11 de junho de 2011

O sujeito da história: entre a autonomia e a realidade concreta

Você é o que você quer ou o que você pôde ser? Esta pergunta pode até parecer simplória, mas insiste em martelar a cabeça de muitos estudantes de História, professores e pesquisadores da área. Formulada em termos mais acadêmicos, se apresentaria assim: os indivíduos gozam de plena autonomia e liberdade ao fazer suas escolhas ou existe algum grau de determinismo econômico e social a explicar suas atitudes e práticas concretas?

Ao longo do século XX, algumas correntes teórico-metodológicas nortearam a abordagem dos historiadores sobre o passado da humanidade. Uma dessas influências tinha origem no marxismo estruturalista e o seu modelo determinista de história. Nessa vertente, os elementos que compunham a infraestrutura – a economia, o modo como se organizava a produção e a vida material numa determinada sociedade – eram capazes de explicar e determinar o que se passava na superesturura – ou seja, no plano da vida cultural, do comportamento e práticas habituais dos indivíduos.

Outra influência recorrente, especialmente na historiografia brasileira, corresponde ao movimento dos Annales, de origem francesa. Autores como Marc Bloch, Lucien Febvre e Fernand Braudel valorizaram os aspectos socioeconômicos da história na busca da compreensão do passado. Braudel, por exemplo, enfatizava a dimensão geográfica como algo a ser considerado na explicação do comportamento humano. Sem retroceder à idéia de que o homem seria mero fruto do meio, argumentava que o espaço físico e o ambiente no qual o homem se move e se conduz na vida em sociedade não é um dado desprezível.

A unir ambas as correntes podemos perceber um certo estruturalismo que deitou fundas raízes no pensamento social e na historiografia brasileira. O fato é que nas últimas décadas parecemos mergulhados numa espécie de ressaca do estruturalismo, que levou-nos freqüentemente a condenar qualquer tipo de determinismo – e isso não deixa de ser uma atitude saudável. Alguns intelectuais têm chamado isto de culturalismo e na historiografia foi a história cultural (ou a nova história cultural) que abrigou inúmeros descontentes com o fazer historiográfico sob a égide estruturalista.

O historiador francês Roger Chartier afirma que operamos um deslocamento: de uma história social da cultura para uma história cultural da sociedade. Ou seja, a esfera cultural adquiriu o status de um campo autônomo, livre de determinações objetivas de natureza social e/ou econômica. E dessa forma ingressamos no mundo das representações. As classes populares não são o que pensam sobre elas as classes superiores, isto é apenas uma representação que não corresponde necessariamente à realidade e ao modo como as próprias camadas populares se percebem e se identificam.

Por mais que essas concepções sejam em alguma medida pertinentes, há um problema pelo fato de ensejarem uma espécie de império dos sentidos que lançou muitos historiadores em busca das sensibilidades, dos afetos, das práticas e representações como se estas não tivessem relações – indissociáveis, a meu ver – com a vida material, a luta pela subsistência, o sistema econômico em que vivemos (o capitalismo) e as estruturas sociais em que estamos indiscutivelmente inseridos.

Por isso que, quando um aluno de História compartilha comigo que não sabe mais como deve conceber o homem, se o toma como um sujeito histórico livre e autônomo ou determinado pelas suas circunstâncias socioeconômicas, não me resta outra alternativa a não ser a de inquiri-lo: você é o que você quer ou o que pôde ser? Estou convicto de que nós somos o que queremos ser dentro das possibilidades que tivemos ou temos.

Não tenho dúvidas de que somos livres para fazer escolhas e por isso somos dotados de certa autonomia. Mas também não sou cínico a ponto de não reconhecer que nossas escolhas são determinadas dentro de um campo de possibilidades cuja determinação remete-nos obrigatoriamente às condições concretas da vida em sociedade. Se na prática não somos iguais sequer perante as leis, que dirá para o exercício pleno de uma liberdade da qual poucos de nós ainda usufruímos no Brasil. E enquanto a alforria ampla, geral e irrestrita da igualdade social não vem, eu prefiro não recitar o mantra do culturalismo e de sua liberdade idealizada.

Afinal, vejamos o caso de José. Ele foi um menino pobre da periferia que sonhava ser médico quando crescesse. Submetido a uma formação escolar precária numa escola pública qualquer e a condições miseráveis de vida, ele concluiu o ensino médio. Não conseguiu conquistar uma vaga numa universidade pública e gratuita e não teve condições de arcar com os custos do ensino superior privado. Desiludido, foi trabalhar no comércio em troca de um salário mínimo e enterrou de vez seus sonhos e sua ambição acadêmica. José foi o que queria ser na vida ou o que pôde ser? Onde está a autonomia e a possibilidade de escolha na vida de José? Onde foi parar a liberdade de José? Ciente de que exceções não confirmam a regra, me diga, caro leitor, mais uma coisa: quantos Josés você conhece?

Denílson Botelho
Publicado no jornal O Dia (Teresina), em 11.06.2011.

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