27 de agosto de 2011

Sobre a história que aprendemos e ensinamos


Qualquer graduando ou graduado em história (seja licenciado ou bacharel) padece com o ranço positivista que recai sobre os profissionais dessa área. Numa conversa informal que conte com a presença de um historiador ou professor de história, é muito comum ouvir do interlocutor alguma pergunta sobre o passado, seja ele recente ou mais longínquo. Em geral são perguntas que demandam algum grau de memorização sobre nomes, datas ou fatos. Como era mesmo o nome completo de D. Pedro II? Em que dia o mandato de Fernando Collor de Mello foi impugnado? Qual a contribuição das reformas de Sólon para a democracia ateniense?
Não raro essas situações acabam gerando constrangimento para o inquirido e frustração para quem pergunta. Parece que tanto o senso comum quanto o ensino básico continuam reforçando a ideia equivocada de que o historiador ou professor de história é uma espécie de repositório natural de todo o conhecimento sobre o passado. Afinal, para muita gente, cursar História na universidade ainda pode significar a aquisição ao longo de quatro anos de todo esse conhecimento, para só então poder pisar numa sala de aula e exercer o magistério.
Não há nada mais equivocado do que essa concepção. E os alunos de graduação em História percebem isso já desde o primeiro período, dando-se conta de que não era bem isso que imaginavam sobre a formação que passam a adquirir. Descobrem cedo que não vão conhecer tudo sobre o passado e que nem mesmo a verdade sobre o passado é possível conhecer. Aprendem que lidamos com a verossimilhança, nos aproximamos o máximo possível da realidade passada, sem contudo jamais conhecê-la plenamente. A formação do docente e do pesquisador da área de história consiste em entrar em contato com versões verossimilhantes, frequentemente conflituosas e até opostas. Impossibilitados de voltar no tempo, nossa relação com outras épocas se estabelece através das fontes, é mediada pelas fontes.
Portanto, não existe história sem fontes e não existe professor de história que saiba tudo sobre o passado. O magistério exige de nós um exercício constante – e extenuante - de pesquisa e leitura sobre cada tema que vamos abordar. Convém desconfiar do historiador sem fontes e do professor que sabe tudo sobre todo e qualquer tempo e lugar. Desconfie em nome do senso crítico. E o que faz da história um campo do conhecimento dinâmico e em permanente transformação e construção é a pesquisa e as novas versões dela resultantes. Convenhamos, não fosse assim seria tedioso esse ofício.
É nesse terreno movediço que atuamos o tempo todo. Daí a necessidade de alicerçar a concepção da História como um conhecimento – sobre o passado e o presente - que é permanentemente construído e reconstruído. Nas minhas aulas de História do Brasil República, na Universidade Federal do Piauí, tenho procurado compartilhar com os meus alunos uma experiência que tem se revelado bastante proveitosa no sentido de sedimentar essa noção. A certa altura, apresento-lhes um sujeito chamado Manoel de Assumpção, que conheci há cerca de 20 anos.
Inicialmente esbarrei com ele num fichário do Arquivo Nacional. Pelas informações contidas na ficha, fui sentar-me numa mesa da sala de consultas daquela instituição e conheci mais detalhes sobre sua história. Descobri então que em 1904, ele tinha 29 anos e era um jovem negro e analfabeto. No dia 15 de julho daquele ano, foi recolhido à prisão por dois motivos: encontrava-se excessivamente embriagado numa rua do subúrbio carioca, sendo também considerado um vadio, sem endereço fixo ou trabalho através do qual pudesse custear a sua subsistência.  Essas informações constam de um processo criminal que tenho examinado com meus alunos nesta disciplina.
O leitor pode – e deve – achar estranho que a embriaguez e a falta de um emprego já tenham sido considerados crime. Mas foram. Os artigos 396 e 399 do Código Penal de 1890 classificavam como criminosas tais práticas. E por essa razão, lá se foi Manoel de Assumpção para o xadrez. Mas poucos dias depois ele foi absolvido pelo juiz, que considerou improcedente a acusação. Há muito mais informações a serem consideradas na análise cuidadosa do processo, mas vou me abster de tratar delas aqui, seja por que me falta espaço, seja porque não quero tornar enfadonha a leitura de quem chegou até essa linha do texto.
