30 de julho de 2011

Quando a memória não quer calar


Uma breve temporada de dez dias no Rio de Janeiro - de onde escrevo - pauta a coluna de hoje. Migrado há cerca de dois anos da capital fluminense para Teresina, retorno regularmente à cidade para rever parte da família que aqui continua a viver. E não possuindo mais um endereço no Rio, passei parte desse período numa área da cidade pouco conhecida e inexplorada por muitos até pouco tempo atrás, especialmente por turistas. Refiro-me à zona portuária, formada pelos bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo, que situam-se entre a rodoviária e a Praça Mauá - essa mais conhecida.

Cresci nessa região da cidade, onde meu pai vive há 71 anos e de onde ele insiste em dizer que não sai para lugar nenhum, a não ser para o Caju - numa referência ao bairro que possui um dos maiores cemitérios da cidade, também situado na mesma zona portuária. Deixei de morar no bairro quando cursava a graduação em Niterói, mas jamais me desfiz dessas raízes e das memórias que sempre carrego carinhosamente comigo. Dos 11 aos 15 anos de idade eu percorria a pé diariamente toda a longa e sinuosa rua Sacadura Cabral, fazendo o trajeto de ida e volta entre minha casa e o Colégio de São Bento (o acesso ao Google Maps ou Google Earth pode dar uma dimensão do que isso significa). Como era apenas um adolescente, não percebia o quanto o caminho estava repleto de referências históricas.

DEscendo a rua Conselheiro Zacarias, onde vivem meus pais até hoje, entrava na Sacadura Cabral e logo me deparava com o Quartel do 5º Batalhão da Polícia Militar (5ºBPM), ladeado pela Praça da Harmonia e pelo gigantesco Moinho Fluminense. Essas edificações ainda existem e correspondem praticamente a três quarteirões percorridos. Da praça já vislumbramos o que hoje é o Morro da Providência, que foi a primeira favela formada no Rio de Janeiro, recebendo aliás o nome de Morro da Favela. A Sacadura Cabral vai contornando o morro, passa pelo gigantesco Hospital dos Servidores do Estado - onde o general-presidente João Batista Figueiredo esteve certa vez internado, nos áureos tempos em que o mesmo ainda não havia sido vilipendiado pelo SUS. No cruzamento com a rua Camerino separam-se os morros da Providência e da Conceição. Este último guarda ainda hoje características do Rio colonial, com suas ruas estreitas serpenteando a encosta. A certa altura, situa-se numa de suas encostas a chamada Pedra do Sal, remanescente do período da escravidão. E avançando em direção à Praça Mauá havia ainda os cabarés que marcaram época no local, um ao lado do outro. Depois era cruzar a atual Avenida Rio Branco, antiga Avenida Central, entrar na rua Dom Gerardo e subir o morro de São Bento, um dos marcos iniciais do povoamento da cidade, que dá nome ao colégio ainda tradicional e exclusivamente destinado a meninos.

Ocorre que circular por essa região atualmente me dá a impressão de que parte do Rio passa por um novo bota-abaixo, tal como aquele promovido há cerca de um século pelo Prefeito Pereira Passos. Com o intuito de aparelhar a cidade para receber alguns jogos da Copa do Mundo de Futebol em 2014 e as Olimpíadas de 2016, prefeito e governador levam a cabo reformas vultosas e profundas em várias regiões da cidade. Nesses bairros a que me referi, a meta é transformar o velho cais no Porto Maravilha - título com cheiro de marketing barato!

O fato é que o passado tem imposto alguns reveses ao curso dessas obras. Na larga avenida Barão de Teffé, por exemplo, escavações vinham sendo feitas para sanar de uma vez por todas um crônico problema naquele local: o alagamento causado por chuvas torrenciais que castigam a cidade a cada verão. Eis que as tais escavações e a implantação de novas galerias de escoamento para as águas pluviais esbarraram em resquícios arqueológicos do século XVIII, que remetem ao desembarque de escravos naquela região.

