13 de agosto de 2011

O que aprendemos com a morte de Sandro?

Você já ouviu falar de Sandro do Nascimento? Ele foi o jovem protagonista de uma tragédia ocorrida no Rio de Janeiro em 12 de junho de 2000 e transmitida ao vivo para todo o Brasil pelas emissoras de TV. Sequestrou um ônibus da linha 174 na rua Jardim Botânico, mantendo seus passageiros como reféns por algumas horas. Ao final do sequestro, foi assassinado dentro de um camburão da polícia em que deveria ter sido apenas levado preso até a delegacia.

Essa história foi brilhantemente retratada num documentário intitulado “Ônibus 174”, dirigido em 2002 pelo agora famoso José Padilha. É bom não confundir o documentário com a sua adaptação livre em forma de ficção (com atores interpretando aqueles que viveram esse drama na vida real), intitulado “Última parada 174”, dirigido por Bruno Barreto, em 2008. Afinal, a ficção baseada nos fatos ocorridos naquele dia dos namorados do ano 2000 é um filme comercial, um caça-níqueis em busca do sucesso de bilheteria.

Assisti ao documentário mais de uma dúzia de vezes. Não por uma obsessão qualquer ou porque eu seja uma espécie de cinemaníaco. Sou amante dos documentários e o Brasil é pródigo e talentoso nesse ramo de produção cinematográfica. Mas minhas diversas sessões de “Ônibus 174” são ossos do ofício de professor. Exibi diversas vezes esse filme para alunos do ensino superior e em todas elas eu me sentava e apreciava cada cena de novo, descobrindo novos detalhes e municiando-me de argumentos e questões para os debates que se sucediam às tais sessões.

O documentário parte do episódio do sequestro mas é uma espécie de cinebiografia de Sandro. Padilha é movido pelo desejo de contar e explicar a história daquele jovem seqüestrador. Quem ele era? De onde veio? Como chegou até aquele momento dramático de sua breve trajetória de vida?

É curioso lembrar que muitas vezes vi alunos dividirem-se entre duas posições ao longo da exibição e dos debates que se sucediam: uns clamavam o tempo todo pela morte de Sandro, quase como um desejo de vingança; outros pouco a pouco cediam ao desejo de compreendê-lo, chegando mesmo a se apiedar de sua condição. Ou seja, oscilavam entre identificá-lo como vítima ou algoz, custando a perceber que ele exerceu esse duplo papel.

E Padilha pretendeu acima de tudo compreender quem foi Sandro e não julgá-lo. Ao descobrir que aquele jovem rapaz negro, viveu boa parte de sua vida pelas ruas, sem pai nem mãe ou qualquer assistência do Estado, tendo inclusive sobrevivido à outra tragédia marcante na história da cidade do Rio de Janeiro – a Chacina da Candelária, em que vários meninos de rua foram brutalmente assassinados no centro da cidade, em 1993 – começamos a compreender que há uma engrenagem em funcionamento regendo os rumos de sua vida. Quando percebemos que boa parte dos meninos que sobreviveu àquela noite de terror na Candelária foram assassinados ao longo dos anos seguintes, compreendemos que em 2000 chegara a hora de Sandro ser também impiedosamente eliminado. Operou-se e opera-se uma espécie de extermínio dos pobres e miseráveis, especialmente daqueles que ousam desafiar o ordeiro funcionamento de nossa sociedade capitalista.

Essas considerações ressurgem em face do sequestro de um ônibus no Rio de Janeiro ocorrido nessa semana. De novo, o pesadelo daquele 12 de junho de 2000 veio perturbar-nos a memória. Ressurgiram as imagens de Sandro e tudo mais, quase que inevitavelmente. E ficamos a nos perguntar sobre o que aprendermos com o episódio tão bem retratado por Padilha? Aprendemos alguma coisa?

Certamente alguém poderá argumentar que sim, pois aí estão as Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs, como a melhor – será mesmo? - resposta produzida pelo Estado nos últimos tempos. Vários morros e favelas foram ocupados pela polícia, não sem a pirotecnia peculiar aos marketeiros de plantão. E muitos poderiam vangloriar-se dos tempos de paz vividos na cidade sede da Olimpíada de 2016, quando irrompe um novo sequestro de ônibus a nos atormentar. Sejamos justos ao admitir que um episódio de violência como esse não surpreenderia nenhuma capital brasileira. Padecemos todos, nos quatro cantos do país, dos mesmos males.

Mas quem melhor analisou o que representam hoje as UPPs foi o sociólogo Michel Misse. O coordenador do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana da UFRJ, autor do livro “Crime e violência no Brasil contemporâneo” (no prelo), publicou artigo extremamente esclarecedor na edição de julho do “Le Monde Diplomatique Brasil”, intitulado “Os rearranjos de poder no Rio de Janeiro”. Nesse texto, destaca que a “pacificação”, que já atinge vinte importantes áreas da capital fluminense, mantém uma lógica de operar por territórios. E o desafio está justamente em se transformar numa política de desterritorialização, capaz de integrar as áreas ocupadas à cidade.

Nas palavras de Misse, “o desafio da permanência agora não é, como se supõe, o de levar ‘políticas públicas’ para os territórios, mas – por paradoxal que pareça – desterritorializá-los, isto é, integrá-los como bairros normalizados à cidade, dissolvê-los enquanto ‘territórios’, inclusive ‘territórios de UPPs’”. Caso contrário, estaremos reificando nos territórios “relações sociais de segregação e estigma, de desigualdade e repressão”. E conclui o autor com maestria: “nesse sentido, as UPPs terão alcançado sucesso quando não buscarem a permanência, quando não buscarem uma nova (ainda que bem intencionada) territorialização. É mais ou menos como o Bolsa Família: o sucesso depende de que o programa alcance seu fim, isto é, que tenha como meta alcançável seu próprio fim”.

O sequestro do ônibus ocorrido nessa semana não se deu em território de uma UPP e isso sugere que falta muito para alcançarmos a desterritorialização proposta por Misse. Integrar a cidade – e o país – como um todo significa ampliar as conquistas da cidadania, oferecer educação e saúde pública de qualidade a todos, salários dignos aos professores, médicos, bombeiros, policiais e demais agentes do Estado a serviço da sociedade – atitude que Sérgio Cabral e os demais governantes têm negligenciado.

Pelo visto, há Rio de Janeiro demais para UPP de menos. Ou seja, o Rio não cabe nas UPPs. E jamais caberá! Não aprendemos nada, ou quase nada, com a morte de Sandro do Nascimento. Aquela tal engrenagem continua em funcionamento fazendo suas vítimas habituais. Até quando?

Denilson Botelho
Prof. de História da UFPI
Doutor em História Social pela UNICAMP

Publicado no jornal O Dia (Teresina), em 13.08.2011, sábado (Coluna Fórum, publicada no Caderno Em Dia, pág. 4)

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