3 de setembro de 2011

A lição que vem das ruas

Uma parte dessa geração da qual faço parte, que hoje encontra-se na faixa dos 40 anos, guarda certas peculiaridades. Nascida na década de 1960, cresceu sob a vigência da Ditadura Militar e passou pela escola ao longo desse período de autoritarismo e repressão política. Cheguei ao ensino médio, numa escola técnica federal, em plena reta final do processo de abertura. Estudei no CEFET-RJ entre os anos de 1983 e 1985. E para ser sincero, foi ali que comecei a me dar conta do momento histórico que vivíamos.

Quando cursava o segundo ano, participei de um grupo que decidiu fundar um jornal dos estudantes. Chamava-se “Caminhando” e foi lançado em junho de 1984. Até hoje eu olho para aquele jornal e me assusto: eram 40 páginas de textos e ilustrações. Como fomos capazes de produzir um jornal mensal desse tamanho, aos 16, 17 anos de idade? E mais: cada exemplar era vendido, sendo o dinheiro arrecadado destinado a custear a edição seguinte.

Mas a escola tinha na época o mesmo diretor há mais de uma década, designado pela Ditadura para conduzir a instituição com mãos de ferro. Lembro-me que ele não gostou da iniciativa. O jornal vendeu os 800 exemplares da edição de estréia logo nos primeiros dias, foi um sucesso absoluto. Preocupado, o tal diretor nos impôs um regime de censura prévia. Sem alternativa, aceitamos a esdrúxula imposição, que contudo, fomentara entre nós certos questionamentos: por que temos que ser censurados? Por que as pessoas não podem exercer a sua liberdade de expressão (algo que na nossa ingenuidade adolescente nos parecia quase como um direito adquirido, inato)? Por que não podemos nos manifestar livremente? Afinal, educar não é parte da construção da tão desejada autonomia dos sujeitos? Onde fora parar a nossa autonomia dentro daquela escola?

Aos poucos fizemos as relações inevitáveis com a realidade do país e embarcamos na campanha cívica e popular que ganhou as ruas em defesa das eleições diretas para presidente da República. Lembro-me ainda das fortes emoções vividas nas manifestações no comício das “Diretas Já”, sob a estreita vigilância da polícia e a iminente repressão que poderia se desencadear a qualquer momento.

Parte dessa geração passou a sonhar com a democracia, se engajou firmemente nas campanhas eleitorais do PT (sendo ou não filiado ao partido) e desde então vem sendo derrotada, vendo seus sonhos serem pouco a pouco destroçados. Tivemos Sarney na presidência e a derrota para Collor, o auto-proclamado “caçador de marajás”, banido do poder pela geração cara-pintada - constituída de novo pelos estudantes, dessa vez da geração seguinte, que ganharam as ruas com o grito de guerra “Fora Collor!”. Depois mergulhamos nos sombrios anos do governo FHC, que consolidou a hegemonia neoliberal no país. E já no século XXI, quando o PT chega ao poder, já não era o mesmo PT pelo qual lutávamos na década de 1980. A famosa “Carta ao povo brasileiro” de Lula (de junho de 2002) não representa outra coisa, senão um alto grau de continuísmo neoliberal.

Acho que me tornei professor também por conta de uma fé inabalável no futuro e, em especial, nas novas gerações. O magistério exige isso de nós: determinação e esperança que nos fazem crer que aqueles que estão por vir serão em breve muito melhores do que nós, capazes até de realizar os mesmos sonhos que sonhamos e não concretizamos.

Por tudo isso, me orgulho muito dos estudantes que tomaram as ruas de Teresina nos últimos dias. Fazendo uso das novas tecnologias e das redes sociais (como o Twitter), mobilizaram-se e interromperam o trânsito nas principais vias da cidade. Ao invés de criminalizar a ação coletiva de jovens estudantes secundaristas, universitários e pós-graduandos, devemos saudá-la. Afinal, estão lutando pelo interesse coletivo e não em defesa de causas particulares, tão ao gosto do tempo em que vivemos. Estão a nos ensinar algo de muito positivo: é preciso lutar pelo que queremos, pois a vida é luta!

Ao invés de lançar sobre eles a pecha de vândalos, baderneiros e desordeiros, observemos os motivos pelos quais lutam: é injustificável o último reajuste das tarifas dos ônibus urbanos. Especialmente em face do massacre sofrido cotidianamente – e de forma silenciosa – pelos estudantes, trabalhadores e demais usuários desse meio de transporte. O fato é que os ônibus circulam frequentemente lotados, em quantidade e horários insuficientes para a população, fazendo muitos caminharem longos trechos até ter acesso a um ponto de embarque. Além disso, é igualmente inaceitável a inexistência de terminais que articulem as linhas e permitam o pagamento de uma só passagem, ao invés de duas ou mais para se chegar ao destino desejado. E numa cidade como Teresina, por razões óbvias, todos os ônibus deveriam circular obrigatoriamente dotados de ar condicionado.

A essa violência e humilhação cotidiana que um transporte público coletivo desrespeitoso e indigno impõe aos teresinenses, os estudantes responderam tomando de assalto as ruas, protestando e exigindo um valor de tarifa condizente com a realidade e não resultante de uma planilha de custos já colocada sob a devida suspeição. Eis a lição que vem das ruas. É bom que aprendamos com ela, pelo menos enquanto ainda corre em nossas veias o sangue fervido pela indignação.

Afinal, os jovens têm tomado as ruas de grandes cidades pelo mundo afora, movidos por causas de outra magnitude. É o que se vê atualmente no Chile, na Espanha e países do norte da África, por exemplo. Temos assistido à chamada “primavera árabe”. Não me admiraria se ao invés de presenciar o início do B-R-O-BRO, estivermos presenciando uma espécie de “primavera teresinense”.

Denilson Botelho
Professor de História da UFPI

Publicado n’O Dia (Teresina, PI), em 03.09.2011, Caderno Em Dia, Coluna Fórum, pág. 4.

Um comentário:

Jamila Carvalho disse...

Muito bom o texto. É muito bom saber que mais gente comunga com os ideais de quem esteve lá na Frei, na Estaiada para protestar. Sendo criminalizado, sendo espancado, tendo o rosto queimado com o sol e com o ardor da pimenta.
Mas o mais importante que quem colocou a maior pimenta fomos nós, os estudantes. \o/ Meus vivas!