16 de julho de 2011

A Igreja entre Higino Cunha e um caído que levanta o outro

Nunca esqueci de um diálogo que tive quando ainda cursava a graduação em História na Universidade Federal Fluminense, em Niterói. Como morava no Rio de Janeiro, cruzava a baía de Guanabara ao final de todas as tardes, de segunda a sexta, de barca – e isso sempre me faz pensar sobre o quanto deixamos de explorar o transporte marítimo, ou fluvial no caso da nossa Teresina servida por dois grandes rios. A travessia durava cerca de 20 minutos, tempo suficiente para concluir a leitura de um texto a ser discutido em aula ou para trocar dois dedos de prosa com algum colega de faculdade que rumava para o mesmo destino.

O tal diálogo foi marcante em função do questionamento produzido pelo meu interlocutor, aluno do curso de Administração na mesma universidade. Muito convencido das inúmeras possibilidades de atuação profissional que o curso dele certamente lhe franquearia, perguntou-me mais ou menos o seguinte: “para que serve um curso de história, além de formar professores? Vocês falam muito em pesquisa, mas as pesquisas na área de história não servem para nada, não é? No final das contas, vocês fazem pesquisa sobre o passado por mero diletantismo, pelo simples prazer de descrever o passado e só!”

A conversa esquentou e prosseguiu até mesmo depois do desembarque, enquanto nos afastávamos da estátua de Araribóia, que recepciona a todos que chegam em Niterói fazendo uso daquele meio de transporte. Ao invés de prosseguir com reminiscências sobre essa conversa, prefiro explicar um pouco para que serve a pesquisa em história citando, por exemplo, duas monografias de conclusão do Curso de História da UFPI, que foram apresentadas e defendidas ao longo da última semana. Acredito que esses trabalhos contraditam claramente o suposto diletantismo que aquele colega – e talvez não só ele – atribuem ao conhecimento que produzimos no âmbito do Centro de Ciências Humanas e Letras dessa universidade.

Se monografias desta natureza raramente são publicadas, o que é de se lamentar, esse espaço num jornal da capital piauiense mostra-se oportuno para explicitar a natureza desse tipo de trabalho. Cairo Bruno Souza da Silva, por exemplo, fez uma rica investigação sobre o envolvimento de Higino Cunha nos debates político-religiosos travados no Piauí no início do século XX. Um dos aspectos que mais me chamou a atenção na sua pesquisa diz respeito ao papel da Igreja Católica naquele contexto. Sendo um anticlerical convicto, Cunha atribuía, em algum grau, o precário desenvolvimento da instrução pública e o alto índice de analfabetismo que grassava no Estado naquele período à Igreja Católica e à orientação que a instituição seguia na época. Inclusive o governo de Miguel Rosa teria sido duramente criticado em jornais católicos por defender uma educação pública e laica. Assim, de certa forma, na visão de Higino Cunha e outros intelectuais, o catolicismo teria emperrado o combate ao analfabetismo e a difusão do ensino público em protesto contra a educação laica.

Por outro lado, a monografia de Denise Soares de Oliveira nos permite olhar para outra face dessa mesma instituição que é antes de tudo plural. Com o instigante e criativo título “Um caído que levanta o outro”, a jovem historiadora produziu um trabalho acadêmico que é também uma grave denúncia. Ao ler esse texto, somos tomados de indignação em relação às condições de trabalho e de exploração a que as quebradeiras de coco babaçu maranhenses estão submetidas dos anos 1990 até hoje. É inquietante o sistema arcaico, servil, que é examinado pela autora e que em tudo lembra o velho sistema de barracão. Desta forma, seu trabalho é um exemplo de que se pode fazer pesquisa acadêmica com rigor e ao mesmo tempo militar em defesa de uma causa, tal como célebres historiadores já fizeram, em especial E. P. Thompson, que inclusive lhe serve de referência teórica. O Brasil das quebradeiras de coco babaçu do final do século XX e início desse novo século tem cheiro de Brasil colonial, de uma escravidão extemporânea e inaceitável.

E na pesquisa de Denise Oliveira a Igreja Católica também se apresenta como personagem fundamental. Só que desta vez, trata-se da ala católica que na segunda metade do século XX fez ou refez a “opção preferencial pelos pobres” e através de seus agentes mais engajados contribuiu decisivamente para a organização de um movimento social vigoroso que reúne diversas mulheres quebradeiras de coco babaçu em terras maranhenses.

Temos aqui alguns frutos produzidos pela pesquisa nessa área. Na medida em que nos permitem refletir de forma mais fundamentada sobre o papel da Igreja Católica em certos momentos da história, podemos compreender melhor a situação em que vivemos. E isso tem especial relevância para as sociedades piauiense e maranhense, historicamente marcadas pela forte presença do catolicismo até os dias atuais. Nada como pisar no interior de uma Igreja consciente do que essa instituição representa e representou no passado. Eis o que a história é capaz de fazer por nós.

Publicado no jornal O Dia (Teresina), em 16.07.2011, sábado (Coluna Fórum, publicada no Caderno Em Dia, pág. 2)

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