20 de agosto de 2011

Filhos de Clio

“Veio para ressuscitar o tempo e escalpelar os mortos, as condecorações, as liturgias, as espadas, o espectro das fazendas submergidas, o muro de pedra entre membros da família, o ardido queixume das solteironas, os negócios de trapaças, as ilusões jamais confirmadas nem desfeitas”. É com o inicio do poema “O Historiador” de Carlos Drummond de Andrade que começo minha elegia a esse filho de Clio, deusa da História, o historiador.

Como já bem nos diz Drummond, o historiador veio para ressuscitar o tempo: o passado, e agora o presente. Anteriormente, quando se tocava no nome historiador éramos remetidos somente aquela pessoa que estudava o passado tal como ele aconteceu. Essa definição de nosso ofício já está por demais superada. O historiador é o pesquisador que estuda o passado, mas não somente ele. O historiador agora também estuda o presente. Essa revolução na historiografia mundial se dá no início do século XX, quando uma corrente historiográfica francesa, denominada Escola dos Annales, veio com uma nova perspectiva de se estudar a História. Para esses historiadores precursores do movimento, a História é mais do que simplesmente narrar os fatos tal como eles aconteceram – o chamado método positivista. O historiador, a partir de então, tinha a responsabilidade de problematizar seu estudo, isto é, a fonte não iria mais falar por si só, como queriam os positivistas, mas caberia ao historiador fazer as perguntas à mesma; fazer a fonte falar a partir das suas inquietações, das inquietações do seu presente.

O oficio do historiador resulta muito da relação do historiador com o mundo, das suas inquietações, da sua relação de vida e etc. Em suma, a prática historiográfica vem muito de uma questão pessoal. Às vezes, eu mesmo falo que o historiador é um ser frustrado. Frustrado no sentido de não ter vivido a época que ele propõe-se a estudar. E uma maneira de superar isso é estudar aquilo que lhe interessa; aquilo que gosta. Como bem nos diz a Prof.ª Teresinha Queiroz, não devemos pesquisar sem amor. O historiador tem que amar o tema que pesquisa, tem que gostar por uma questão pessoal e não uma imposição, pois caso isso aconteça seu leitor irá perceber certo grau de frustração em seu trabalho. Com amor, penso eu, seja tudo melhor.

É graças aos historiadores formados pela Universidade Federal do Piauí e Universidade Estadual do Piauí que a História do Piauí está ganhando destaque e visibilidade em nosso Estado. Graças às pesquisas desenvolvidas pelos estudantes da graduação, mestrado, e professores dessas universidades, que Clio se satisfaz com seus filhos. Não há um povo sem História. E é por isso que devemos ressaltar o papel dessas instituições, bem como dos historiadores de formação e, por conseguinte, daqueles que não tiveram essa oportunidade, todavia desempenham o mesmo papel, quiçá até melhor do que os de formação.

E é hoje, 19 de Agosto, dia do Historiador que encerro essa minha elegia com o final do poema de Carlos Drummond de Andrade. O historiador “veio para contar o que não faz jus a ser glorificado e se deposita, grânulo, no poço vazio da memória. É importuno, sabe-se importuno e insiste, rancoroso, fiel.” Portanto, o que mais pedimos aos historiadores do Piauí é amor a sua terra, amor ao que é nosso, amor a nossa História. Salve Clio!

Vinicius Alves Cardoso é graduando em História pela UFPI.

Artigo publicado na página de Opinião do jornal O Dia (Teresina), em 19/08/2011.

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