24 de setembro de 2011

Partido político pra quê?

Nos últimos tempos, paira no ar um certo repúdio aos partidos políticos e até mesmo aos movimentos sociais organizados. Observando os protestos contra o aumento das tarifas dos ônibus em Teresina e as manifestações realizadas paralelamente às celebrações oficiais do dia da Independência, foi perceptível a preocupação da imprensa e de outros setores em identificar a espontaneidade e a autonomia desses movimentos em que a juventude desempenhou papel destacado.

O uso das redes sociais na internet reforçou ainda mais essa impressão de que trata-se de movimentos sem uma liderança previamente constituída. Os mais afoitos tentam inclusive nos fazer crer que tivemos aí uma demonstração cabal de que o povo brasileiro não é passivo e submisso como muitos supõem – e de fato não é e nunca foi passivo -, mas sim capaz de rebelar-se de forma vigorosa.

A onda de democratização que varre alguns países sob a alcunha de “primavera árabe” por vezes também sugere a mesma impressão. Cansado de anos e anos de tirania, o povo partiu para a luta, pegou em armas e derrubou ditadores célebres para dar início a uma nova etapa da história nessas regiões do mundo.

Por um lado, aqui no Brasil, isso pode significar um descontentamento explícito com os partidos políticos que temos e sua habitual predisposição de locupletar-se a partir do momento em que chegam ao poder, seja elegendo candidatos, seja através de alianças. Há indícios claros de uma crise de representação política. Qual ou quais partidos traduzem e representam efetivamente os anseios da população?

Certamente o povo encontra enormes dificuldades de se reconhecer através de um ideário político partidário. Ninguém consegue precisar qual é a identidade política dos partidos que temos. Que afinidades e diferenças pode-se estabelecer entre as legendas? Eis aí uma árdua tarefa para todos nós. Há uma tendência – perigosa, diga-se de passagem – a definir a identidade política dos partidos em função de uma única chave de leitura: oposição ou situação, se está no poder ou fora dele. O resto seriam filigranas.

Assim, não podemos desprezar o recado que emana desses movimentos ditos supostamente como espontâneos e desprovidos de lideranças. É sem dúvida um indício claro de que não se sentem representados por partidos, por entidades estudantis ou quaisquer outras organizações políticas. Representam portanto uma dura crítica a essas entidades e a sua capacidade de exercer de forma legítima a representação popular.

Por outro lado, vejo com enorme preocupação esse quadro, visto que ameaça as bases da jovem democracia que temos e pela qual lutamos com esforço e determinação, pagando às vezes com a vida de alguns militantes que se engajaram nessa causa. Não faz muito tempo que saímos da Ditadura Militar. Tanto é que ainda convivemos com inúmeros resquícios daquele período autoritário – a começar pela cultura do autoritarismo que grassa entre nós, entranhada nas nossas instituições e relações pessoais e sócio-profissionais.

E como se constrói uma democracia sólida?

O regime republicano e democrático não pode prescindir da existência de partidos políticos fortes e com identidade política bem definida. O movimento social desorganizado, sem objetivos claros e lideranças amadurecidas nos embates das lutas políticas, tende a desmobilizar-se. Se a espontaneidade e indignação que brotam nas redes sociais e transbordam para as ruas não são canalizadas para conquistas de maior amplitude, para um projeto de país, para um programa a ser implementado, perde força e desaparece em pouco tempo.

Se os partidos políticos que estão aí não nos representam, cabe-nos a tarefa de reformá-los ou então de fundar novas agremiações capazes de traduzir e representar com fidelidade os anseios prioritários dos grupos que vêm se mobilizando e tomando de assalto as ruas. E é bom que não nos deixemos levar por discursos moralizadores que se esvaem nas óbvias bandeiras do combate à corrupção e pela moralização da política. Ética e honestidade devem ser premissas básicas a partir das quais devemos empreender quaisquer lutas políticas. O discurso moralizador já nos levou a terríveis descaminhos no passado. Jânio Quadros que o diga!

Quem por acaso já praticou o voto na legenda em alguma eleição? Quem, ao invés de votar num nome qualquer, votou num partido, no projeto político de um partido para o seu município, estado ou para o país? Enquanto não formos capazes de deixar de votar em nomes para votar em programas, votar em propostas a serem implementadas independentemente de quem vai fazer isso, continuaremos engatinhando no exercício da democracia.

O historiador José Murilo de Carvalho, no livro “A formação das almas”, faz um balanço do centenário da República e assinala que esse regime ainda é uma obra inconclusa. Desta forma, não podemos nos furtar a dar prosseguimento a esse processo de construção de uma república democrática.

Se está ruim com os partidos e movimentos sociais que temos, restam duas alternativas. Reformulá-los ou fundar novas legendas e novos movimentos organizados. Afinal, sem eles é que não dá para viver numa sociedade que um dia pretendemos que seja democrática. A não ser que estejamos abrindo mão da democracia pela qual tantos antepassados gloriosos lutaram e até sacrificaram as próprias vidas.

Nesse caso, os arautos dessa suposta espontaneidade e autonomia desprovida de lideranças poderão dizer claramente o que pretendiam com esse discurso. Mas aí pode ser tarde demais...



Denilson Botelho

Prof. de História da UFPI

Publicado na Coluna Fórum, no jornal O Dia, Teresina (PI), em 24 de setembro de 2011, Caderno Em Dia, pág. 4.

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