23 de julho de 2011

Para que serve o Ideb?

Matéria publicada na edição de Veja de 13 de julho de 2011 chegou às minhas mãos. Faço questão de descrever a situação dessa forma porque não sou leitor dessa revista. O seu perfil escancaradamente tendencioso, os interesses que esse veículo representa e o seu perfil ideológico não me agradam nem um pouco. Por isso, há muito tempo deixei de ler Veja. Cansei! Mas o fato é que a referida edição destinou quatro páginas a um texto do economista Gustavo Ioschpe sobre educação. Em síntese, trata-se da defesa entusiasmada de uma idéia aparentemente simples e útil - apenas aparentemente: cada escola pública deve divulgar numa placa bem visível na entrada principal o seu IDEB.

Em princípio, quem ousaria ser contra tal iniciativa formulada por Ioschpe? A proposta parece tão justa que vários municípios já se apressaram em adotá-la, inclusive Teresina, através de lei municipal. Se de fato já foi implementada é outra história. Mas eu quero aqui manifestar o meu desacordo e descontentamento com essa iniciativa. Discordo mesmo da proposta difundida pelo economista - e não estou sozinho ao manifestar minha discordância. Precisamos refletir sobre o significado desses índices e avaliações.

Existe no Brasil um Movimento Contra Testes de Alto Impacto na Educação que é coordenado por Luiz Carlos de Freitas, Professor Titular da Faculdade de Educação da UNICAMP. Em junho de 2011, a revista Caros Amigos - esta sim vale a pena ler e assinar - lançou uma edição especial intitulada "Educação - O que fazer para tirar o Brasil do atraso". Um artigo do coordenador desse movimento, publicado na página 11 dessa edição, fornece motivos suficientes para fundamentar a crítica a Ioschpe. Assim, vou me permitir reproduzir a seguir seus trechos mais esclarecedores.

"A educação é sempre um campo em disputa. Tem uma ligação tão grande com as questões relativas à formação de mão de obra em nossa sociedade, que economistas, muitas vezes escalados pelos interesses dos empresários, predominam na hora de definir os caminhos da educação. Educadores profissionais pouco são ouvidos na elaboração das políticas públicas educacionais, e a mídia, em particular, abre espaço para os homens de negócio e seus representantes e muito menos para educadores".

"A conversa é sempre a mesma. Os educadores não são objetivos ou não têm propostas concretas. São ideólogos e não cientistas. Os reformadores empresariais procuram se contrapor dizendo que eles, sim, são objetivos e não fazem ideologia. Como se isso fosse possível, pois não fazer ideologia já é uma o p ção ideológica".

"A educação sofre e sofrerá nos próximos anos o assédio dos reformadores empresariais. Para eles, a educação é um subsistema do aparato produtivo e nisso se resume. Para os educadores profissionais, porém, formar para o trabalho é apenas parte das tarefas educacionais. E aí está uma divergência central".

"Para reformadores empresariais, os objetivos da educação se resumem em uma "matriz de referência" para se elaborar um teste que meça habilidades ou competências básicas- via de regra limitadas a português, matemática e ciências. Para educadores profissionais, os objetivos não se limitam a isso. O que implica pensar o jovem em toda sua capacidade de desenvolvimento formativo, ou seja, sua capacidade de sentir, pensar, criar- incluído as demais disciplinas. Para os reformadores empresariais, no entanto, isso não é objetivo- ou seja, não atende aos interesses imediatos da porta da fábrica..."

" P or tanto, se pretendemos ter um sistema educacional de qualidade, o primeiro passo é o que entendemos por esta qualidade e qual o projeto formativo que temos a oferecer à juventude - aditanto: isso não cabe nos testes. É prudente, portanto, recusar a 'objetividade' dos reformadores empresariais e formatar um projeto educacional que oriente o país".

"(...) Acontece que o Plano Nacional de Educação estabelece como 'projeto educacional' sair-se bem no IDEB e este foi vergonhosamente amarrado aos resultados do PISA, teste de aprendizagem conduzido por um organismo internacional a serviço dos empresários, a OCDE - Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico. Assim, fica definido nosso 'projeto educacional': os alunos devem sair-se bem na Prova Brasil (português, matemática e futuramente ciências), as escolas devem ter um bom IDEB e todos devemos ser bem avaliados aos 15 anos de idade no PISA da OCDE em português, matemática e ciênc ia s. Décadas atrás gritávamos contra os acordos MEC-USAID, hoje aceitamos a subordinação dos interesses formativos da nossa juventude à OCDE, e a União Nacional dos Estudantes não diz nada e a Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação está perfilada ante o MEC".

"Os reformadores empresariais argumentam que português e matemática é o básico para se formar para a cidadania. Entretanto, não definem o que entendem por cidadania, o que termina resumindo-se em atender aos interesses das corporações empresariais. O problema em limitar-se ao básico é que o básico, por definição, exclui aquilo que se considera que não é básico. E isso é uma decisão ideologicamente orientada. As artes, o corpo, os sentimentos, a afetividade, a criatividade devem ser desenvolvidas simultaneamente e não após o básico. As crianças das camadas populares só têm a escola para desenvolver tais habilidades. Não passam duas vezes pela escola: primeiro par a a prender o básico, e depois para expandir o básico. É um engodo, portanto, falarmos que o básico vem primeiro".

A Fórum de hoje sugere ao leitor que observe a necessidade de confrontar os discursos emanados da mídia. Hoje coloquei Veja e Caros Amigos para conversar diante dos seus olhos. A pergunta que fica no ar é a seguinte: para que servirá o IDEB afixado na porta das escolas, em lugar bem visível, como propõe Ioschpe? Me parece que isso não passa de mais um engodo...
Denilson Botelho é Professor de História da UFPI
Publicado no jornal O DIA, em 23.07.2011.

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