12 de julho de 2011

O jornalismo literário e a história da imprensa

No último dia 28 de junho tive a oportunidade de participar do IV Ciclo de Debates sobre História da Imprensa, realizado no Auditório do CCE/UFPI e organizado pelo Grupo de Pesquisa liderado pela Profª Jaqueline Dourado, do Curso de Comunicação Social. À despeito da importância de eventos como esse, em que a universidade abre-se para o debate público fomentando uma tão necessária interdisciplinaridade, gostaria de compartilhar aqui, de forma breve, um pouco do que expus naquela ocasião.

Como qualquer historiador, meu interesse pela história da imprensa é presidido pelas inquietações diante do presente. E convenhamos, a imprensa e a mídia em geral nos causam inúmeras inquietações. Uma delas provém de um artigo de Ali Kamel, publicado no jornal O Globo, do Rio de Janeiro, em 23 de janeiro de 2007. Intitulado “O jornalismo”, o texto é uma pérola em matéria de dissimulação.

Primeiro convém lembrar aos mais desavisados que Kamel é o diretor de jornalismo da Rede Globo de Televisão. Quando terminam os jornais dessa emissora, o nome dele é um dos últimos que aparece entre os créditos expostos na tela, dada a sua importância na hierarquia da redação instalada no nobre bairro carioca do Jardim Botânico. Conhecido também por ter escrito um livro com o curioso – para não dizer cínico - título “Não somos racistas”, naquele artigo para o diário carioca ele pergunta: “o jornalismo é um campo de batalha de ideologias ou é uma forma de conhecimento da realidade?”

E eu, que em 2007 lecionava disciplinas de História e Ciências Humanas em cursos de Comunicação Social, fiquei absolutamente perplexo diante dessa indagação. Perplexo porque julgava essa discussão completamente superada e sepultada. E perplexo também porque se trata de uma falsa questão formulada pelo “cérebro” do jornalismo emanada da Rede Globo.

Para responder a tal pergunta, o autor comete verdadeiras peripécias discursivas. Vejamos: “Diante de uma miríade de acontecimentos, os jornalistas são treinados para discernir que fatos têm relevância e narrá-los e analisá-los de maneira lógica e isenta”. A prova dos nove disso, segundo Kamel, pode ser obtida comparando diferentes jornais: “No Brasil, o leitor pode verificar que Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo e O Globo (...) destacam sempre mais ou menos os mesmos assuntos. Não é falta de criatividade, é que os jornalistas que neles trabalham, profissionais treinados, sabem reconhecer num enxame de fatos, o que é relevante e o que não é”.

Ainda que o autor insista em sugerir que a formação de jornalistas resuma-se a um bom treinamento para identificar o que é ou não relevante, tornando-os capazes de narrar os fatos com isenção, jamais me identifiquei com a condição de treinador ou adestrador, mesmo depois de lecionar por vários anos em cursos de jornalismo. A partir do campo das ciências humanas, procurei sobretudo fomentar a formação crítica e intelectual desses profissionais.

Mas por que aquela pergunta inicial é uma falsa questão? Porque o jornalismo tanto é uma forma de conhecimento da realidade, quanto um acirrado campo de batalhas de ideologias. Afirmar a primeira idéia para negar a segunda é no mínimo má fé ou deliberada tentativa de ludibriar o leitor, sobretudo o mais ingênuo.

A imprensa não nos apresenta a realidade de forma neutra e isenta (quase verdadeira?). Apresenta sim um conhecimento sobre o mundo que nos cerca, mas esse conhecimento é atravessado por ideologias e interesses de classe. Qualquer leitor ou espectador um pouco mais atento e crítico percebe como essas opções ideológicas e interesses de classe não esfregados no seu nariz a todo instante.

Talvez por isso haja um crescente interesse nos últimos anos pelo jornalismo literário. Tudo indica que esse gênero funciona como um eficiente antídoto contra o discurso ultrapassado do jornalismo isento e neutro. Afinal, nele podemos ver o autor se colocando dentro do texto e conduzindo o olhar do leitor sobre uma determinada realidade. Soa como quem diz: eis os fatos! E tire suas próprias conclusões.

Para exemplificar o tipo de procedimento de um jornalismo literário, reporto-me a uma matéria publicada aqui mesmo nesse jornal, no dia 3 de fevereiro do ano corrente. Diante da divulgação dos resultados de uma pesquisa do Laboratório de Estudos da Pobreza (LEP), vinculado à Universidade Federal do Ceará (UFC), indicando que metade da nossa população vive com menos de um salário mínimo, Mayara Bastos fez um retrato da pobreza em Teresina no seu texto. Ao invés de se limitar à divulgação de eloquentes estatísticas sobre a fome, deu vida aos números e aos dramas e histórias que se escondem por trás deles. Pegou o leitor pela mão e o conduziu ao interior da casa do senhor Raimundo Nonato, fazendo-o ver – quase com os próprios olhos – o que se passa ali dentro: “os caroços de feijão dispersos na panela fazem parte do dia-a-dia da família composta por oito pessoas”, descreve a repórter. Uma coisa é noticiar dados sobre a fome, outra radicalmente diferente é levar ao conhecimento público como vive quem passa fome cotidianamente. Mayara Bastos fez isso, consciente ou não de que se trata de jornalismo literário.

Essa inquietação leva-me, atualmente, em busca da história desse jornalismo literário no Brasil. Quero entender melhor como e quando isso começou a se desenvolver entre nós, fazendo disso tema de pesquisa em desenvolvimento na UFPI. E não me conformo com a tese de que tudo começou por volta da década de 1960, como mímese do movimento do “novo jornalismo” norte-americano. Por maior que seja a minha admiração por Gay Talese, George Orwell, Norman Mailer e outros, minha hipótese é de que esse jornalismo literário surgiu bem antes entre nós, ainda nas primeiras décadas do século XX, com Lima Barreto, João do Rio e outros escritores que atuaram intensamente na imprensa daquele período. Ou seja, trata-se de uma tradição genuinamente nacional e que, já no início do século XX, nas palavras de Lima Barreto, percebia a imprensa como um “engenhoso aparelho de aparições e eclipses, espécie complicada de tablado de mágica e espelho prestidigitador, provocando ilusões, fantasmagorias, ressurgimentos, glorificações e apoteoses com pedacinhos de chumbo, uma máquina Marinoni e a estupidez das multidões”.

Entre Ali Kamel e Lima Barreto, eu fico com o segundo.

Publicado no jornal O Dia (Teresina), em 12.07.2011, terça-feira (Coluna Fórum, publicada no Caderno Em Dia, pág. 2)

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