10 de setembro de 2011

Timon, Zara e a micro-história

Investigar a trajetória de um indivíduo qualquer para explicar a sociedade e o tempo histórico em que este viveu. Essa metodologia de pesquisa há tempos conquistou um espaço significativo no campo da História, influenciando diversos trabalhos desenvolvidos nas últimas décadas. Ao transformar um moleiro friulano chamado Menochio em objeto de investigação, o historiador Carlo Ginzburg fascinou e convenceu especialistas e leigos sobre a pertinência do seu método. Quem quiser conferir, que leia o seu trabalho seminal, publicado pela Companhia das Letras em 1987, com o título “O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição”.

Ginzburg, juntamente com Jacques Revel e Giovanni Levi, difundiu e sedimentou entre nós essa possibilidade de transformar anônimos ou indivíduos antes marginalizados pela historiografia, em sujeitos de uma história hoje tão necessária. Fugindo das generalizações abstratas e tão distantes da realidade concreta vivida pelas pessoas, a chamada micro-história fez de acontecimentos pontuais, embates cotidianos e indícios variados, elementos fundamentais para a compreensão de uma época.

Por estas razões é que vejo com entusiasmo o trabalho de pesquisa que vem sendo desenvolvido por Thiago Oliveira da Silva Brito no âmbito do Programa de Pós-Graduação em História do Brasil da UFPI. Sob a experiente orientação do Professor Francisco Alcides do Nascimento, o mestrando promete fazer com Zara o que Ginzburg fez com Menochio, iluminando através da micro-história a Timon que ambos (Zara e Thiago) têm em comum.

Zaratustra Yáskara Douglas, mais conhecido como Zara, nasceu em Timon, em setembro de 1968, e faleceu em março de 1992, encerrando uma trajetória de vida marcada pela sua atuação no que foi considerada uma disputa entre gangues pelo controle do tráfico de drogas nessa cidade, no final da década de 1980. Segundo o pesquisador, trata-se de personagem assíduo nas páginas policiais da época, cuja memória sobrevive entre os moradores de Timon, ora como bandido temido, ora como justiceiro e pacificador da cidade.

Mas por que Zara seria importante a ponto de ocupar o centro das atenções de um jovem historiador maranhense? Por que pesquisar a trajetória de Zara? Thiago Brito entende que “Zara foi, e continua sendo, um sujeito marginal, e talvez por isso mesmo, sua história é tão importante para entender o principal fantasma que a cidade de Timon enfrenta até os dias de hoje: o estigma de cidade violenta e atrasada”. Portanto, podemos observar que essa trajetória de vida enseja uma compreensão mais aprofundada sobre uma cidade estigmatizada sob o signo da violência e do atraso.

É curioso perceber que suas pesquisas, em andamento, apontam para um período de profundas transformações urbanas nessa cidade maranhense tão próxima de Teresina. Entre as décadas de 1960 e 1980, Timon foi palco de um verdadeiro salto demográfico e um acelerado processo de urbanização. Num curto espaço de tempo, a população urbana do município cresceu significativamente. Utilizando dados do IBGE, o historiador mostra que na década de 1980, quase 75% dos habitantes passaram a viver no perímetro urbano, virando a página de um passado em que verificava-se o predomínio da população rural.

Esse contexto coincide com a trajetória de vida de Zara, sugerindo a necessidade de avaliar as relações que podem existir entre ambos. Em que medida o acelerado crescimento urbano e suas consequências imediatas contribuem para explicar a emergência da violência urbana em Timon nas décadas de 1980 e 1990, marcadas pela difusão do tráfico de drogas e os confrontos entre gangues envolvidas com esta atividade? Thiago Brito persegue Zara através das páginas dos jornais, de processos criminais e de entrevistas realizadas com base na metodologia da história oral, com o fito de compreender os significados de Timon ontem e hoje. Opera também com os instrumentos de análise da micro-história para examinar processos de construção de memória sobre a cidade e seus estigmas, bem como o lugar de Zara nisso tudo.

Cabe ainda ressaltar a contribuição singular que a historiografia pode dar para a análise e discussão de um tema contemporâneo como esse. A violência urbana há muito tornou-se um problema com o qual convivem especialmente as grandes cidades e suas adjacências. Ao intervir nesse debate, o historiador pode e deve contribuir de forma pertinente e relevante para enriquecê-lo e aprofundar a discussão. Eis o desafio que está colocado diante de nós e que jovens historiadores não se furtam a enfrentar, revelando um pouco da função social intrínseca dos programas de pós-graudação de nossa universidade.

Tive o prazer de conhecer um pouco mais sobre Zara participando da banca do exame de qualificação de Thiago Brito no Mestrado em História do Brasil na UFPI. Trata-se de uma avaliação - que antecede a defesa do texto integral da dissertação - do que o pesquisador já produziu. Assim, li uma parte do trabalho desenvolvido. E pelo que pude perceber, em 2012 teremos uma bela pesquisa concluída. Espera-se que a sua leitura não seja privilégio de uns poucos – dentre os quais orgulhosamente já me incluo -, mas sim que conquiste uma ampla e variada gama de leitores tomando a forma de um livro que certamente merecerá ser publicado. Resta-nos aguardar mais alguns meses e conferir.

 
Denilson Botelho

Prof. de História da UFPI

 
Publicado no jornal O Dia (Teresina), em 10/09/2011.

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