavras e de todas aquelas informações que haviam sido entregues em suas mãos.

“Não existe vida. Existe vida contada. O que nos torna humanos não é o polegar opositor. Ou menos de 1% de material genético diferente dos chimpanzés. O que nos torna humanos é a capacidade de contar a vida. E é só como história contada que a vida pode fazer algum sentido”, escreveria ela na crônica Minha vida dá um romance, publicada quase dois anos depois.

No processo de ressignificação da vida de Ailce, através do texto, Eliane passou também a ressignificar a própria existência. “Esse processo me levou a deixar a Época. Estou vivendo com muito pouco, só para o básico. Isso faz com que eu seja mais dona do meu tempo”. Ela compreendeu que se preparar para a morte é uma forma de valorizar a vida e passou a se preparar para a sua. O primeiro passo foi fazer seu testamento vital, um documento que expressa o desejo do paciente diante de uma doença sem possibilidade de cura, um documento onde a pessoa enquanto está consciente, determina por escrito e com testemunhas, quais são os limites do seu tratamento no caso de uma doença incurável.

Fonte: http://ponto.outraspalavras.net/2010/08/02/eliane-brum-limites-da-vida-e-reportagem/

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