O que é importante dizer é que temos aprendido muito com Manoel de Assumpção. Como já afirmei, ele reforça a compreensão de que a história é um conhecimento que se constrói assim: frequentando os arquivos e pesquisando fontes variadas. Esse jovem que passou alguns dias sob as garras da polícia e do poder judiciário no Rio de Janeiro da Primeira República deve ser observado como um caso exemplar de um processo de imposição de uma nova ordem capitalista no país. Trata-se também da imposição de uma nova ideologia do trabalho que pode ser percebida concretamente no depoimento do acusado no auto de prisão em flagrante. Quando lhe foi concedida a palavra para produzir sua defesa, foi “pelo mesmo dito que é verdade que bebe e que ultimamente está sem trabalho, mas que promete corrigir-se de um e de outro vício”. Tudo leva a crer que Manoel de Assumpção já assimilara essa nova ordem imposta pela ideologia que ressignificava o trabalho e pela repressão: mesmo bêbado ele declarava que não ter trabalho era um vício, portanto uma doença da qual se empenharia em curar-se. Como se o fato de não ter um emprego ou trabalho dependesse única e exclusivamente dele. Cabe ainda desconfiar se de fato essa expressão foi dita por ele ou lhe foi atribuída pela habitual prepotência policial diante de um analfabeto negro e embriagado. A verdade, como já foi dito, jamais saberemos. E nesse caso nem é o mais importante.
Não resta dúvida de que muitos outros jovens negros e analfabetos como continuam a nos aguardar nos arquivos e em fontes diversas. Ao retirarmos do anonimato de um processo criminal personagens como esse, estamos ensinando aos nossos alunos que qualquer indivíduo pode assumir a condição de sujeito da história. Assim como qualquer professor de história deve ser também um hábil pesquisador e sujeito da produção do conhecimento. Afinal, o conhecimento da história não está aprisionado no passado, “ele nos ajuda a conhecer quem somos, porque estamos aqui, que possibilidades humanas se manifestaram e tudo quanto podemos saber sobre a lógica e as formas de processo social”, como afirma o historiador britânico E. P. Thompson, no livro “A miséria da teoria”. E isso não é pouca coisa em se tratando de uma área do conhecimento que tem padecido com formas tradicionais de ensino. Como se vê, Manoel de Assumpção tem muito a nos ensinar.
Essa experiência de analisar fontes em sala de aula, com os alunos do curso de História, tem sido tão instigante e inspiradora, que pretendo levar Manoel de Assumpção ao I Seminário Internacional História do Tempo Presente, em que um grupo de professores e pesquisadores vai se reunir para compartilhar suas pesquisas e reflexões sobre Ensino de História no Tempo Presente - num simpósio temático. O evento acontecerá nos dias 7, 8 e 9 de novembro de 2011, na Universidade do Estado de Santa Catarina, em Florianópolis. A UFPI certamente estará bem representada, não por mim, mas pelo jovem Manoel e pelo tanto que tem nos ensinado sobre o ofício da história e da docência nessa área.

Denilson Botelho
Prof. de História da UFPI

Publicado no jornal O Dia (Teresina-PI), em 27 de agosto de 2011.
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Observação: excepcionalmente hoje, estou colocando o texto no blog mais cedo, ao invés de fazê-lo após às 12 horas do dia da publicação, como de hábito. O motivo dessa antecipação é que me vejo na obrigação de divulgar o texto sem erros (de separação de sílabas, junção indevida de parágrafos e supressão da última palavra) que constam na edição impressa do jornal. Em respeito ao leitor, aí está o texto completo e correto.

2 comentários:

Anderson Miura disse...

Postagem muito interesante, caro professor. É necessário desconstruir essa imagem que o historiador é detentor de todo o saber. Pela minha curta experiência com o ofício, já fui pego muitas vezes nessa cilada. Quanto a experiência com o processo de Manuel de Assumpção, o contato foi único e singular, pois, mesmo no nosso curso, não verificamos tal próximidade com processos como este.

rarodeoliveira disse...

A diagramação moderna está dependente dos programas que usam dicionários fracos feitos em outros países, como o tal "português brasileiro"... e na pressa de fechamento das edições junções de parágrafos eou edições grotesca na palavras de um parágrafo se tornam comuns.