7 de agosto de 2011

Para onde vai o jornal diário?

Há pouco mais de um ano foi criado na UFPI um Grupo de Pesquisa de História Social da Imprensa, Memória e Narrativas, que tenho a honra de liderar. O grupo reúne um pequeno número de pesquisadores com mestrado, mestrandos e graduandos que se interessa pela história da mídia, notadamente a imprensa. Além de discutirmos projetos de pesquisa em desenvolvimento e a bibliografia referente a essa área do conhecimento, volta e meia contemplamos também os desafios que estão colocados à mídia contemporânea.

O futuro e o estado atual dos jornais diários é inquietação que vai e volta entre nós. Noutro dia mesmo um aluno reforçou a percepção de que essa modalidade de imprensa está falida, visto que reproduz muito do que já está publicado na internet e justamente por isso, perdeu a sua função na medida em que nos serve todas as manhãs notícias velhas. Será mesmo que o jornal diário está fadado a desaparecer entre nós?

Como historiador, não deveria me arvorar a tratar do futuro, mas arrisco prever um vigoroso futuro para essa mídia, caso consiga contudo se reinventar – e disso não resta dúvida. Senão, vejamos: como teve início a derrocada recente de Palocci? Foi através da reportagem de um jornal diário, a Folha de S. Paulo, que o Brasil tomou conhecimento no último dia 15 de maio, um domingo, da súbita e suspeita multiplicação do patrimônio do ex-ministro. A notícia fresquinha nos foi servida não pela internet, mas por um jornal impresso – que até tem a sua versão digital. Tem ou não futuro o jornal diário? Ele pode ou não sair na frente da internet na divulgação de certas notícias e informações?

Tendo a pensar que se a empresa que publica um jornal estiver disposta a bancar um investimento mínimo no jornalismo e na investigação, pode produzir um impresso que sirva de fonte para a internet, ao invés de apenas reproduzir notícias já difundidas pela grande rede. Afinal, repórteres talentosos e criativos não nos faltam. Aqui mesmo, n’O Dia, em fevereiro desse ano, li reportagem de Mayara Bastos da qual jamais me esquecerei – e a qual já me referi recentemente. O tema não era novo e tinha tudo para sugerir uma abordagem pautada pela mesmice: a fome no Piauí. O IBGE acabara de divulgar dados novos sobre o assunto e esses poderiam ser apenas reproduzidos pela repórter num texto sem a menor criatividade. Contudo, não foi isso que se leu naquela matéria.

Ao invés de reproduzir números e ressaltar quantos milhares de pessoas passam fome por aqui, Mayara Bastos preferiu mostrar a face humana da fome naquele 3 de fevereiro de 2011. Uma coisa é citar os números da fome, outra é pegar o leitor pela mão e conduzi-lo ao interior da casa de um teresinense que cotidianamente não tem o que comer, nem como alimentar os próprios filhos. Lembro do olhar sem esperança de uma mulher que padece dessa infame situação estampado numa foto que compunha a reportagem, junto com outra de uma panela vazia sobre o tosco fogão de um casebre humilde. Temos assim um exemplo claro do jornalismo se reinventando ou mesmo do jornalismo literário num jornal diário – coisa que muitos julgam inviável.

Mas a minha crença no futuro do jornal não me permite fechar os olhos para os desafios a serem enfrentados. E para tratar de parte – apenas parte – desses desafios, reporto-me a uma crônica de Lima Barreto, publicada na Gazeta da Tarde, há um século, mais precisamente em 18 de outubro de 1911. Sob o título “Os nossos jornais”, aquele escritor passa em revista a imprensa da época e faz diversas observações que soam extremamente atuais, sobretudo no exame dos jornais publicados hoje em Teresina.

Ressaltando o “emprego inútil que os nossos jornais fazem de um espaço precioso”, Lima Barreto critica “uns tais diários sociais, vidas sociais, etc. Em alguns tomam colunas, e, às vezes, páginas. Aqui nesta Gazeta, ocupa, quase sempre duas e três”. E prossegue o literato:

“Mas isso é querer empregar espaço em pura perda. Tipos ricos e pobres, néscios e sábios, julgam que as suas festas íntimas ou os seus lutos têm um grande interesse para todo o mundo. Sei bem o que é que se visa com isso: agradar, captar o níquel, com esse meio infalível: o nome no jornal”.

“Mas para serem lógicos com eles mesmos, os jornais deviam transformar-se em registros de nomes próprios, pois só os pondo aos milheiros é que teriam uma venda compensadora. A coisa deveria ser paga e estou certo que os tais diários não desapareceriam”.

Os diários precisam se reinventar e acredito que há um público leitor sedento pela leitura de suas páginas, desde que elas não sejam preguiçosas reproduções do que já se encontra disponível na internet. A citadas reportagens sobre Palocci na Folha e a fome n’O Dia indicam claramente a relevância e o papel desse veículo na formação da opinião pública. Especialmente se considerarmos que o Plano Nacional de Banda Larga (PNLB) continua sendo uma peça de ficção que mantém a maioria da população distante da internet e também que a televisão parece insistir na sua costumeira superficialidade e indigência no trato da informação.

Na mesma crônica, Lima Barreto ainda afirma que “seria tolice exigir que os jornais fossem revistas literárias, mas isso de jornal sem folhetins, sem crônicas, sem artigos, sem comentários, sem informações, sem curiosidades, não se compreende absolutamente”. Passados cem anos, o jornal precisa definir que rumo tomar, mas certamente isso não acontecerá enchendo páginas e páginas de matérias copiadas dos grandes portais de notícias ou de gente ilustre que ninguém conhece e cujas festas só interessa aos seus seletos convidados. Afinal, o que pretendem os jornais, cativar seus leitores ou tornar-se meros congêneres de revistas de celebridades, como tantas que já temos por aí?

Embora meu interesse primordial seja pelo passado da imprensa e do jornalismo, ratifico aqui o meu desejo: vida longa ao jornal diário!

Denílson Botelho
Prof. de História da UFPI
Publicado no jornal O Dia (Teresina), em 06.08.2011, sábado (Coluna Fórum, publicada no Caderno Em Dia, pág. 4)

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