Pode ser que as obras avancem e tudo indica que em poucos anos a zona portuária esteja reurbanizada, reformada e transformada em novo ponto turístico da cidade - ensejando inclusive uma intensa especulação imobiliária que pode vir a expulsar de algumas áreas a população mais pobre que ali sempre viveu. Mas o grande atrativo daquela região, além da visão deslumbrante da baía de Guanabara, será mesmo a história, o patrimônio histórico e cultural, material e imaterial que clama pela atenção de quem passa por ali.

Só para citar um exemplo, vou me referir à Praça da Harmonia, também denominada Praça Coronel Assumpção. Aquela pracinha onde dei minhas primeiras voltas de bicicleta - uma caloi pequena e vermelhinha - é o que poderíamos classificar como um lugar de memória, bem ao gosto do que preconiza o historiador francês Pierre Nora. Não foi exatamente a harmonia que prevaleceu naquele local no ano de 1904. Naquele ano ali eclodiu a Revolta da Vacina e foram montadas as barricadas da Saúde. Um movimento social urbano parou a cidade e tornou-se um conflito de consequências imprevisíveis durante alguns dias. A Marinha chegou a se posicionar na baía de Guanabara para o caso de um bombardeio tornar-se inevitável estratégia no sentido de debelar a rebelião - que foi sufocada sem que se chegasse a esse extremo.

Quatro anos depois da revolta ergueu-se no local um quartel da polícia. A data de inauguração gravada no frontispício da edificação está lá como testemunha: 1908. E ao seu lado fez-se então a Praça da Harmonia. Ou seja, deu-se nitidamente uma operação cujos desdobramentos fundamentais remetem ao campo da memória. No lugar da desordem (da revolta), se construiu um símbolo da ordem (o quartel). Onde no passado houve rebelião e inconformismo, implantou-se a Harmonia (que está no nome da praça). E assim se apagou e ocultou a história da Revolta da Vacina no bairro da Saúde. Lembro que estudei quatro anos numa escola pública municipal a duas quadras da praça e nunca tomei conhecimento disso naquela época. Só mesmo como estudante de História fui descobrir em que terreno eu pisava ao longo de toda minha infância e juventude.

Cem anos depois da Revolta da Vacina, em 2004, um grupo de abnegados foliões criou um bloco carnavalesco chamado Cordão do Prata Preta, numa referência e homenagem a Horácio José da Silva, estivador e capoeirista que foi um dos líderes da revolta de 1904, sendo preso e deportado para o Acre. Horácio ficou conhecido como Prata Preta. E se não fosse pelo bloco carnavalesco recém-criado, o silenciamento dessa memória seria um sucesso até hoje. Só mesmo o olhar elitista e burguês da nossa sociedade é que insiste em considerar nossas festas populares - como o carnaval - como a mais completa expressão da alienação popular. Vida longa ao Cordão do Prata Preta!

Por Denilson Botelho

Publicado n'O Dia (Teresina), em 30 de julho de 2011.

2 comentários:

Sergio Watson disse...

Muito bom artigo. Trabalhei nesta região por 30 anos e só agora soube de todos os detalhes com relação a revolta da vacina.

ACORDABAMBA disse...

Amigo Denilson!
Belo texto, daqueles que postulamos "definitivo"! Nós moradores, cria da região portuária, não podemos ser inocentes ao ponto de achar que o novo bota-abaixo capitaneado pela dupla Paes/Cabral seja para beneficiar os moradores de Saúde, Santo Cristo e Gamboa. Não é. Só resta, através do Prata Preta, o nosso estimado Cordão, levantar as barricadas possíveis e imagináveis que possam, pelo menos, atenuar os efeitos desastrosos que a revitalização da região trará aos moradores que permanecerem por aqui!!!
Cordiais Saudações,
Orlando Rey - Cordão do Prata Preta